Noisey

Como o Placebo deixou os anos 90 mais queer

Na época em que pop grudento e masculinidade encapuzada reinavam, Brian Molko se destacou como a paixonite alternativa de toda uma geração.

por Daisy Jones
08 Maio 2017, 1:00pm

"Desde o nascimento estou em declínio" é o que Brian Molko canta em "Teenage Angst" single do disco de estreia autointitulado do Placebo, de 1996. Fora de contexto, soa como algo duro e deprimente, uma confissão de ódio a si mesmo. Mas dentro daquela música, a frase ganha tons indulgentes. Entre riffs lamacentos, acompanhados por voz frágil e ironia, parece ser algo a qual todos aspirariam, fazendo da música um hino perfeito para quem vive à margem.

Só fui ouvir Placebo dez anos após o lançamento desta música, ainda na adolescência, única época possível para conhecer uma banda dessas porque você nunca mais será tão emotivo e dramático de forma tão absurda quanto na adolescência – e o Placebo representa exatamente isso. Sua música era sombria, mas não tediosa, estilosa sem exageros, já as unhas pintadas de Molko, cabelo pretaço e expressão de quase morte batiam certinho com as bandas emo que geral curtia na época, possivelmente influenciadas por Placebo uma década antes.

Quando o Placebo apareceu, porém, eles eram mais que uma banda grunge-gótica com jeitão emo-antes-dos-emos ainda que com uma pega Sonic Youth. No final dos anos 90, uma olhadela nas paradas britânicas em especial revelava que a banda se destacava como um letreiro de neon em um beco escuro. De um lado tínhamos o pop chicletão de bandas como Spice Girls, Steps e 5ive, do outro, o britpop representado por Oasis, Blur e tantos outros que a gente nem lembraria direito depois, como Babylon Zoo, Cornershop e Fat Les. De qualquer forma, era tudo meio heteronormativo e normalzão, os anos 80 haviam ficado pra trás numa viagem de ácido e os anos 70 pareciam um brilho mais distante ainda – tudo isso em meio a jovens cobertos de suor trajando camisas polo, mãos pro ar entoando "Lager! Lager! Lager!" respingando cerveja uns nos outros.

O Placebo, por sua vez, não tinha nada a ver com isso – especialmente Brian Molko. Ele era belo e andrógino, de batom vermelho, cropped e com um delineador que o tornava alvo da paixão de quem não dava a mínima para os irmãos Gallagher e Damon Albarn. A rejeição ficou clara quando Molko foi capa da Select – revista que cunhou o termo "Britpop"- em 98, camisa abaixada de forma a mostrar seus mamilos, o cabelo emoldurando seu rosto como um anjo e a frase "Olá garotos!" escrita em rosa tipo Barbie, seguida por "Placebo: a banda mais suja do Reino Unido".

Seu estilo, bem como a forma como falava de sua bissexualidade para a imprensa, apresentavam uma certa fluidez inclusiva, em que Molko se recusava a fazer parte da heteronormatividade bem antes do termo "queer" ser usado como hoje. "Éramos crossdressers no começo da carreira", disse Molko ao Belfast Telegraph, "Não era só um capricho; víamos aquilo como um posicionamento político. Queria mesmo que os homofóbicos me olhassem e questionassem sua sexualidade, que acredito mesmo ser fluida. Pra mim, não se trata de gênero – e sim pessoas".

Isso não se resumia apenas à forma como ele se apresentava para o público – estava ali pela música também. A temática queer se faz presente no disco de estreia do Placebo em "Nancy Boy", que tocou tanto que o próprio Molko ficou de saco cheio dela. Essencialmente, a música fala de jogar tudo pro alto e transar gostosinho, mas vai além disso. Seu título pega um termo homofóbico e o transforma em algo digno de orgulho, algo que você usaria para descrever a si mesmo.

Já sua letra trata de um rapaz que enche a cara e tem um parceiro diferente a cada noite. Na teoria, isso poderia incomodar, visto que estereótipos que tratam todos os homens queer como promíscuos persistem há tempos, sem compromisso nenhum com a realidade, baseados em preconceito puro. Por outro lado, há uma falsa impressão generalizada de que toda pessoa queer quer fazer parte da cultura hetero, deixando de lado tudo aquilo que os faz únicos, casando, tendo filhos e frequentando lojas de departamentos. Da mesma forma que Perfume Genius faz em "Queen", o Placebo simplesmente destrói este conceito ao apresentar seu total oposto: "Alcoholic kind of mood / Lose my clothes, lose my lube / Cruising for a piece of fun / Looking out for number one". Claro que este trecho poderia se referir a qualquer um, independente de sua sexualidade ou gênero, mas o fato de que se chama "Nancy Boy" combina sexo homossexual, drogas e perversões em um grande foda-se.

Quando o segundo disco da banda, Without You I'm Nothing, foi lançado em 1998, tratava-se de uma narrativa tão pessoal e irrestrita que ninguém sabia direito o que fazer com aquilo nas mãos. A Pitchfork lhe deu uma nota 5.1, onde o jornalista Michael Sandlin pegou pesadíssimo ao falar que seu "melodrama brega cai nas graças de nerdões comedores de cola e adolescentes cheios de espinhas", comentando ainda que a banda "fornecia o tipo de entretenimento ideal para o virgem jovem, cínico, inseguro e sexualmente ambíguo".

Claro, algumas das letras são bem intensas e dramáticas mesmo, assim como sexo e relacionamentos – ao menos aqueles que nos lembramos – e é disso que o disco trata. Independente de Molko cantar sobre um gótico sem noção de nada que passa o dia em busca de transas de merda em "Burger Queen" ("Chooses his clothes to match his pallid complexion / Now it takes him all day just to get an erection") ou traçando comparativos entre usar drogas e trepar com alguém que te faz mal como em "My Sweet Prince" ("Never thought I'd fill with desire / Never thought I'd feel so ashamed") ou como a paixão pode te fazer agir de formas ridículas e danosas em "Every Me and Every You" ("My heart's a tart, your body's rent / My body's broken yours is bent").

Molko aborda relacionamentos de maneira que nada tem a ver com o gênero, ainda que tudo esteja muito atrelado ao sexo. Sendo assim, o queer torna-se central simplesmente porque o tornam irrelevante. Ao operar sem rótulos, ele convida seus ouvintes a se envolverem com suas narrativas ao passo em que manda tomar no cu quem se incomode com tamanha franqueza.

Claro que há vários outros artistas que subverteram gênero e sexualidade antes e depois de Brian Molko – alguns de maneira muito mais contundente. Nos anos 90 o mundo já conhecia o espírito anárquico de nomes como George Michael, Annie Lennox e Boy George. Antes destes mesmo tivemos Grace Jones, Prince e David Bowie. Mas como o final desta década estava preocupada com masculinidade coberta por moletons e capuzes, tão destituída de qualquer coisa que fugisse da norma dentro do mundo pop, os atos de Molko seguem relevantes.

Anos depois, o próprio Brian admitia ter certo arrependimento e orgulho de sua influência queer nos anos 90, como se fosse uma faca de dois gumes. "Me arrependo de ter sido tão franco sobre minha sexualidade e a de Stefan porque aquilo fez muita gente pirar", escreveu. "Mas, ainda assim, foi importante para nós nos posicionarmos. O que importava mesmo era termos liberdade e tolerância num mundo preconceituoso... Hoje em dia o mundo musical é muito mais aberto e acho que contribuímos para isso".

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(Ilustração por Esme Blegvad )

Tradução: Thiago "Índio" Silva