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Filme sobre impeachment de Dilma Rousseff revela bastidores do julgamento

Maria Augusta Ramos, a diretora de 'O Processo', e sua equipe, tiveram acesso a reuniões e testemunharam diálogos nunca mostrados em noticiários, somando cerca de 450 horas de material.

por Eduardo Ribeiro
18 Maio 2018, 10:00am

Cena do longa-metragem O Processo, de Maria Augusta Ramos, em cartaz nos cinemas.

O Processo, dirigido por Maria Augusta Ramos, é um documentário que, como os anteriores da cineasta — a trilogia sobre o sistema judiciário brasileiro formada por Justiça, Juízo e Morro dos Prazeres; e Futuro Junho —, busca retratar um caso a partir da pura observação. Não há entrevistas realizadas, a não ser resgates documentais midiáticos, tampouco locuções narrativas, animações, efeitos, sonoros ou visuais, ou infográficos. E o caso aqui são os passos legais do processo de impeachment contra a presidente Dilma Roussef no Senado. A câmera segue de perto os agentes da ação nas mais diversas esferas, desde o recebimento da denúncia na Câmara dos Deputados até a votação final que destituiu Dilma do cargo em 2016.

Num Brasil polarizado, a diretora opta por uma narrativa neutra, em que a sucessão dos fatos fala por si. Para realizar o filme, Maria Augusta passou vários meses em Brasília, sua cidade natal. Ela e a equipe circularam pelos corredores do Congresso Nacional, gravaram coletivas de imprensa, registraram as votações na Câmara dos Deputados e no Senado, e testemunharam bastidores nunca mostrados em noticiários, somando cerca de 450 horas de material colhido.

O amplo acesso que Maria Augusta conseguiu ter aos bastidores do julgamento foi essencial para a qualidade da obra. O espectador se vê à espreita das reuniões em que os senadores em defesa de Dilma definiam suas articulações. Destaco passagens como o momento em que Gleisi Hoffmann e Lindbergh Farias ficam sabendo da decisão da comissão presidida por Raimundo Lira.

O filme contextualiza bem todo o desenrolar da trama, explicando precisamente do que se tratavam as chamadas “pedaladas fiscais” e a justificativa para derrubar a presidente, calcada em três decretos de crédito suplementar. Uma pena que a maior parte dos senadores da acusação não tenha dado o mesmo acesso à equipe de filmagem. Assim teríamos um espectro ainda mais esclarecedor sobre tudo o que se passou.

Antes de estrear nos cinemas brasileiros nesta quinta (17), O Processo venceu os prêmios de melhor longa-metragem internacional no Festival Documenta Madri, na Espanha; na Competição Internacional do Festival Internacional de Documentários Visions du Reel, em Nyon, na Suíça; e os prêmios Silvestre e do público no Festival Indie Lisboa, em Portugal. A estreia lá fora aconteceu em fevereiro, no Festival de Berlim, na Alemanha, onde foi escolhido pelo público como o terceiro melhor documentário da mostra Panorama.

Dias antes da chegada do longa aos cinemas brasileiros, tive alguns corridos minutos com a diretora.

VICE: Como você conseguiu o acesso para estar tão presente na rotina dos personagens? Você teve que negociar algumas condições?
Maria Augusta Ramos:
Não houve negociação nenhuma, até porque eu não faço negociações. Além disso, nada foi pedido, pelos participantes e pessoas que foram filmadas. Acho que foi uma confiança que precisa existir, se não, não consigo ter o acesso. Essa confiança se deu, acredito, por conta dos meus filmes anteriores. Por exemplo, os assessores jurídicos da defesa da presidente, o próprio José Eduardo Cardoso, conheciam o meu trabalho. Muitos deles, inclusive, usavam em sala de aula. Só isso já abriu as portas. E, também, a proposta de cinema que é bem minha, de explicar como vou fazer, que não vai ter entrevista, nem depoimento ou comentário. Isso é muito claro: eu quero retratar o processo na sua totalidade, contemplando tanto a narrativa pró impeachment como a contra o impeachment, que foi muito pouco divulgada, acho que essa é uma grande lacuna na mídia, que precisa ser preenchida e o filme dá conta disso.

A falta de imagens registrando as reuniões dos parlamentares em defesa do impeachment não pode ser interpretada como tendenciosa?
Eu não filmei as reuniões dos parlamentares a favor porque não tive acesso. Se eu tivesse acesso, certamente filmaria, porque me interessa, acho importante também que a gente saiba como todos pensam, qual é a estratégia. Mas, mesmo assim, acho que o filme contempla de forma correta, em nenhum momento ridicularizando, os argumentos da direita. Precisamos entender todos os lados pra chegar a um retrato verossímil.

Cena do documentário O Processo mostra manifestantes pró e contra o impeachment de Dilma.

Como foi esse exercício de buscar a neutralidade diante dos fatos?
É claro que acaba sendo uma visão subjetiva, não é isenta de maneira alguma. Minha visão foi construída, é produto de um processo cinematográfico. Eu não começo a fazer um filme sabendo o que quero dizer. Se não, nem faço. Pra que fazer filme sobre o que eu conheço? É uma descoberta. Fui até Brasília a fim de entender o que se passava, compreender melhor aquele processo, os dois lados, retratar como ele realmente se deu. E, através desse processo de filmagem, tentar refletir sobre o momento vivido e o momento atual.

Independente da subjetividade do filme, qual é a sua interpretação do sistema judiciário brasileiro, depois de ter testemunhado tudo tão de perto?
Acho difícil te dizer isso, porque a minha visão sobre o processo de impeachment são os filmes. Ela basicamente se reduz em 137 minutos de filme. Eu não consigo colocar em duas, três frases. O que eu acho é tudo aquilo. Porque isso envolveria uma redução muito grande. Por isso eu não sou jornalista, mas cineasta. Eu tento fazer uma obra aberta, uma obra que instigue uma reflexão. Essa é a minha intenção, em todos os filmes, e, também, de humanizar os personagens, todos eles. Juiz, desembargador, acusado, promotor, advogado, senador de direita, senador de esquerda...

Por que você sempre opta por trabalhar desse modo, sem realizar entrevistas, sem roteirizar?
Isso é parte da ideia de não fazer tese. Eu não faço filme pra defender uma tese. A visão é o processo de uma descoberta. Eu não conhecia nenhuma daquelas pessoas retratadas, nem da esquerda nem da direita. Há muito tempo não ia ao Congresso Nacional. Foi uma descoberta do que cada um tinha e podia me oferecer, no sentido de quanto acesso eu teria. Tudo isso forma essa visão. Se a direita tivesse me dado maior acesso, certamente ela estaria mais presente.

Você sabe como vai filmar, mas não o que vai acontecer...
O modo como filmo, como posiciono a câmera, é sempre muito mais frontal e estático, quando possível. Ou seja, a condição do público é de um observador que está próximo, mas não no meio da ação. E o ritmo da edição é propenso à reflexão. Esse modo de filmar vem do meu interesse nas relações sociais, no meio em que as pessoas vivem, como esse meio define e revela o indivíduo enquanto ser político-social, mas também como mistério, porque ele é um mistério. Tento fazer um retrato aberto, complexo, dessa pessoa, que é contraditória. Todos somos. A câmera vê muito mais do que eu. Não me interessa ver o que a pessoa tem a dizer sobre o que aconteceu, me interessa o que está acontecendo, registrar a interação do momento. Eu nunca usei entrevista na minha vida. O primeiro documentário que fiz, na escola de cinema, foi uma construção em cima da observação do cotidiano dos personagens. São eles que me guiam. Eu sou muito influenciada pelo cinema de ficção. Algo em mim causa esse interesse.

O que instiga na sua linguagem é justamente essa coisa de observar a uma certa distância. Isso colabora para a reflexão e a tensão.
O importante pra mim é que a câmera não interfira. Eu não gosto de ficar em cima das pessoas. Em alguns momentos nós estamos longe, filmando com uma lente própria pra aproximar, nas situações menos possíveis de chegar perto. E aí é uma prática de filmar sabendo que aquilo vai ter que ser editado. Se filmar de qualquer jeito não dá pra editar.

Você não gosta que chamem sua obra de “filmes de edição”?
Isso não existe, meus filmes não são de edição. Eles precisam ser filmados de uma maneira, em termos de enquadramento, de listening shots... as pessoas observando, pra que, na minha edição, eu consiga, a partir de uma audiência de 40 minutos, fazer uma cena de cinco, com início, meio e fim. É preciso uma rapidez e qualidade técnica pra pegar tudo o que está acontecendo, em foco, bem enquadrado, e com som bom. Eu sou extremamente controladora [risos]. Tô brincando. Mas é uma proposta que todo mundo da equipe tem que entender. Eu fico sempre muito perto da câmera.

Algumas cenas à parte do processo são dignas de observação. Como a Janaína Paschoal num diálogo contra o aborto.
Por mais que eu discorde do argumento dela, acho que aquela cena precisou ser colocada. Veja bem, porque eu não sou contra o aborto. Mas acho que foi preciso colocar esse argumento de maneira que mostrasse como pensam as pessoas que concordam com ela.

Como o público internacional reagiu ao filme?
Eles ficam muito surpresos, boquiabertos. É que, com poucas exceções, acho que a mídia lá fora também reproduziu muito o argumento pró da mídia no Brasil. Ou, reduziu muito. Então as pessoas tomaram um baque, achavam que aquilo havia sido legítimo, que ela era corrupta. “A gente não tinha a menor noção”, essa era a frase de quem saía do cinema. Isso é bom.

Você tinha acabado de fazer dois filmes ao mesmo tempo, Futuro Junho e Seca, ambos de 2015, quando o pedido de impeachment foi redigido. O que te motivou a assumir mais um projeto logo na sequência?
Demorou um tempinho pra dar o estalo, eu estava querendo férias. A ideia era tirar um tempo pra pensar um novo trabalho. Aí aconteceu. Amigos no judiciário progressista me ligavam dizendo que eu devia filmar. Foi quando senti que precisava ir. Foi uma necessidade quase que visceral.

Foi por um ideal?
Não... Acho que o filme tem que ir além da minha visão política. O que eu gostaria, e que espero que este filme faça, é colaborar para que sejamos capazes, enquanto sociedade, de repensar e entender melhor tudo o que aconteceu. E, talvez, que a gente consiga voltar a dialogar um com o outro. Um diálogo mais lúcido. Porque, se não, a gente está indo ao fundo do poço e optando pelo pior do pior do pior. E acredito que, mesmo as muitas pessoas que votaram a favor do impeachment, não querem isso.

O Processo estreou nesta quinta (17).

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