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Pro governo do RJ, o funk é igual o crime

A ordem já chegou aos ouvidos dos policiais militares do RJ: o governador mandou acabar com os bailes.

por Clara Sthel, Yuri Eiras, e Wellerson Soares; fotos por Clara Sthel, e Matias Maxx
27 Março 2019, 8:10pm

Fotos: Clara Sthel/VICE.

O caveirão branco da Polícia Militar passou a marcha e acelerou levando tudo: lonas, grades, caixas de som e armações de ferro. Era noite de sábado, dia 16 de fevereiro, no Complexo da Penha, Zona Norte do Rio, e a estrutura do evento que começaria poucas horas depois virou aço retorcido. Houve tiroteio e cinco pessoas ficaram feridas. No dia 10 de março, os pipocos foram já pela manhã, enquanto os rappers do projeto Poesia Acústica se apresentavam no palco. Donos de um sucesso estrondoso entre os jovens cariocas, eles precisaram parar o show, mas não deu tempo de evitar que duas pessoas se ferissem.

Pode ser em uma boate da zona sul do Rio, em uma social no Jardins paulistano ou em uma festa de aniversário infantil no interior da Bahia. “Hoje eu vou parar na Gaiola”, sucesso 150 BPM do MC Livinho, é atualmente música quase obrigatória Brasil afora. Enquanto isso, o Baile da Gaiola original está acabando.

Outro funk 150, o do MC Kevin O Chris, já soma mais de 50 milhões de visualizações no Youtube. A música é quase um convite: ‘se quer dar um rolé / Eu vou te apresentar o melhor baile do Rio de Janeiro / Tu já sabe qual é / O Complexo da Penha é o verdadeiro…’. A Gaiola é um fenômeno da cidade, e tem tido média de público superior a times que disputam a Série A do Campeonato Brasileiro. O evento reúne semanalmente entre 20 e 25 mil pessoas, espalhadas pelas ruas de acesso ao Complexo da Penha. Em cada uma delas há uma equipe de som. O final do baile é o palco principal, onde o anfitrião, o DJ Rennan da Penha, costuma tocar por horas e horas, às vezes até o meio-dia do dia seguinte. Barraqueiros, vendedores de cigarros, mototaxistas, motoristas de aplicativo e até moradores que alugam o banheiro da casa tiram o sustento daquelas madrugadas. Se o Estado estivesse na fase do capitalismo clássico, perceberia que se trata de um Rock in Rio semanal. Mas, a prioridade parece ser ‘mirar na cabecinha e...fogo’.


Assista ao nosso documentário sobre a explosão do 150 BPM:



Nos pátios dos batalhões, a ordem já chegou aos ouvidos dos policiais militares: o governador mandou acabar com o baile. A notícia correu as ruas do subúrbio carioca e os grupos de bairro no Whatsapp.

A ordem já chegou aos ouvidos dos policiais militares: governador mandou acabar com o baile.

A bandoleira que sustenta o fuzil se mistura visualmente com os grossos cordões. O boné é acessório opcional, mas o ‘copão’ de bebida é obrigatório na ‘postura’ de um traficante no baile. Meio por diversão, meio a trabalho, eles estão presentes, é claro, seja na Gaiola, no Baile da Colômbia, e em outras dezenas de bailes nas favelas. Mas, por que operações estão sendo programadas justamente para a hora dos bailes? A pergunta foi feita para policiais militares, ‘envolvidos’, DJs e produtores. A resposta parece seguir um único caminho: o algoz não é o tráfico, mas o baile funk. “O governador foi quem proibiu esse baile (da Gaiola). Geralmente, quem vai nessas operações policiais é o Bope ou o Choque, porque a repressão é muito forte. Esse mês, para acabar com o baile funk, foram feitas muitas operações no momento em que acontecia. Essa é a ordem do governador. A dinâmica é essa”, explicou um policial militar que pediu para não ser identificado. “O baile funk dá um retorno absurdo para o tráfico, tanto em venda de entorpecente quanto em bebida. Mexe no comércio todo, mas influencia muito no tráfico. Na prática, o Baile da Gaiola só pode funcionar se o 16º Batalhão da PM (Olaria) permitir”, comentou o militar. Segundo ele, a Gaiola e outros bailes só funcionam porque repassam parte do dinheiro ao batalhão local - o famoso ‘arrego’.

Os DJs e produtores do Baile da Gaiola preferem não se manifestar para evitar ainda mais represália. O efeito dominó é natural, e os bailes funk que permanecem vivos tentam se manter fora do radar de Wilson Witzel. “Já vi gente falando que escuta o baile do Turano no Rio Grande do Sul, na Bahia, no Espírito Santo, Paraná, Amazonas...Mas, quanto mais o nosso trabalho se expande, quanto mais o baile é reconhecido nacionalmente, mais rola a repressão. Operações sucessivamente. Às vezes ficamos meses sem operações, mas quando vem, vem para sufocar”, conta o DJ Cabelão, um dos mais reconhecidos e requisitados do movimento atualmente.

Foto: Clara Sthel/VICE
Baile da Colômbia. Nos bailes cariocas, a moda é o 'copão' de bebida - com enérgico ou cerveja - sempre na mão. Fotos: Clara Sthel/VICE.

Felipe França é produtor, ativista e voluntário do jornal Voz das Comunidades, do Complexo do Alemão, mas também já foi barraqueiro de baile. “Para quem está de fora, todo e qualquer tipo de comércio está relacionado ao tráfico. Na minha época de barraqueiro, quem pagava equipe de som e DJ éramos nós. Quanto mais barraca tinha, melhor, pois não ficava pesado. Tem gente que coloca só cerveja, mas tem gente que coloca uísque, caipirinha. São vários os danos quando essas proibições acontecem. Ela não afeta só quem curte baile. Afeta também quem tem o baile para ganhar sua renda”.

"Para quem está de fora, todo e qualquer tipo de comércio está relacionado ao tráfico. Na minha época de barraqueiro, quem pagava equipe de som e DJ éramos nós."

A promissora carreira do jovem DJ Gustavo Mix, de apenas 20 anos, já acumula apresentações em comunidades da Baixada Fluminense e nas favelas do Complexo do Chapadão, na Zona Norte. Mas, com o enfraquecimento dos bailes, ele tem buscado alternativas para não se ver sem grana. Ele já até precisou voltar pra casa mais cedo porque o baile em que ia tocar fora cancelado por conta de uma incursão policial. “Recebo muitos convites de amigos para tocar aqui e ali. Mas, já cheguei para tocar uma vez no Chapadão e havia sido cancelado por causa de uma operação policial. Por isso a gente tenta correr para se virar, correr por fora pra fazer uma grana. Tento fazer algo que seja fora dessa parte. Se for preciso, até um terreno eu capino, sem problemas”, disse Gustavo Mix, um entre tantos que querem seguir os traços de carreiras bem sucedidas como a de Rennan da Penha. “Tem muitos DJs que dependem de um evento como um baile de comunidade para poder trabalhar e tirar uma renda para ajudar nas contas de casa, ou até para se alimentar”, reforçou.

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As equipes de som e a estrutura do evento normalmente são pagas pelos ambulantes do baile, e não pelos traficantes. Baile da Colômbia. Fotos: Clara Sthel/VICE.

Organizador do baile do Turano, um dos mais frequentados do Rio de Janeiro, DJ Cabelão do Turano desabafa no mesmo sentido. “A proibição prejudica tanto o movimento funk quanto a minha vida financeira. O baile é o único lugar que temos para divulgar nosso trabalho”.

O problema é o funk e o funkeiro

Dizer que a ‘massa funkeira’ quer curtir o baile com tranquilidade parece um chavão batido de uma letra de funk dos anos 1990. Mas, não há nada mais atual. Na verdade, a tática de ir murchando os eventos semana a semana não é nova. Bailes funk foram cancelados em vários morros no auge das UPPs, entre 2010 e 2013, sob a lógica da ordem. À época, o ex-prefeito Eduardo Paes e o ex-governador Sérgio Cabral nadavam de braçada no mar da aprovação popular. Além disso, no âmbito jurídico, em pelo menos duas oportunidades os bailes funk sobreviveram a tentativas de criminalização: em 2008, o projeto de lei estadual 5.265, do então deputado Álvaro Lins, estipulava uma série de exigências que restringia os festejos de rua em todo o estado, desde espaço para estacionamento à instalação de detectores de metais. A lei foi revogada no ano seguinte pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, que também reconheceu o funk como patrimônio cultural. Já em 2017, a proposta apresentada pelo empresário paulista Marcelo Alonso sugeria que os bailes representavam uma ameaça à saúde pública de crianças, adolescentes e à família. No mesmo ano, a Comissão de Direitos Humanos do Senado Federal vetou a sugestão de criminalização.

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Os bailes grandes contam com várias 'lonas', e cada uma delas abriga uma equipe de som diferente. Baile da Colômbia. Fotos: Clara Sthel/VICE.

“Já teve épocas que a gente entrava quebrando tudo. Agora não dá. Com o advento do celular, não dá. Lá dentro (da comunidade), o policial não vai chegar arrebentando porque vai ser filmado. A ordem é entrar com cautela e respeitar o cidadão. Mas, acabar com o baile. De uma maneira amena”, explica o PM. “Os comandantes dos batalhões não querem baile. Mas, existem batalhões que permitem pela corrupção”.

Em nota, a Polícia Militar do Rio (PMERJ) afirmou que “eventos que atendem às determinações do decreto sobre a realização de bailes e festas são autorizados de maneira frequente. Contudo, se a Polícia Militar for acionada por denúncias de moradores informando sobre ações criminosas durante a montagem do evento, ela vai ao local para checar a informação. Se a informação foi confirmada, fica caracterizada uma questão que ultrapassa os protocolos do decreto. Seria uma questão básica de falta de segurança aos frequentadores”.

Em outros espaços do Rio de Janeiro, o iminente fim do Baile da Gaiola não vai impedir que o funk pare de tocar nas caixas de som. Tampouco resolverá o problema do tráfico de drogas. Mas, enquanto tiver suburbanos e favelados produzindo, tocando e ouvindo funk, haverá repressão. Não é pessimismo. Quem garante são os DJs, que sentem na pele há anos a falta de perspectiva da profissão. Não por eles, que fazem sucesso por onde passam, mas pelos poderosos que tentam acabar com o movimento. “Tem alguns eventos ‘na pista’, que o pessoal coloca um pouco parecido com os bailes de favela, mas não é raro esses eventos serem embargados. Isso acontece direto. Pode ser um lugar que não tenha ninguém, nenhum apartamento em volta, pode até ser num sítio. Mas, os policiais vão lá e vão embargar um evento, a não ser que tenha algum certo tipo de arrego. Se escutar funk, é assim que acontece”.

Entre boas ações e polêmicas, quem é Rennan da Penha?

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DJ Rennan da Penha no Baile da Gaiola. Foto: Matias Maxx/VICE.

A história do DJ de 25 anos é um capítulo à parte. Rennan Santos da Silva, criado no Complexo da Penha, ironicamente, detestava o funk quando adolescente. Amava mesmo o rap norte-americano, influenciado pelo pai. Só aos 15 anos passou a lidar com o ritmo que mudaria de vez os rumos de sua vida. Após ouvir uma montagem feita por um DJ residente de um baile da Penha, decidiu se aventurar usando os programas caseiros de edição musical.

No ano seguinte, familiarizado com o ritmo, recebeu do DJ Fabiano a primeira oportunidade de iniciar na carreira, até começar a discotecar solo em uma matinê na Vila Cruzeiro. Das cinco da tarde a meia noite, o palco era todo seu, embora tímido, e ainda sem exibir a desenvoltura habitual ao microfone atualmente.

Carismático e performático, caiu rapidamente no gosto de jogadores de futebol, celebridades e artistas da música, e se tornou um dos DJs mais requisitados do cenário nacional. Seus vídeos chegam a ultrapassar 35 milhões de visualizações no Youtube. Apesar da fama, Rennan não deixou a comunidade de origem, mas se dedica a ações que beneficiam os moradores. Em janeiro deste ano, o jovem de 25 anos promoveu a distribuição de mais de 600 kits de material escolar entre os jovens moradores das favelas do Complexo da Penha e do Alemão.

Apesar da boa fama com admiradores nas redes sociais, Rennan também coleciona polêmicas. Em março do ano passado, em vídeo publicado na internet, o DJ aparece agredindo uma criança com socos, tapas no rosto e joelhadas, enquanto adverte o menor ‘a não mexer com a família dos outros’. As imagens geraram enorme repercussão entre os fãs do artista, que repudiaram a ação. Diante de tamanha polêmica, Rennan publicou novo vídeo em suas redes sociais se desculpando com os seguidores e justificando as agressões, que teriam sido ocasionadas por ofensas à família do artista.

No mais recente revés, o Ministério Público do Rio (MP/RJ) entrou com recurso para anular a absolvição em primeira instância por associação para o tráfico de drogas e apologia ao crime e condenou o DJ, em segunda instância, a seis anos e oito meses de prisão. Segundo o desembargador Antonio Carlos Nascimento Amado, da Terceira Câmara Criminal, que obteve informações através de testemunhas, Rennan atuava como “olheiro” dos traficantes e avisava a localização dos policiais durantes as incursões à favela. Em nota, os advogados de defesa, Fabrício Gaspar Rodrigues e Nilsomaro de Souza Rodrigues, disseram que a acusação é “estapafúrdia”, “beira a inocência”, já que a função de olheiro pede discrição, e Rennan comanda bailes para mais de 25 mil pessoas. A defesa afirmou ainda que o artista está sendo vítima de preconceito por “representar a cultura negra da periferia do Rio de Janeiro”. Fãs e colegas organizaram um protesto na quinta-feira no Circo Voador, na Lapa, e a OAB/RJ emitiu uma nota denotando preocupação com a sentença dada ao músico.

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