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O primeiro rock do Brasil foi gravado por uma cantora de samba

Tudo pra uma gravadora ganhar dinheiro em cima de um cover de “Rock Around the Clock”, maior sucesso do filme 'Sementes da Violência'.

por Julia Reis
13 Julho 2018, 10:00am

Pode-se dizer que “Rock Around the Clock” foi a canção responsável pela chegada, e principalmente, pelo sucesso do rock no mainstream dos Estados Unidos e no mundo. Lançada em 1954 no clássico e popular ritmo de blues, o formato tem letra, frase e estrutura de acorde distintas.

Logo em sua estreia, o single teve um começo meio lento — vendeu somente 75 mil cópias nos Estados Unidos. Mas depois da inclusão no filme Sementes da Violência, dois anos depois de seu lançamento, explodiu em vendas em todo o mundo. A versão de Bill Haley & His Comets (a música foi composta em 1952 pela dupla Max C. Freedman e James E. Myers) toca na abertura e na apresentação dos créditos, e mesmo assim, a garotada ficava na sala de cinema até o final, só para ouvir o som.

Depois do filme, ela se tornou a primeira gravação de rock’n’roll a estacionar na Pop Charts da Billboard, onde pernoitou por oito semanas. Além disso, ela atingiu o topo de outras paradas pop, R&B, e foi a segunda melhor canção do ano de 1955 segundo a própria Billboard.

Aqui no Brasil não foi diferente. Por conta do grande sucesso ao redor do mundo, a Continental, antiga gravadora brasileira, gravou o som às pressas em um disco de 78 RPM — aqueles de chapa preta com um selo no centro — com Nora Ney, uma das cantoras de samba-canção mais bem-sucedidas da era do rádio, na década de 50.

Nora Ney não escolheu estrear a cena rock’n’roll no Brasil. Na verdade, dentre muitas opções de artistas, ela foi escolhida como muitos jovens são escolhidos para seus primeiros empregos: porque falava inglês.

Uma semana após o lançamento da Continental com a cantora, a música já alcançava os topos das paradas, assim ditando o nascimento da música jovem e popular brasileira. A juventude, descontrolada em meio ao som alto das caixas da sala de cinema depredavam-na sem motivo algum, e por essa razão, a exibição do filme foi proibida por Jânio Quadros em algumas cidades. Segundo o juiz de menores da época, Aldo de Assis Dias, o novo ritmo que chegara ao Brasil era "de estranha sensação e de trejeitos exageradamente imorais”.



Por esse estranhamento comum da ala não jovem, a voz grave de uma moça que tinha começado sua carreira cinco anos atrás e conquistava um status comparável ao de Maysa Matarazzo, Ângela Maria e Dolores Duran se voltou contra o gênero quando lançou “Cansei de Rock”, em 1961.

Nora já tinha 39 anos quando se arrependeu de abrir os portões do rock’n’roll e queria decretar a morte do mesmo pouco tempo depois. Em meios de toques de bossa-nova, e em seu lugar de conforto, ela já dizia: “Toque cabalado, toque um samba, toque cabalado, já cansei de rock”.

Depois da empolgação inicial dentro de um ritmo totalmente novo, Cauby Peixoto recém-chegado dos Estados Unidos lançou “Rock and Roll em Copacabana” em 1957, feita por Miguel Gustavo, que colocava seu nome na história ao compôr a primeira música de rock em português.

Com uma levada R&B, os roqueiros se concentravam muito mais nas áreas nobres do Rio de Janeiro, inspirando artistas como Tim Maia, Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Jorge Ben Jor, que nessas experimentações com o movimento, conseguiram alinhar a estética de música pop ao som elétrico de violões plugados em caixas de som.

O rock só voltou a ter mulheres nos vocais novamente, quando a Jovem Guarda já estava no auge em meados da década de 60 com Vanusa e Wanderléia, que diferente de Nora Ney, não cansaram do gênero e seguem na mídia até hoje.

Atualização - 18/7 às 18h12:

A matéria dizia anteriormente que o rock só voltou a ter mulheres no vocal somente na Jovem Guarda, com Vanusa e Wanderleia. Mas o leitor Eduardo de Andrade Pereira mandou um e-mail levantando um ótimo ponto, que acabou me escapando: Celly Campello, do clássico imortal "Banho de Lua" foi uma grande artista do gênero e isso antes da Jovem Guarda. Teve também Elza Ribeiro que participou em 1960 do LP Garotas e rock, promovido pela gravadora RCA Camden e Marisa Nazareth que gravara "Antologia", um disco com 9 faixas lançado em 1962.

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