Crédito: Danin Drahos

Phil Anselmo não tem celular e ama todo mundo

Uma franca conversa sobre saúde mental, parar de beber, psicose coletiva na internet, dois anos do incidente da saudação nazi no Dimebash e seu recém lançado disco com os Illegals.

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31 Janeiro 2018, 11:00am

Crédito: Danin Drahos

Um dos principais vocalistas do metal nas últimas décadas, seja com o Pantera, o Down ou um dos seus muitos projetos, Phil Anselmo sempre foi uma figura polêmica. Mas as coisas certamente atingiram um novo nível há cerca de dois anos, mais especificamente em 22 de janeiro de 2016.

Naquela noite, quando foi realizado o evento beneficente Dimebash, o músico dividiu o palco com nomes como Dave Grohl, Robert Trujillo, Dave Lombardo e Robb Flynn para homenagear o guitarrista e seu ex-companheiro de Pantera, Dimebag Darrell, morto a tiros em 2004. Ao final do show, no entanto, Anselmo, ainda no palco, gritou as palavras “White Power” e fez a saudação nazista com o braço direito.

Como acontece com quase tudo hoje em dia, o episódio foi filmado e obviamente causou um barulho e tanto na Internet, com diversas críticas a Anselmo, que foi acusado de racismo e teve suas ações condenadas por diversos nomes no metal, como o já citado Robb Flynn e o seu amigo Scott Ian. O músico então postou um vídeo de desculpas, mas isso não foi suficiente para evitar que o Down fosse retirado de muitos festivais ao longo daquele ano por conta do episódio.

No final de 2016, Anselmo rompeu o silêncio ao retomar as atividades da sua banda Superjoint Ritual, agora rebatizada apenas como Superjoint, ao que se seguiram novos álbuns e shows com outros projetos como Scour, Phil & Bill e sua banda solo, Illegals, que acaba de lançar o segundo full-length, Choosing Mental Illness as a Virtue, pelo seu próprio selo, Housecore Records.

Na entrevista abaixo, feita por telefone há algumas semanas, o vocalista fala sobre o novo trabalho com o Illegals, como foi parar de beber recentemente, sua relação com a tecnologia, os discos que mudaram a sua vida e, obviamente, sobre o ocorrido no Dimebash em 2016.

Noisey: Ouvi o Choosing Mental Illness as a Virtue nas últimas semanas e ele é bem “feio”, no bom sentido, realmente extremo. Pelo que notei, soa um pouco mais sujo do que o seu trabalho anterior com os Illegals. Isso foi algo intencional? E as mudanças na formação da banda – o grupo agora conta com duas guitarras — tiveram alguma influência nesse sentido?
Phil Anselmo: Penso que as mudanças na formação definitivamente afetaram o som. No geral, no heavy metal, eu sempre preferi o som com duas guitarras. Então no Illegals acho que a minha visão sempre foi ter dois guitarristas. E em um determinado ponto chegamos a gravar três faixas de guitarras no álbum. Mas acho que em um show, por exemplo, seria um pouco demais para mim, um tanto pretensioso para o velho aqui (risos). Mas vou te dizer que quando tocamos juntos em uma sala, apenas com as duas guitarras, eles tocaram de maneira perfeita. Steve Taylor (guitarrista, que também toca no Superjoint) é um cara incrível para se colaborar, assim como o Mike DeLeon (guitarrista, ex-MOD). Esse grupo que está comigo agora é sólido, inteligente, com os pés no chão, flexível e muito entusiasmado, eu acho. Uma boa parte deles são caras mais novos. Eu e o Steve temos mais ou menos a mesma idade, mas os outros caras são jovens e eles nos mantém focados e alertas. Então sim, todos os sons e expressões do disco, desde a maneira como ele soa até como é tocado, tudo é muito intencional.

Aliás, o som da banda no álbum é bastante complexo, com uma pegada mais técnica nas partes de guitarra e bateria. Foi mais difícil gravá-lo do que outros trabalhos da sua carreira, em termos de ensaiar e deixar tudo certo no estúdio?
Na verdade, não. Tudo aconteceu de uma forma muito natural, para falar a verdade. Bom, a minha percepção e só posso falar por mim… Tenho idade suficiente agora, então assisti basicamente ao crescimento da cena toda, no sentido de a música extrema se fundir com o hardcore e com todos os tipos de elementos diferentes dentro do rock pesado. Eu vi tudo isso com os meus próprios olhos. Pessoalmente sempre gostei das bandas que tocavam de uma maneira mais avançada, alguns diriam de um modo mais técnico. Mas ao ponto de que agora há tantas expressões na música… Então agora estamos vendo a expressão livre contra a expressão mais técnica ou uma boa combinação das duas coisas. Então para a música extrema, na minha visão, essa é apenas uma expressão de todas essas influências com as quais eu cresci e com o que chamaria de uma abordagem moderna do metal extremo, que tem sido muito influente na minha vida e que eu adoro.

Em uma entrevista há alguns anos, você disse que as letras do disco anterior do Illegals, Walk Through Exits Only (2013), não tinham um conceito específico, já que queria ter uma abordagem do tipo “point blank”. Isso continuou no disco novo ou há um tema mais fechado agora? O título é bastante forte, por exemplo.
Bom, vai além do título. Com esse disco, eu queria me certificar de plantar uma semente ou dar uma estrutura. Para mim, a coisa mais importante é as pessoas terem a sua própria interpretação. Porque estou jogando muitas coisas lá fora e com certeza há coisas do tipo “point blank”, mas também estou expressando-as de uma maneira diferente. Mas há muitas coisas jogadas lá que são absolutamente lógicas. Eu só gosto de dar algo muito lógico e direto e depois outras coisas absurdas.

Acho que… cara! Meu Deus! Você está ligando do Brasil, certo? Eu nem consigo imaginar como vocês vão traduzir essa bagunça toda para o seu idioma (risos). Porque mesmo em inglês é absurdo pra caralho em alguns pontos — na maior parte dos pontos, na verdade (risos). Não consigo não rir, cara, me desculpe (risos).

Philip H. Anselmo & The Illegals. Foto: Divulgação

Todas as fotos usadas na arte do disco chamam bastante a atenção. Onde você conseguiu essas imagens?
Bom, há muitas fotos de bancos de imagens. Mas também… nunca consigo lembrar o nome dele e me sinto mal por isso. Há uma imagem de um garoto na capa, com os olhos roxos e fechados, e ele foi lobotomizado pelo médico que inventou a lobotomia moderna. Na verdade, nós entramos em contato com esse garoto e temos mantido um contato próximo, tive uma interação breve com ele. Nós explicamos para ele o que era o disco e o que significava para mim. De forma geral, olhar para o disco é como olhar para mim mesmo. A análise das coisas que fizeram eu ser quem eu sou: minha infância, as famílias da minha mãe e do meu pai, toda a minha linhagem. O disco me fez olhar de verdade para isso. Mas também me fez olhar em um nível social, aqui nos EUA e pelo mundo todo também, obviamente. E não posso dizer que sou um especialista, mas tenho olhos e vou comentar se ver algo. E se não souber nada sobre aquilo, posso dizer facilmente que não sei nada sobre aquilo. Acho que quando a Internet foi aberta, isso realmente abriu um mundo totalmente novo, um mundo grande de verdade — algo que talvez tenha começado há alguns anos. Mas acho que agora estamos começando a sentir o barulho dos freios, por assim dizer, a primeira puxada de freio. Algo do tipo: "Espera um minuto. Essa é uma tecnologia muito, muito complexa, que pode ser muito útil, mas também pode ser perigosa". Então acho que todo mundo ainda está tropeçando um pouco. Por isso, vejo uma coisa em massa, não necessariamente uma doença assim por dizer, mas uma espécie de psicose a ponto de… Acho que você tem determinadas pessoas à margem que se comportam de forma diferente por conta desse mundo totalmente novo em que vivemos. Então é um olhar sobre a saúde mental de forma geral.

E qual a sua relação com a tecnologia? Você é um cara com vários gadgets e tudo mais?
Não. Puta que pariu, não. Eu sou velho, cheguei depois nisso. Quero dizer, eu sei o que sei, tenho um notebook, mas até hoje resisto ao telefone (celular). Não vou ter uma merda de um telefone no meu bolso o tempo todo, como o resto do mundo. Mas esse sou apenas eu, sou um estranho filho da mãe e faço coisas estranhas. Então mais poder para as pessoas estranhas (risos).

Vi uma entrevista recente que você fez com o Eddie Trunk , em que você fala sobre como gosta da Chelsea Wolfe e você também tem artistas como Autor & Punisher na Housecore Records. Por isso, queria saber quais bandas e artistas mais novos você tem escutado ultimamente.
Eu tenho estado no que chamo de um “período de abstinência”. A música é algo incrível, mas não é exatamente uma coisa essencial no momento. Tipo, não há nenhuma banda específica me atraindo agora como o Portal fez. O Portal foi a minha última grande "paixão" em termos de bandas. Como um nerd da música, eu preciso dizer que fiquei vidrado no Portal por uns três anos. Mas honestamente, cara, tenho ouvido mais música antiga. E se tivesse que ser específico, diria Chicago, James Gang e Pink Fairies. Mas também escuto coisas como Jacula e Psychic TV e… o Nick Cave, é claro. Putz, de tudo, até coisas como Impaled Nazarene e Goatcraft. Aliás, adoro o que o Goatcraft faz no piano, um lance bem dark e inspirado em filmes de terror e tudo mais. E é claro que escuto o grande compositor de noise, tipo o tatataravô do estilo, que é da Itália e tocava por volta de 1910, 1920: Luigi Russolo. Adoro ele! É algo um pouco antiquado para se ouvir, mas ainda muito interessante, especialmente se você ler mais sobre ele.

Nesta semana, completou-se dois anos desde o acontecido no Dimebash . Por isso, queria saber como olha para o que aconteceu hoje em dia. E pensa nisso como um ponto de virada na sua carreira e também na sua vida?
Não, cara. Olho para isso como olho para qualquer outra reação exagerada na Internet. E o motivo para eu dizer isso é porque eu não sou uma porra de uma pessoa política, eu não sou político. Cara, tudo que eu tenho é amor por todo mundo. E não estou nem aí… Eu não voto, eu não votei (risos). Música é a minha religião, a minha política. Filmes de terror e lutas de boxe também são a minha política. Sou uma porra de um cara simples, gosto de algumas poucas coisas e me concentro nelas. Eu fiz uma piada irônica, uma paródia — você sabe e eu sei. E eu certamente espero que as pessoas saibam disso porque eu sou de Nova Orleans, Louisiana. Nasci e fui criado com uma quantidade incrível de... Bom, em primeiro lugar eu fui criado por uma mãe solteira e muito, muito forte em 1968, quando ela tinha 19 anos. Então ela tinha uma mentalidade mais hippie e qualquer coisa relacionada ao ódio contra outras pessoas por motivos completamente inexpressivos e inválidos era realmente desprezada na minha casa. Fui ensinado que o amor vem em primeiro lugar. Eu vivia no French Quarter, no coração do French Quarter, onde você vê todos os tipos de pessoas. Pessoas. Eu não gosto de rotular as pessoas, seja pela cor da pele ou pela orientação sexual ou qualquer coisa assim. Acho que isso é ridículo. Porque pessoas são pessoas, aos meus olhos, na minha cabeça e na porra da minha casa. Não gosto de rotular as pessoas. Porque...porra, cara. Olhe para o Superjoint, olhe para o Illegals, eu amo tocar com os meus colegas de bandas. Não tenho nada em comum com pessoas que... que podem ter até o mesmo visual que eu, com a cabeça raspada e tudo mais. Eu sei como é a minha aparência. A óptica é tudo, mas não é. Isso é julgar um livro pela capa. E isso é ler uma piada de um livro que pode ser sobre um assunto totalmente diferente. E realmente é sobre um assunto totalmente diferente, que é a música. E você não sabe quem a sua música vai tocar, ou tem qualquer controle sobre isso. Comecei a tocar porque amava música. E a minha música chega a muitos ouvidos diferentes. E se eu realmente… Apenas um tolo iria querer fazer a sua música apenas para um grupo particular de ouvidos (risos). Foda-se essa merda, cara. Eu amo todo mundo, essa é a porra da verdade. Todo mundo deveria saber isso. E se você não sabe isso... Acredite no que você tiver de acreditar, mas acho que o que mais me incomoda é que… Vou apenas dizer: quando as pessoas olham por uma lente, elas vão encontrar o que estão procurando, não importa o que aconteça. Se as pessoas veem essa coisa em tudo, então isso torna a vida… Eu não sei. Para mim, a maneira como fui criado é que não pensamos de forma igual e nem parecemos iguais e isso é o que torna todo mundo incrível e o faz o mundo girar — e funcionar. Sou de Nova Orleans, meu amigo. Gumbo! Isso significa misturar. E quanto maior a mistura, melhor o gumbo. E isso também vale para as pessoas. É assim que eu fui criado e o que eu penso.

Li recentemente que você parou de beber após o Dimebash. É isso mesmo? E você continua sem beber até hoje?
Eu não bebo há… completa dois anos agora em 2018. Mas não, essa é outra ideia errada. Isso não teve nada a ver com aquela merda. Foi uma aposta (risos). Foi uma aposta que se transformou em um hábito e depois em um estilo de vida. Porra, cara! Quando você fica mais velho e já quebrou tantos ossos como eu… e já rompeu tantos ligamentos, sofreu tantas concussões e todas essas merdas, acordar com uma ressaca… Ah, meu Deus! Não preciso do mau-trato extra. Então está tudo bem, é fácil viver sem a bebida. Bem fácil, na verdade.

Nesses últimos dois anos, você lançou algo como quatro ou cinco discos com as suas diferentes bandas e projetos, incluindo Superjoint, Scour, Bill & Phil e agora o Illegals. Por isso, queria saber se todos esses lançamentos em sequência tem algo a ver com você ter parado de beber recentemente?
Cara, você precisa entender que esse disco (do Illegals) é antigo, porque nós começamos em 2014. Então, eu estava bebendo (na época). Tipo, muita coisa que será lançada nesse próximo ano é baseada em material mais antigo. São coisas antigas e coisas novas também. Então é sempre essa linha tênue de material mais antigo, que eu talvez tenha gravado há muito tempo, se encontrando com um novo olhar e uma mudança na forma de pensar a estrutura das músicas. Mas não, cara. Acho que se, qualquer coisa, eu gravei os discos que eu gravei e agora...Eu mencionei aquele “período de abstinência” de ouvir música, agora acho que estou recarregando as baterias. E vou fazer uma nova cirurgia na coluna no final de janeiro. Mas está tudo bem, estou feliz que isso esteja acontecendo agora (cirurgia). O tempo de recuperação não é quase nada e é algo que estou ansioso por fazer. Enquanto isso, vou lançar discos para as pessoas ouvirem e tentar marcar alguns shows e outras coisas para 2018.

Aliás, falando em novos discos e tudo mais. Há algum plano de voltar a tocar com o Down em um futuro próximo? O último show da banda foi em 2016, no festival Psycho California – na época, após o caso Dimebash, a banda foi retirada de muitos festivais pelo mundo.
Bom, essa é a resposta sobre o Down. E é a mais pura verdade. Quando começamos o Down, por volta de 1992, sabíamos muito bem as regras, assim como sabemos agora: o Down é formado por muitas bandas diferentes. Então nós sabemos que quando essas bandas começam a se sair bem, isso é ótimo e você deve ficar feliz pelos seus irmãos — e eu me sinto bem por eles. Estou muito feliz pelo Pepper e pelos caras do Corrosion of Conformity (nota: a banda lançou em janeiro o primeiro disco com Pepper nos vocais desde 2005). E o Eyehategod está em turnê agora, então o Jimmy...Eles estão ocupados, estão trabalhando. Por isso, muito amor e respeito para eles.

E o Down vai tocar de novo. Alguém me disse que o Pepper falou a mesma coisa em uma entrevista recente e eu concordo. O lance é apenas que agora todo mundo está ocupado, eu, ele e todo o resto da banda. Mas vamos nos juntar novamente. Nós sempre falamos que o Down é o tipo de banda em que podemos envelhecer juntos, já que sempre podemos nos reunir para tocar.

Sei que você é fã de Sarcófago . Por isso, queria saber como conheceu a banda e qual seu disco favorito. Seria o INRI mesmo?
Esse é o meu favorito e realmente o único que eu conheço de verdade… Não, na verdade não é o único que conheço, mas o único que ainda tem um tipo de significado para mim, algumas músicas e a crueza do disco. E devo dizer que conheci o Sarcófago tarde, mas adoro músicas como “Satanic Lust”, ela é ótima. E “Nightmare” e “Deathtrash”! Isso é bom pra caralho. O disco todo me lembra de viver em um pequeno apartamento no Texas, onde eu e meu amigo Louis ouvíamos todos os discos e demo tapes de thrash em que conseguíamos colocar as mãos. Estávamos sempre atrás de qualquer coisa ligada a thrash. A gente realmente gostava.

Sempre faço essa pergunta. Por favor, me diga três discos que mudaram a sua vida e por que eles fizeram isso.
Eu diria o Chilling, Thrilling Sounds of the Haunted House (1964), que foi lançado nos anos 1960, eu acho. Ganhei o disco quando era criança e até hoje é um dos meus favoritos para efeitos sonoros e coisas do tipo. Gosto de álbuns desse estilo. E acho que esse foi provavelmente o meu primeiro disco favorito.

Outro seria o Alive 1 (1975), do Kiss, por causa da sua...Enquanto criança, foi ótimo para a minha imaginação. Porque quando você olha para a capa e a arte do disco e vê o estádio cheio, com as pessoas segurando faixas dizendo "Kiss" e coisas do tipo... Isso me deu um ótimo sentimento sobre como seria estar em um evento desses, realmente experimentar algo assim. E também é um ótimo álbum.

E também diria facilmente o Hell Awaits (1985), do Slayer. Oh! Durante uma época, quando as bandas eram mais e mais pesadas… Opa, eu preciso desligar para fazer outra entrevista agora. Mas o Hell Awaits, do Slayer! Te amo, cara. Preciso ir! Obrigado.