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Entrevista

Como era trabalhar num gulag russo

Ivan Chistyakov era um engenheiro na cidade grande. Aí ele foi mandado para a Sibéria.

por Seth Ferranti; Traduzido por Marina Schnoor
07 Agosto 2017, 12:00pm

um gulag na URRS por volta de 1930. Foto por Universal History Archive / UIG via Getty Images.

Em outubro de 1935, Ivan Chistyakov foi julgado "insuficientemente proletário" e expulso do Partido Comunista na Rússia de Josef Stalin. Nem preciso dizer que não foi uma coisa muito positiva para a carreira do jovem engenheiro. Num pesadelo orwelliano da vida real, o rapaz urbano de 30 e poucos anos foi mandado para o Campo de Trabalho Corretivo Baikal Amur (BAM) na Sibéria, para trabalhar como guarda sem nenhuma justificativa — fora o fato de que ele era um pouco inteligente demais. Como ele escreveu em seu diário: "Aconteceu muito suavemente. Eles me chamaram e me mandaram embora. Membros do partido têm o Comitê do Partido, os gerentes das fábricas e o sindicato para interceder... Para o resto, ninguém diz uma palavra."

No novo livro The Day Will Pass Away: The Diary of a Gulag Prison Guard 1935-1936, Chistyakov, há muito tempo falecido, reflete sobre a vida diária numa das prisões mais notórias da história. O texto, traduzido dos diários em russo pelo vencedor do prêmio de tradução da PEN Literature Arch Tait, oferece detalhes em primeira mão das condições precárias que detentos e guardas encaravam no que era basicamente uma vastidão congelada. Cercado por hordas de criminosos e rebeldes que questionaram o status quo, Chistyakov fez tudo que podia para se manter são. Mas depois de um período que pareceu bastante infernal, ele foi preso em 1937, quando os expurgos de Stalin estavam no auge. Em outra situação, ele foi mandado para o fronte enquanto as tropas de Hitler avançavam na Operação Barbarossa em 1941, onde foi morto.

A VICE conversou com Tait para saber como é traduzir um diário de 80 anos atrás, o sofrimento dos detentos versus o das pessoas que os guardavam, e que relevância dessa era para a Rússia moderna.

VICE: Passando pelos textos de Chistyakov, você sentiu como se estivesse descobrindo algo pela primeira vez? Essa foi uma descoberta marcante, certo?
Arch Tait: Li o diário de Ivan primeiro, e só depois vi o caderno de um ano antes, com seus contos de caçador. Foi como se atualizar de uma imagem 2D para 3D. Lá estava ele, um ano antes, vivendo a vida de um cidadão qualquer da URSS em seu habitat natural. Um bônus foi a descoberta de suas ilustrações coloridas e divertidas, particularmente nos primeiros cadernos.

Como tradutor, se não pode conhecer o autor, você tem que ouvir cuidadosamente sua voz, tentando trabalhar com que tipo de pessoa você está lidando, quais são seus valores. O segundo caderno revelou Ivan como um solteiro sagaz e um pouco caprichoso, que gostava de fazer pegadinhas com pessoas à sua volta. O diário é um registro bem direto de seus pensamentos. Ele só não falava muito de tópicos como amigos e família.

O que emergiu quando você foi além da mitologia superficial do gulag?
Que isso é a realidade de tentar literalmente construir uma utopia. A realidade logo supera a teoria e aumentar a brutalidade é o único jeito de reprimir o fato cada vez mais óbvio. "Até agora", Ivan comenta, "a vida que levamos é puramente teórica. É o que eles dizem que é nos jornais. Se tentar falar em voz alta sobre o estado real das coisas, você terá grandes problemas". E logo ele teve mesmo, quando a esposa de um "conselheiro político" deixa escapar que ela e o marido estão discutindo o conteúdo de seu diário supostamente particular. "Ah, não", reflete Ivan, "esse diário vai fornecer muitas evidências".

"Seis meses depois de sua chegada, lemos: 'Peguei minha arma e coloquei contra a garganta. Seria tão fácil apertar o gatilho e então... não sentir nada'."

Em 1935, o sistema soviético estava aperfeiçoando a arte da seleção adversa, a capacidade de cortar aqueles que não eram servis o suficiente, um deles sendo Ivan Chistyakov. No gulag ele é acusado, depois de ficar do lado de um comandante da companhia, de "abordagem inapropriada para o convívio no trabalho", que é visto como uma causa de seus antecedentes sociais não-proletários ("pequeno burguês"). Uma de suas frustrações é que os supervisores do campo pareciam saber apenas intimidar, criticar e xingar. "Eles guincham periodicamente como bonecos de ventríloquo: 'Reprimenda! Está preso!! Cela de punição!!!' Como posso receber ordens de pessoas assim?"

A chegada e o período de transição com certeza foram bem loucos para ele, em parte porque ele parece perceber que muitos de seus detentos não deveriam estar ali.
Ivan descobriu que tinha um respeito considerável pelos indesejáveis sociais mais hardcore. As mulheres formavam gangues com regras e costumes de ladrões. Para elas, a líder da brigada era a madrinha. "Mama comanda tudo e todos. Mama bate ou perdoa, decide quem consegue trabalho, as alimenta ou deixa passando fome. Mama está no comando. Os homens ficam na sua, às vezes formando duplas."

Os homens jogavam cartas e quem perdia tinha que dizer algo sujo para os guardas, ou cortar um dedo ou mão na frente de todo mundo.

Ivan estava muito longe de Moscou. Ele menciona isso de passagem: "Alguém foi morto, outra pessoa foi morta. No Pelotão 3 um urso arrancou o escalpo de um caçador e destruiu seu fuzil. Eles o mataram com baionetas". Os guardas também podiam ser assassinados. "Na nossa unidade, se alguém for morto, eles vão preencher um relatório e só. Você escolheu vir para cá, o que esperava?"

Ele descreve a atitude sobre matar: "Fomos para a taiga procurando fugitivos e achamos corpos espalhados. Quem os matou? O quê? Ninguém faz ideia de quem são essas pessoas. Se alguém te irrita e você atira nela, é só deixar o corpo onde ele caiu. Se alguém achar, ótimo. Se não, a pessoa já está morta mesmo."

Como Ivan se tornou uma parte tão relutante do estado soviético na época dele no gulag?
Alguém pergunta a Ivan: "O que você, um homem com estudo, está fazendo servindo como comandante de pelotão de guardas armados?" A resposta dele foi "Me reviste. Alguém tem um senso de humor sujo?" Ele era um gerente numa fábrica de engenharia em Moscou, um esportista e caçador, e adorava cinema e teatro. Ele achava as ofertas de cultura em Zavitaya [onde o gulag ficava] deprimentes, e seu entusiasmo por pintura, desenho e fotografia era visto por seus superiores como uma confirmação de que ele era um inimigo burguês. "Os guardas estão começando a não gostar de mim", ele escreveu. "Eles são conscientes. Animais com cérebro. Bom, animais de qualquer maneira. Mas eles não têm interesse em nada, são idiotas. Cabeças de prego. Eles ficam bêbados até perder a consciência, cinco noites por semana, por meses, anos."

Seu afastamento de uma vida mais sofisticada na cidade obviamente foi difícil. Mas Ivan também parecia chocado com a brutalidade dos detentos.
Ivan era bastante reticente com seu trabalho diário; por exemplo, ele é mandado em condições precárias para caçar fugitivos. "Fomos mandados atrás de delinquentes juvenis", ele conta. "Cheios de pulgas, sujos, sem roupas quentes. Não há banheiro porque não podemos passar seis rublos do orçamento, o que daria um copeque por cabeça. Há discussões sobre a necessidade de evitar fugas. Eles procuram causas, usam armas, mas não veem que eles são a causa, sua preguiça, sua burocracia ou simples sabotagem. As pessoas estão descalças e vestidas inadequadamente mesmo havendo o suficiente para todos no armazém."

Apesar de lamentações periódicas, uma crítica ao texto é a relativa pouca atenção que Ivan dá aos detentos em oposição a pessoas como ele. Isso te incomoda?
Para mim, o aspecto mais hipnótico do diário é seu retrato de Ivan Petrovich Chistyakov, um homem azarado que viveu em tempos interessantes. A última coisa que ele escreveu no diário foi um ano antes dos grandes expurgos de Stalin começarem em 1937. Logo na chegada, Ivan confronta imediatamente uma realidade muito diferente do que a propaganda pregava. Ele comparece ao quartel-general da Guarda Armada da NKVD [a política secreta] e encontra os homens deitados nas camas, fumando. Dois guardas estão rolando pelo chão numa luta, outro está rindo com as pernas para o ar. Outro lamenta sua situação com um acordeão furado, cantando "Não temos medo de trabalho, só não vamos fazê-lo".

Primeiro, apesar do choque da transição de sua vida razoavelmente confortável em Moscou para as condições precárias na Sibéria, ele sentia algum orgulho no projeto de construir uma segunda via estrategicamente importante para a Ferrovia Transiberiana para o norte da China. Mas logo ele está protestando que "a era da Guerra Comunista acabou e a Cheka [polícia secreta] deveria ter mudado. Stalin disse 'Uma maior preocupação com as pessoas deve ser mostrada em medidas completas'. Mas aqui? Aqui estou relutante em sequer imaginar que as palavras de Stalin se aplicam".

Ivan era como um pássaro engaiolado: "Há outro mundo lá fora. Sei que ele existe, mas não posso chegar lá. Quero trabalhar na minha verdadeira profissão, estudar, me manter atualizado com a tecnologia dos metais e colocar isso em prática. Viver entre pessoas educadas, ir ao teatro e ao cinema, a palestras, museus e exposições. Quero desenhar. Andar de moto, e talvez vendê-la e comprar um desses paraquedas lançados por catapultas e voar".

Seis meses depois de sua chegada, lemos: "Peguei minha arma e coloquei contra a garganta. Seria tão fácil apertar o gatilho e então... não sentir nada".

Além de ser uma janela para uma era passada de sofrimento, o texto tem alguma relevância para a cultura contemporânea russa?
O regime russo atual parece disposto a reabilitar o período de Stalin como algo normal da história russa. Chistyakov, um homem estudando com um temperamento artístico, testemunha sobre a falta de aceitação humana do que estava sendo feito na época. Ele descreve o nascer do sol: "A luz não fica mais brilhante mas, num instante, de trás da colina, a bola de fogo do sol emerge, quente, radiante e saudado por uma explosão de música do coro do amanhecer. A manhã nasceu. O dia começa, e com ele toda a vilania".

Depois de quatro meses na Sibéria, Chistyakov escreveu um poema:

"A única coisa que realmente queremos / É o direito a uma boa noite de sono, / E talvez um dia de folga para chamar de seu / Mas o que realmente queremos / E se livrar do BAM e voltar pra casa."

Saiba mais sobre os diários de Ivan Chistyakov, lançados no dia 8 de agosto, aqui .

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