O Carne Doce passa 2016 a limpo no clipe de "Açaí"

É o segundo vídeo de 'Princesa', último disco da banda goiana, lançado no final de agosto.

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02 Dezembro 2016, 5:00pm

2015 e (principalmente) 2016 foram dois anos super cheios pro Carne Doce. Além de terem trabalhado pra caramba no lançamento do seu segundo disco, o Princesa, lançado no final de agosto, a banda goiana ainda fez uma porrada de shows por vários lugares do Brasil. E o clipe de "Açaí", que sai com exclusividade pelo Noisey nesta sexta (2), traz justamente um compiladão de imagens da banda nesses dois últimos anos. 

O clipe é bem alto astral (assim como a vibe música, que talvez seja a mais festiva do disco) e celebra alguns bons momentos que eles passaram até aqui. "Tem um monte de coisa sendo contada aí, das praias de nudismo quando fizemos a tour no Nordeste a momentos de pura preguiça no apê que alugamos em SP, durante a gravação", disse Macloys Aquino, um dos guitarristas do grupo. "Tivemos a ideia do clipe de making off pra deixar esses momentos de nossas vidas como banda registrados".

Além das imagens de making of, a Compartimento, agência que editou as imagens, também produziu takes com atores colando lambes em lugares públicos de Goiânia, com mensagens tipo "Mais Açaí por Favor", "Fora Trampo", "Arroz, Feijão e Cama". " Foi uma saída para o clipe de making of pra uma música de sete minutos. Os caras foram guerreiros pra editar esse trem", disse Mac.

Aproveitei a deixa do lançamento do clipe pra falar um pouco com o casal Mac e Salma Jô, a vocalista, sobre o clipe, o Princesa e os planos deles pra 2017. Assista ao clipe abaixo e leia a entrevista:

Noisey: Acho "Açaí" uma música meio contraditória. Porque o instrumental é alegre e festivo, mas a letra, toda vez que ouço sempre associo um pouco a uma procrastinação da galera da nossa geração.
Macloys Aquino: É isso mesmo, procrastinação, preguiça ou até impotência, sentimentos mais comuns nas gerações dos 20 aos 30 do que em gerações anteriores, nossos pais, que parecem ter trabalhado mais — e conquistado mais — que a gente. Foi pensando mais ou menos nisso que a Salma escreveu a letra.

Também acho que é uma das únicas faixas mais "universais" do disco, que ganhou bastante reconhecimento esse ano por ter aflorado o "lado feminino" do Carne Doce e tal. Sobre o disco, como que rolou de vocês abordarem essa temática?
Salma Jô: Bom, as letras são todas minhas. Eu já tenho essa maneira de gostar de tratar de política de uma maneira íntima. E esse álbum veio nesse momento de supervalorização do depoimento e do auto-conhecimento como forma de política e denúncia contra o machismo.  

Eu realmente senti esse lado feminino no decorrer das faixas. Como se cada uma fosse ou uma mulher diferente ou uma outra faceta da mesma mulher (tipo, "Cetapensâno" é uma mulher lidando com um cara babaca no relacionamento. Em "Artemísia",  tem o lance do aborto.  "Falo", da TPM e também de uma personagem mais "histérica" e "neurótica".
Salma: É exatamente isso. O disco não foi pensado desde o início assim, para ser uma colagem de vários personagens, vários eus femininos, mas quando juntei a maior parte das letras do álbum essa característica saltou. E o nome do disco meio que sintetiza isso: o nome é Princesa porque é uma palavra que pode ter vários sentidos a depender do contexto. A capa também tem uma relação com o feminino, porque tem um quê de poder e sofrimento e angústia e sensualidade naquela imagem. Acho que ambos sugerem a complexidade feminina.

No clipe de "Artemísia", rolou inspiração no clipe de "Voodoo in My Blood", do Massive Attack? Salma: Rolou inspiração na cena que inspirou esse clipe, que é do filme "Possessão". Quando esse clipe saiu, essa ideia já era uma possibilidade, de que eu queria fugir na verdade, pois temia que interpretassem que a atitude da mulher fosse resultado de alguma influência externa do tipo um demônio, ou um espírito ou qualquer outra força que não fosse a vontade da própria mulher. Mas acho que resolvemos isso bem.

Sei que vocês são amigos do pessoal do Boogarins e tem dois integrantes do Carne Doce (e dois do Boogarins) no LuziLuzia também. Como que é essa relação entre Boogarins e Carne Doce?
Salma: Começamos praticamente juntos, lançamentos os nossos primeiros EPs na mesma época, fomos nos primeiros shows uns dos outros. Mas eles se desenvolveram muito mais rápido, também como músicos. Acho que acabamos bebendo um pouco da psicodelia e da tropicalidade deles sim, mas eles me inspiram mais pela personalidade deles, pela forma como eles enxergam o mundo e a própria arte. 

No dia do Secret Festival, ouvi vocês falando que muita gente (veículos de mídia) se refere a vocês como "banda goiana", mas que isso causava um certo incômodo, já que  vocês não fazem música típica goiana. Vocês podiam comentar um pouco sobre isso?
Mac: Às vezes achamos engraçado categorias do tipo 'rock goiano' ou 'indie goiano', porque se fossemos de São Paulo seríamos apenas 'rock' ou 'indie'. Mas não incomoda não, é o que somos afinal de contas. Muito do que fazemos vem desse pertencimento ao lugar.  

Vocês tão com o projeto do Carne Doce na Cama. Vocês podiam falar um pouco sobre como surgiu a ideia? E como isso vai desenrolar no próximo ano?
Mac: Sempre tivemos vontade de fazer isso, mas faltava coragem e até habilidade, pela crueza mesmo das canções. Mas metemos a cara, marcamos três apresentações, uma em Goiânia e duas em São Paulo, vamos ver se funciona.

Quais são os projetos pra 2017? 
Mac: Temos três clipes para lançar e queremos montar uma boa agenda de shows. A ideia é trabalhar o 'Princesa' em 2017.

Depois de 3 meses do lançamento do princesa, como que é o sentimento de vocês em relação ao disco e a recepção da galera (comparado com o primeiro disco)?
Mac: Percebemos que esse disco parece ter se conectado melhor com o público que com a crítica, uma inversão do que ocorreu no primeiro disco. Isso é muito positivo, nos dá uma dimensão melhor de 'realidade'. 

E vai ter show em São Paulo em breve?
Mac: No início do ano,  provavelmente.