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Tech by VICE

O homem que salvou seu iPhone de hackers foi preso pelos Emirados Árabes

Ahmed Mansoor salvou milhões de usuários do iPhone de um perigoso spyware. Se você se preocupa com sua privacidade e segurança, é hora de lutar para que ele seja solto.

por Tanya O'Carroll; Traduzido por Ananda Pieratti
16 Maio 2017, 2:17pm

Crédito: Martin Ennals Foundation

Esse artigo foi escrito pela Anistia Internacional e publicado pelo Motherboard.

Quando seu nome começou a circular pelo mundo tecnológico, o ativista Ahmed Mansoor já havia dedicado mais de uma década de sua vida à defesa dos direitos humanos em seu país natal, os Emirados Árabes Unidos (EAU).

Ano passado, uma série de mensagens suspeitas fizeram com que Mansoor, um poeta, blogueiro e ativista pelo direito à liberdade de expressão, chamasse a atenção da comunidade tecnológica. As mensagens, enviadas para seu iPhone 6 nos dias 10 e 11 de agosto de 2016, ofereciam "novas informações" sobre prisioneiros torturados em prisões dos Emirados Árabes, seguido de um link para um site desconhecido.

Qualquer um poderia ter caído nessa armadilha. No entanto, Mansoor estava em constante estado de alerta — afinal, sua vida dependia disso. Ele já havia sido hackeado duas vezes pelo governo dos Emirados Árabes, e a vigilância sufocante a qual ele estava submetido já havia lhe rendido uma surra, um período na prisão e a proibição de deixar o país.

Desconfiado, Ahmed encaminhou as mensagens a especialistas em segurança, que em seguida enviaram à Apple uma lista de vulnerabilidades presentes no software do iPhone. A Apple corrigiu essas falhas imediatamente, e Ahmed ficou conhecido como o homem que ajudou a garantir a segurança de milhões de usuários do smartphone da companhia americana.

Nas palavras de Ronald Deibert, diretor do Citizen Lab, "sempre que você atualizar seu software, aproveite para agradecer ao ativista Ahmed Mansoor".

O spyware descoberto por Mansoor era tão elaborado e dispendioso que os pesquisadores do Citizen Lab apelidaram o ativista como "o dissidente de um milhão de dólares".

Mas a vida de dissidente nos Emirados Árabes não é nada glamourosa. Hoje, um ano depois de sua súbita fama, Ahmed Mansoor está em confinamento solitário em uma prisão emiradense. Seis semanas se passaram desde que Ahmed foi detido no meio da noite em seu apartamento; desde então, o governo dos EAU vêm negando seu direito à representação legal. Para piorar a situação, Ahmed, que não vê seus filhos desde seu detenção, só pôde receber uma única visita de sua esposa.

Enquanto isso, os Emirados Árabes dão continuidade à sua ascensão meteórica no setor de tecnologia: nos últimos anos, o país tornou-se o destino de escolha de start-ups interessadas em investir nos mercados emergentes do Oriente Médio, África e Ásia.

As mesmas autoridades que perseguiram Ahmed Mansoor em resposta a seu ativismo pacífico estão sendo cada vez mais bem-sucedidas em seus esforços de transfomar o país em um "Oásis do Silício". Empresas como o Twitter, o Facebook e até mesmo a Apple realocaram suas filiais do Oriente Médio para os impressionantes arranha-céus de Dubai, inspirando Mohammed bin Rashid al-Maktoum, governante dos Emirados Árabes, a definir o país como "uma incubadora de inovação e novas tecnologias".

Nesse futuro brilhante, entretanto, não há lugar para o dissidente de um milhão de dólares: enquanto o setor de tecnologia cresce a olhos vistos, Ahmed apodrece na cadeia.

As acusações contra Mansoor são infundadas. Entre elas está o uso de redes socias para "publicar informações falsas e rumores"; a promoção de "uma agenda sectária e extremista"; e a "publicação de informações enganosas" que ferem a unidade nacional e mancham a reputação do país. É irônico que os Emirados Árabes, um Estado que demonstre tanta empolgação com as oportunidades trazidas pela tecnologia, esteja tão decidido a reprimir a liberdade de expressão de seus cidadãos.

Não podemos nos deixar enganar pela fachada reluzente desse "Oásis do Silício". Atrás dela há um aparelho de repressão e medo, e embora muitos estejam se posicionando contra esse sistema, as vozes discordantes estão sendo caladas uma por uma.

Independentemente de nacionalidade, todos nós temos algo a aprender com a história de Mansoor. Ela ilustra os perigos de uma época de crescente vigilância estatal, um tempo em que novas tecnologias ajudam governos cruéis a reprimir aqueles que se atrevem a perturbar o status quo. Ahmed foi capaz de desmantelar uma dessas ferramentas de repressão, e por isso nós devemos ser gratos.

Para aqueles que defendem o direito à privacidade — aqueles que se incomodam com o uso autoritário das tecnologias de vigilância — compartilhar a história de Ahmed Mansoor deveria ser uma prioridade.

Quanto às empresas que estão se aproveitando dessa primavera tecnológica, vale lembrar que embora sua presença seja positiva para a imagem das autoridades locais, suas operações estão sujeitas às mesmas leis que reprimem sistematicamente toda e qualquer manifestação de dissidência da população emiradense. Essas empresas também devem estar cientes das violações dos direitos humanos cometidas pelos Emirados Árabes, além de garantir que sua presença no país não incentivará a censura ou vigilância digital. Isso envolve, por exemplo, elaborar uma resposta a possíveis pedidos das autoridades locais, que podem exigir a divulgação de informações dos usuários dessas empresas ou a remoção de algum conteúdo.

É preciso ter em mente que podemos reagir a esse tipo de injustiça. Afinal, os Emirados Árabes se preocupam com sua reputação, sua "marca". Caso os Emirados Árabes queiram manter a imagem de um país tecnológico e aberto à inovação e investimentos, eles dependem da cooperação das grande empresas de tecnologia e de seus funcionários. As exigências dos ativistas de direitos humanos continuarão a ser ignoradas, mas os Emirados Árabes escutarão caso — e quando — o setor de tecnologia se pronunciar.

Existem medidas a serem tomadas. Uma delas é assinar essa petição criada por ONGs do setor de tecnologia em defesa da soltura de Ahmed. Outra é usar todas as plataformas possíveis para compartilhar essa história, assim mantendo Ahmed no centro do discurso público. Caso sua empresa esteja prestes a fazer negócios com os Emirados Árabes, busque conhecer a posição do país em relação aos direitos humanos e elabore formas de combater possíveis violações desses direitos.

A prisão de Ahmed Mansoor foi um recado enviado por um governo decidido a extirpar, a qualquer custo, toda e qualquer dissidência. Mas ela também serve de aviso para o setor da tecnologia: não devemos nos encantar por luzes brilhantes, e devemos ter sempre em mente que são pessoas como Ahmed Mansoor que defendem nossos direitos e tornam a tecnologia mais segura para todos nós.