Mulheres negras e saúde mental
Ilustração: Flora Próspero/VICE
Semana da Saúde Mental

Como conciliar militância e saúde mental sendo uma mulher negra no Brasil

Além do peso de estar na base da pirâmide social, é preciso se manter viva.
31 Outubro 2018, 8:27pm

Ser mulher negra num país racista e machista não é uma tarefa fácil. Já disse a filósofa, professora e ativista norte-americana e pantera negra Angela Davis: “Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela”. Frase que carrega todo o significado do que é ser mulher negra, pois além do peso de estar na base da pirâmide social, é preciso se manter viva e, acima de tudo, com saúde mental.

Conversei com algumas mulheres negras que atuam na sociedade de diferentes formas para entender como conseguem conciliar o enfrentamento de problemas sociais com um psicológico em bom estado. Afinal, sobreviver na sociedade brasileira com machismo e racismo estrutural é adoecedor.

De acordo com a psicóloga clínica da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG), Laila Resende, também negra e que realiza um trabalho clínico focado em mulheres negras, os estereótipos estabelecidos servem para encobrir o racismo e rotulá-las com as poucas permissões que lhes são concedidas.

Além disso, a falta de autoestima acaba criando limites estreitos para o existir da mulher. "Um exemplo é a contínua fiscalização da qualidade do trabalho de uma pessoa negra por colegas de trabalho em pé de igualdade (sem esta função) que leva a pessoa negra a acreditar que sempre está fazendo sua atividade aquém da expectativa”, explica Laila.

Joyce Fernandes, a Preta Rara, que é professora de História, rapper e arte-educadora, conta que o termo militante é algo muito recente em sua vida, uma vez que muitas mulheres o são, mas sem utilizar a nomenclatura.

“A militância surgiu na minha vida enquanto sobrevivência, quando eu percebi que eu e outras pessoas éramos diferentes e tratadas com diferença também. Daí comecei a utilizar o rap como ferramenta pedagógica, forma de protesto, escrever tudo o que eu passava, além de outros desabafos”, conta Preta Rara, também criadora da página Eu Empregada Doméstica, com relatos de mulheres que trabalhavam como diaristas.

Preta Rara contou que teve um tempo que recebia ligações de mulheres pedindo ajuda e que ficava sem saber o que fazer: “Me ligavam até de madrugada, falando que queriam se matar, que perderam emprego, tinham filhos pra criar e o cara tinha ido embora ou porque foram despejadas ou [estavam] grávidas, e isso batia muito forte em mim”.

Para a rapper, isso era um peso, pois admite que já tinha os seus conflitos pessoais, para ainda somar com os problemas de outras pessoas. “Ainda tem as pessoas que acham que a gente não pode errar; esquecem que ativista tem que ser totalmente modelo; sendo que sou ser humano, tenho meus preconceitos que tento quebrá-los diariamente, como qualquer outra pessoa”, relata.

Outra questão importante é o autocuidado, que além de ser revolucionário é também uma forma de enfrentamento das opressões. Como relata Preta Rara: “Eu continuar viva já é um ato político, considerando as estatísticas do Mapa da Violência e o crescimento de feminicídios com mulheres negras. Para mim, o importante além de se manter viva e não se calar diante das opressões, é procurar afeto entre os nossos”.

Preta Rara / Foto: Arquivo pessoal

Preta Rara / Foto: Arquivo pessoal

Negra retinta, a jovem Monique Evelle conta que nunca teve dúvidas de que era preta, mas foi entre 13 e 14 anos que entendeu o seu papel social enquanto mulher negra. Quando então criou o projeto Desabafo Social. “O Desabafo foi o rompimento com o silenciamento. Porque eu falo que nunca fui tímida, fui silenciada. E a partir de então comecei a entender que preto e dinheiro não são palavras rivais; tanto que hoje eu empreendo como forma de militância”, explica.

“Eu não saio pra lutar contra o machismo e, amanhã, contra o racismo, eu tenho que lutar contra os dois, pois ambos aparecem todos os dias para mim; e esse ficar 24 horas na defensiva para continuar existindo e resistindo é adoecedor”, conta Monique, consciente das opressões que sofre, assim como outras mulheres negras.

Para manter sua saúde mental, Monique conta que costuma dar pausas. E para a jovem, pausar não significa desistir. “Eu pauso para olhar de um outro ângulo o que está acontecendo para depois continuar, sem adoecer.”

Evelle explica que tão importante quanto a coletividade é a sua individualidade, pois afirma: “Eu preciso estar viva para continuar fazendo o que eu faço. E eu tenho limites. Eu sei até onde posso chegar sem adoecer, sem ferir minha sanidade mental. E se eu continuar nesse exercício de sempre enfrentar, o enfrentamento por si só adoece”.

“Assim como o coletivo adoece, porque o mesmo coletivo que está do nosso lado dizendo ‘Vamos juntas! Vamos nessa!’, é o mesmo que coloca demandas de militâncias e outras demandas absurdas que a gente não dá conta, porque nem todo mundo tem o mesmo ritmo, nem todo mundo está preparado para lutar da mesma forma, então cada um tem um jeito de agir e eu reconheço os meus limites. É preciso muito equilíbrio entre individualidade e coletividade”, afirma.

A psicóloga Laila Resende explica que a desumanização das pessoas negras é uma das formas de existir do racismo. A medida que internalizamos o estereótipo de mulher forte retiramos de nós mesmas nossa humanidade. “É possível ser ativista e assumir nossas fragilidades, pois isto não nos torna pessoas fracas, ao contrário, nos auxilia no fortalecimento interno, no empoderamento subjetivo para o enfrentamento das diversas violências”, finaliza.