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Polícia Civil do RS faz operação contra anarquistas

Federação Anarquista Gaúcha afirmou se tratar de uma “criminalização de ideias”. Pelo menos 30 pessoas foram alvo de buscas e apreensões.

por Marie Declercq
27 Outubro 2017, 6:13pm

Suspeitos de integrar uma organização anarquista são alvos de investigação na Operação Érebo, liderada pelo delegado da Polícia Civil Paulo César Jardim, conhecido por investigar e deflagrar grupos nazistas. Materiais de leitura, garrafas de plástico e outros objetos considerados subversivos foram apreendidos pelos policiais. O delegado considera o grupo "do mal" e também os acusa de estar por trás de atentados e atos de vandalismo desde 2013. Para a Federação Anarquista Gaúcha (FAG), a ação da Polícia Civil representa uma "criminalização das ideias".

A operação começou na manhã de quarta-feira (25) em Porto Alegre e na Região Metropolitana. Segundo a polícia, estudantes universitários são suspeitos de coordenarem ações criminosas e atentados à concessionárias, carros luxuosos, uma igreja católica e até contra a polícia. O delegado Jardim chegou a apontar a apreensão de uma cartilha chamada "Bem-vindo ao Inferno", título de material de leitura feito na época dos protestos do G-20, como uma evidência de que se trata de 'quadrilheiros do mal'. Até o momento nenhum suspeito foi preso, mas o delegado diz que as provas reunidas são suficientes para uma ordem de prisão.

Sem especificar qual grupo ou os nomes dos estudantes acusados de praticar os atentados, o delegado também disse à imprensa que os suspeitos "tentam causar pânico na cidade" e "repudiam qualquer autoridade e poder constituídos". Uma das poucas informações sobre os acusados é que alguns são alunos do curso de Antropologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Nas apreensões foram recolhidos panfletos reproduzindo ideais anarquistas, além de garrafas de plástico e máscaras de fantasia. Para a polícia, as garrafas de plástico são para produção de coquetéis molotovs, embora nas fotos todas elas apareçam preenchidas com sacos plásticos e pedaços de jornal.

Um dos mandados de busca e apreensão foi cumprido na Cidade Baixa em Porto Alegre na sede da ONG chamada Instituto Parrhesia Erga Omnes. A organização é conhecida por se unir a movimentos de direitos humanos e já foi premiada em 2013 e 2015 pela Associação dos Juízes do Rio Grande do Sul (Ajuris). Após a entrada da polícia na ONG diversos panfletos, livros e materiais de reciclagem foram levados e catalogados como prova. Segundo Lorena Castillo, militante e secretária de relações da Federação Anarquista Gaúcha, o mandado de busca e apreensão relacionava erroneamente a Federação com a Parrhesia. Tanto a FAG quanto a Parrhesia afirmam não serem relacionadas entre si.

Em uma pesquisa rápida, é possível entender que a FAG e a Parrhesia são organizações distintas e que atuam em áreas diferentes, embora tenham semelhanças no quesito de respeito aos direitos humanos. "Nossa organização está dentro de sindicatos, movimentos sociais e nunca precisou se esconder de ninguém. Temos mais de 20 anos de existência", defende Lorena.

Criada em 1995 na capital gaúcha, a FAG possuiu um espaço físico com endereço divulgado para qualquer um que tenha acesso à página do Facebook. Embora tenha sido mencionada no mandado de busca e apreensão na sede da ONG Parrhesia, Lorena conta que nenhum militante da FAG ou o seu espaço chegaram a ser alvo da Polícia Civil e que a federação já foi alvo anteriormente da polícia em anos anteriores.

"Nossa organização está dentro de sindicatos, movimentos sociais e nunca precisou se esconder de ninguém. Temos mais de 20 anos de existência" — Lorena Castillo

A secretaria também afirma desconhecer qualquer relação da Federação com os atentados mencionados pela polícia e critica o desconhecimento do delegado Jardim sobre os anarquistas e as diferenças entre cada organização. "A gente quer que o Jardim volte a trabalhar investigando os grupos nazistas e neonazistas. Para nós, parece que ele não sabe do que se trata. Além disso, os meios de comunicação fazem essa confusão propositalmente. Chamaram a gente de nazista no [programa] Balanço Geral e no SBT, o que é uma ignorância total e de um mau-caratismo enorme."

A intenção da operação, segundo Castillo, é criminalizar a existência por si só de grupos anarquistas. "Essa operação está sendo feita para construir um grande espantalho com a justificativa para tentar criminalizar ideias", diz. "Ela é também bem midiática, o que para nós é extremamente perigoso porque é um precedente grave não só para os anarquistas, mas para qualquer movimento social da esquerda, ainda mais no contexto social-político que estamos vivendo hoje."

Em repúdio à operação da Polícia Civil, a Federação Anarquista Gaúcha organizou um ato públicomarcado para sábado (28) a partir das 18:00hs em Porto Alegre.

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