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'Vinyl' é uma série tosca, irreal e até que excelente sobre o rock 'n' roll dos anos 70

A recém lançada série da HBO é uma puta patifaria, mas eu gostei deveras.

por Zachary Lipez
18 Fevereiro 2016, 8:00pm

Bobby Cannavale como o personagem Richie Finestra em 'Vinyl.' Foto cortesia da HBO.

Dá para contar as obras sobre o rock que não são totalmente vergonhosas, fora o rock 'n' roll em si, em uma mão. A Visit from the Goon Squad de Jennifer Egan, que não li porque odeio ler sobre rock, mas meus amigos inteligentes disseram que é ótimo, e o quadrinho Love and Rockets. O resto, todos os outros gibis, filmes e romances sobre o rock, não chegam lá. Velvet Goldmine, apesar de amado por alguns, ainda é um filme mais famoso pela sua trilha sonora. Adoro O Fantasma do Paraíso, mas isso é mais sobre ser um cara estranho do que sobre o rock em si. Repo Man, provavelmente o melhor filme de rock, não tem nada a ver com rock, mas sim com transcendência e morte. A não ser que você esteja se enganando para gostar de, digamos, Doors, você tem que admitir que o rock, o nonsense adolescente, o tipo mais glorioso de nonsense que existe, não se traduz para outros meios. Mas o pessoal mais velho não deixa de tentar.

Vinyl, a nova série da HBO sobre drogas pesadas e costeletas babacas, trazido a nós por Martin Scorsese e Mick "o ex da Marianne Faithfull" Jagger, é muito melhor do que deveria ser. Não posso falar da qualidade da filmagem. Meus hábitos televisivos se resumem a deixar rolando The Expanse, Rick e Morty e New Girl de fundo enquanto jogo Warhammer 40.000 no meu celular. Críticos de TV que vão da Vulture ao Washington Post dizem que o trabalho de câmera de Vinyl é muito bom, então vou aceitar a palavra deles. Parece que esse é o melhor trabalho do Scorsese desde Os Infiltrados. Como alguém que curte tanto as coisas de Boston do Ben Affleck quanto aquela música do Dropkick Murphys, concordo que o filme legal, então esse é um elogio bem razoável.

Quanto ao que Vinyl está tentando fazer para transmitir uma coisa que não pode ser transmitida através de filme, como é se perder para a música e drogas, eu diria que a série leva uma bela nota 7,5. Para curtir legal show televisivo, ajuda nunca ter usado drogas ou visto uma banda ao vivo, ou considerar a produção como realismo mágico. Eu, sem querer me gabar, já usei drogas e vi muitas bandas, então optei pela última alternativa.

Na cena de abertura, o "cara da gravadora" Richie Finestra (meio que não baseado em Marty Thau e interpretado muito bem por Bobby Cannavale) está sentado no seu carro no SoHo, comprando pó. Duzentos e oitenta dólares parece exagero para 7 gramas de cocaína em 1973, mas eu não era nem um brilho nos olhos do meu pai nessa época, então os roteiristas devem saber melhor. Richie arranca seu retrovisor para esticar as carreiras, usando o cartão de visita de um detetive que devia ser feito de papelão reforçado. Acho que isso era mais cinematográfico do que usar aquela dobra entre o dedão e o indicador como uma pessoa normal faria.

Depois de cheirar sua carreira e reagir como uma pessoa num filme dos anos 70 depois de cheirar (e nem vou falar dessa palhaçada de esfregar o resto do pó na sua gengiva), seu carro é ultrapassado por uma torrente de roqueiros indo para o Mercer Arts Center, e ele segue o pessoal. "Punk" está pixado no corredor e mesmo que isso seja alguns anos antes da Punk Magazine existir, e uma época em que só algumas pessoas usavam a expressão na Creem Magazine, eu até acredito. E nem vou me aprofundar na crença de que nenhum roqueiro de NY entre 1967 e 1983 corria, a não ser da polícia ou para o banheiro quando as drogas davam ruim. Só acho estranho que o cara que fez Depois de Horas tenha uma visão tão besta de Nova York, colocando os jovens da cidade correndo por aí mais rápido do que se tivessem tomado speed.

Estou mencionando todas essas coisas que acontecem nos primeiros 15 minutos da série e nem devem importar muito porque, se você for como eu, ver essas inconsistências idiotas junto com algumas falas bem exageradas para definir a personalidade do personagem, te faria parar de assistir a série. Não faça isso. Ela melhora. Ou piora. Mas isso também é bom; não acho que arte precise me fazer uma pessoa melhor.

O enredo básico é Richie tentando salvar sua gravadora, primeiro financeiramente depois espiritualmente. Depois de se tornar o dono de um selo que hoje é realmente bosta, ele espera ganhar uma bolada vendendo a gravadora para o conglomerado alemão Polygram, o que depende dele e seus sócios (Ray Romano como Zak Yankovich, um ponto alto da série, e Max Casella como Julie Silver) esconderem irregularidades financeiras e assinarem com o Led Zeppelin. Os atores convencem de verdade, fazendo parecer que essas coisas são a questão de vida e morte que são para os protagonistas.

Ray Romano. Foto por Macall B. Polay/cortesia da HBO.

Há alguns subenredos, como a secretária (Juno Temple) tentando subir de cargo assinando com uma banda pré-punk, cujo vocalista é interpretado pelo filho de Mick, James Jagger; a esposa de Richie, Devon (Olivia Wilde numa mistura de amor e insatisfação); e o cômico boca-suja Andrew "Dice" Clay como Frank "Buck" Rogers, um dono de rádio ressentido com Donnie Osmond. Os personagens negros geralmente são retratados como santos, provedores do funk e soul da trilha sonora, e objeto do racismo casual sem noção dos personagens. Tem até a validação vergonhosa do bluesman Lester Grimes (Ato Essandoh), dizendo num flashback para Ritchie: "Tem certeza que você não é negro?" Vou reservar meu julgamento desse aspecto para os próximos episódios. Eu quero acreditar que Vinyl não vai ser tão tosco assim.

Vinyl é ostensivamente sobre rock 'n' roll. E funciona melhor que muita coisa nesse sentido. A trilha sonora é boa, uma mistura bem legal de R&B antigo, bandas pré-punks padrão regravadas e, felizmente, "Gimme Shelter" quase não aparece. Mas a série brilha mesmo como uma peça de moralidade de grandes proporções. Nomes como ABBA ou Suicide funcionam menos como pontos do enredo e mais como totens que situacionam a história. O espectador tem que decidir tirar prazer da hagiografia, mesmo que a série seja sobre um tipo de música que deveria rejeitar esses sentimentos, com Richie Finestra fazendo um tipo Zelig totalmente egoísta. Quando ele se ergue, como Jesus, literalmente dos escombros no final do primeiro episódio, é difícil não ficar realmente emocionado. É uma puta patifaria, mas eu gostei.

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Tradução: Marina Schnoor

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