Visitante-voluntária chacoalha árvore para pegar frutas. Todas as fotos pela autora.

Passei um dia num "centro de empoderamento" em Santa Catarina

Juliana Sayuri

Juliana Sayuri

No Rosemary Dream, todo mundo anda descalço, se abraça e fala em inglês.

Visitante-voluntária chacoalha árvore para pegar frutas. Todas as fotos pela autora.

De tempos em tempos uma palavra-chave cai nas graças do mercado. Foi assim com “empreendedorismo”, “liderança” e “pró-atividade”. Agora é a vez de “empoderamento”.

Passou pela minha timeline um post da página White People Problems que fazia referência irônica a um texto sobre um "centro de empoderamento”: o Rosemary Dream, um hostel fundado pelos israelenses Yaniv Charlap, Yotam Elmakias e Cormoran Lee – os três na casa dos 30 anos –, na Barra da Lagoa em Florianópolis, Santa Catarina.

Me perguntei por que jovens gringos buscam um centro de “empoderamento” florianopolitano com investimento de quase US$ 3 mil para 30 dias: US$ 2.960, para ser exata, é o preço do programa Heart Attack, que promete oferecer uma experiência “transformadora” para os participantes – nesta edição, eram 10 estrangeiros acomodados em beliches de quartos compartilhados.

A entrada do Rosemary Dream.

Fui, então, conhecer o programa na última sexta-feira de abril.

PS- Peço paciência para as expressões e frases em inglês que você vai encontrar no caminho, farei o possível para traduzi-las em bom português.

Hashi na selva

Sextou e lá estava eu na Travessa Caminho da Prainha, número 50, às 9h25 da manhã. Quem me mostrou os caminhos pelo terreno arborizado de cerca de 75 mil metros quadrados foi a designer Olivia Dias Bagott, 25, uma inglesa mignon de franjinha quadrada. Filha de uma paranaense e um inglês, Olívia é responsável pelas mídias sociais do Rosemary Dream – sim, o albergue alternativo tem funções como gerente de marketing e project manager. Eles estão trabalhando no novo site.

Oficina de tijolo ecológico.

Todo mundo anda descalço. E se abraça, como se abraça. Quase todos os diálogos acontecem em inglês, embora os estrangeiros se esforcem para arranhar o português.

Na casa principal estava acontecendo uma roda de conversa intitulada Sunrise. Ao lado, um pessoal tentava fazer poses de acroyoga, uma modalidade que combina acrobacia e yoga. Na casinha lateral, conhecida como “embaixada”, os participantes do Heart Attack estavam literalmente dançando como se ninguém estivesse olhando, dando pulos e piruetas aleatórias com os braços descoordenados como bonecos de posto numa pegada parecida com a meditação dinâmica do Osho.

As construções e os diversos decks de madeira são circundados por um jardim botânico cultivado ao longo de 40 anos por Rosemari, a antiga proprietária do terreno que inspirou o nome do lugar, mas com uma letra Y no fim – imagina-se que “a versão em inglês” do nome da senhorinha tenha ares mais cosmopolitas talvez. Rosemari faleceu em janeiro de 2018.

Sinalização dos decks do hostel.

Nos arredores do jardim, referido como jungle (selva) sabe-se lá por que no site oficial do Rosemary Dream, os hóspedes beliscavam folhas da árvore de canela e pegavam carambolas e goiabas do pé. Era parte da oficina de permacultura, que terminou às 13h com a montagem de tijolo ecológico a partir de lixo: uma garrafa pet estufada com materiais não-biodegradáveis como bitucas de cigarro, canudos e restos de plástico retirados da praia.

Pausa para o almoço: arroz com lentilha, mandioquinha assada e salada de repolho. Não há talheres, só hashis (fiquei até surpresa por ninguém pinçar a expressão slow food para defender a prática). A mesa longa é ladeada por pequenos tocos de madeira que servem como banquinhos, para se sentar de cócoras.

Segundo seus integrantes, a ideia do Rosemary Dream é incentivar um estilo de vida saudável, com dieta ayurvédica e atividades como yoga, meditação e um tal natural movement, uma prática de “movimentos naturais” como caminhar, escalar e nadar. Mas o estilo hippie tilelê vai parando por aí: álcool, nicotina e outros são proibidos, o que faz o albergue lembrar um tipo de clínica de detox gourmet. Inventaram, inclusive, um nome para a filosofia: monkey, monk and modern human (macaco, monge e humano moderno), para conjugar corpo, mente e “lado social”.

A diária para um beliche num quarto misto custa cerca de R$ 50, com café da manhã incluído. Atrai hóspedes europeus como Carl Lundeberg, 26, intrigado pelo hostel “meio hippie, meio vegano”, e brasileiros como Jaqueline Cruz, 26, estudante de turismo do Rio.

Fundado em junho de 2016, o hostel conta com uma equipe atual de 20-25 pessoas, entre funcionários CLT e “voluntários” via WorkAway (embora frisem que não se trata de voluntariado, mas de um programa de work exchange em que 6 horas de trabalho por dia valem hospedagem, café/almoço, 2 jantares por semana e a possibilidade de participar de workshops).

A paulista Roberta Terra, 29, responsável pela cozinha.

Uma das funcionárias fixas é a paulista Roberta Terra, 29, que há sete anos mora na Barra. Vizinha da casa, ela conta que acompanhou desde o início a instalação do Rosemary Dream na vila de pescadores. “Foi tipo um disco voador”, define Roberta, que aprendeu inglês com os israelenses e seus visitantes-voluntários.

Responsável pela cozinha, ela fez a ponte com a quitanda e a peixaria do bairro. “Sou brasileira e negra. Tenho um toque de embaixatriz do Rosemary. É um bebê, uma startup que agora está aterrissando na ilha”, diz ela sobre a aproximação com a comunidade catarinense e a incorporação da língua portuguesa no cotidiano do albergue (até hoje, o site só está disponível em inglês, visto que o público-alvo é essencialmente estrangeiro).

O paranaense Maurício Melo, 37, responsável pela oficina de móveis rústicos.

O paranaense Maurício Melo, 37, se vira no portunhol e na mímica. Responsável pela oficina de móveis rústicos, está envolvido no projeto desde a construção. Maurício morava nos Ingleses, no norte da ilha, a cerca de 30 km da Barra, mas mudou-se para uma casa vizinha ao hostel com a mulher e três filhos. “São 50 crianças na casa. Todos têm um coração bom, mas são crianças desorganizadas, deixando toalha molhada na cama”, brinca sobre o pessoal.

“A gente faz papel de pai e psicólogo. Às vezes dá uma saudade apertada de uns hóspedes, mas é a vida. Isso é uma rodoviária, tá todo mundo de passagem”, diz, sentimentalmente, enquanto uma voz no rádio procura as “mamas”, como são chamadas as faxineiras do albergue.

A paulista Cintia Higa, 28, assistente administrativa e de finanças.

A paulistana Cintia Higa, 28, faz as vezes de assistente administrativa e de finanças. Mudou-se para Florianópolis em busca de um estilo de vida diferente, de uma vibe natural – ou, como ela diz, na filosofia follow your heart (siga seu coração). Cintia considera que há diversidade no Rosemary Dream, “gente de todas as cores e classes, apesar da predominância europeia”, em busca de autoconhecimento. “Fui até procurar a palavra 'empoderamento' no dicionário. Entendo as críticas, mas we can only change the world if we change ourselves (só podemos mudar o mundo se mudarmos a nós mesmos). Autoconhecimento é importante”, diz.

É business, baby

Segundo o Dicionário Michaelis, “empoderamento” envolve “consciência social dos direitos individuais para que haja a consciência coletiva necessária e ocorra a superação da dependência social e da dominação política”. É um processo de fortalecimento (espiritual, econômico e político) de indivíduos marginalizados, para reduzir sua situação de vulnerabilidade e fomentar a possibilidade de garantia de seus direitos. No Rosemary Dream, é uma licença poética para autoajuda, bem-intencionada, mas autoajuda.

Às 16h começou um workshop “de força”, liderado pelo psicólogo britânico Aron Thompson, 25, e a coach brasileira Cassiana Andrade, 34.

Varanda da casa principal.

Antes do início da oficina, foi entoado um mantra. A atividade aconteceu na casa menor, em uma salinha com incenso, banana e amendoim. Os slides traziam diagramas de “9 tipos de inteligência” (tese do psicólogo norte-americano Howard Gardner) e frases como becoming aware gives me power (ficar consciente me dá poder, do coach britânico John Whitmore) e things happen to me x you make things happen (as coisas acontecem comigo x você faz as coisas acontecerem, do psicólogo norte-americano Julian Rotter). Num quadro negro estava rabiscada a expressão self discovery <3.

“Fugindo do ativismo, a gente entende empoderamento na dimensão individual”, diz Cassiana. “Ao invés de estar em Florianópolis, essas pessoas podiam estar em Bali. Eles estão buscando personal development (desenvolvimento pessoal). No sul da Bahia, há pessoas pagando R$ 6 mil pra fazer leitura de aura. Quer dizer, há interesse, há quem esteja disposto a fazer esse tipo de investimento”, afirma a administradora, que vestia uma camiseta branca com os dizeres good karma.

Programação da sexta-feira em que estive lá.

É o caso da norueguesa Eline Freim, 27, assistente social que se dedica a refugiados na Europa. Desde janeiro viajando pela América do Sul, Eline se inscreveu no Heart Attack pois queria se descobrir, aprender a ser mais “aberta e divertida”. “É um investimento na minha própria felicidade. Vale cada centavo”, diz a viajante de olhos azuis e sardinhas.

O israelense Yaniv Charlap, 30, é o idealizador do Rosemary Dream. Em 2015, Yaniv iniciou uma viagem de volta ao mundo, mas parou na primeira parada, o Brasil – rasgou 16 passagens aéreas já adquiridas. Depois de uma temporada no nordeste, ele conheceu Florianópolis e decidiu fincar raízes. Em 2016, idealizou e fundou a casa.

O israelense Yaniv Charlap, 30, um dos idealizadores do Rosemary Dream.

Ali, Yaniv prega liberdade de se expressar com naturalidade “sem medo de julgamento”. Defende um tipo de carpe diem de deixar livre a “criança” interior – amar de verdade, chorar de verdade, dançar de verdade, o que afetaria a “energia” que se irradia para o mundo. “Não lidamos com problemas políticos dentro do Rosemary”, diz Yaniv no alto de um dos decks com vista para a praia. “Entendo o problema da palavra ‘empoderamento’, mas isso não é o mais importante. O que acontece aqui é que as pessoas se sentem mais poderosas na vida. Talvez precisamos encontrar uma palavra melhor”, ressalva. Mas Rosemary Dream é um negócio novo – “e este é o nosso produto: a experiência que transforma vidas”.

Para ele, o lugar quer dar vontade de viver às pessoas. "Não há mestres ou gurus. Não começou como um business, mas como um projeto. Estamos desenvolvendo agora fontes de renda, a hospitalidade e os cursos. Mas não são só hóspedes: são sonhadores que partilham dos nossos valores. Sinto que sou muito privilegiado por estar cercado de pessoas maravilhosas, nesta terra maravilhosa”, menciona.

Entrada da casa principal.

Esta visão idílica da ilha de Santa Catarina, quase pueril, me faz pensar no idealismo dos integrantes, visitantes e voluntários – os bebês de Rosemary. Imersos em egotrips de autoconhecimento, descolados (às vezes nos dois sentidos: cool e descolados da realidade), eles dão muito namastê pra pouco arco-íris. Lembro de um texto da New Yorker sobre uma certa “era da couve”, referente ao boom de ayahuasca entre norte-americanos em busca frenética de bem-estar, detox e mindfulness. Entre os sonhadores do Rosemary Dream, abstêmios, a gente pode dizer que é a “era do alecrim”.

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