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O MGMT ainda é perfeitamente estranho

Andrew VanWyngarden e Ben Goldwasser falam sobre o quarto disco da banda, 'Little Dark Age', um álbum pop para curtições em tempos temerosos.

por Larry Fitzmaurice; Traduzido por Sarah Oliveira
26 Fevereiro 2018, 2:54pm

Foto: Brad Elterman/Divulgação

Entrevista originalmente publicada no Noisey US.

A essa altura, a coisa mais esquisita que o MGMT poderia fazer é lançar um disco pop relativamente simples — e eis que esse é o destaque do quarto (e, possivelmente, o melhor) LP da banda, Little Dark Age. Com as músicas mais potentes que eles gravaram desde seu mega-álbum de estreia, Oracular Spetacular, Little Dark Age traz os magos cósmicos Andrew VanWyngarden e Ben Goldwasser mergulhando a ponta dos pés em todos os tipos de águas sintetizadas com partes iguais de alegria e doidera paranóica.

Para os nerds de música que têm seguido a fascinante carreira da banda nos últimos 11 anos, ainda há resquícios dos pontos de referência impecáveis que consolidaram o MGMT como o grupo de grande gravadora mais estranho que existe: a nervosa faixa de abertura "She Works Out Too Much" é um reconhecimento aos estetas lendários do pop japonês Yellow Magic Orchestra, enquanto "Days That Got Away" e "When You Die" carregam os inconfundíveis respingos de pastel de Ariel Pink (que, não por coincidência, é creditado como compositor na segunda canção, assim como em várias outras músicas de Little Dark Age).

Mas para os jovens que foram apresentados ao MGMT por meio dos docinhos coloridos futuristas e aflitos de Oracular e se perderam nos discos que se seguiram (o maravilhosamente confuso Congratulations, de 2010, e o descaracterizado disco homônimo de 2013), há muitas faixas para curtir — dos turbilhões de um baile de formatura adolescente de "Me and Michael" aos sons obscuros de discoteca da faixa que leva o nome do álbum e ao brilho do soft-rock de "Hand It Over", que encerra o disco. Isso não é uma coisa ruim, mas ouvir o MGMT ao longo dos anos às vezes é como escutar um vinil pulando e se perguntar se aquilo é proposital. Em Little Dark Age, não existe confusão se a agulha está fixa nos sulcos do LP: a banda com certeza está melhor do que nunca.

O paradoxo é que a estranha e rica coesão de Little Dark Age ocorreu devido a uma divisão: enquanto VanWyngarden trabalhava na finalização da construção de sua casa em uma região de praia do Queens (em Nova York) chamada Rockaways, Goldwasser mudou-se para Los Angeles em busca de uma mudança de cenário. "Todo mundo deve ter achado que eu tinha pirado quando eu me mudei para LA e não conseguiam entender por que isso aconteceu", ele explica enquanto estamos encolhidos em uma cabine do bar Brooklyn Public House, em Park Slope. "Parecia uma decisão espontânea, talvez. Ninguém do nosso grupo de amigos tinha saído do Brooklyn, e eu estava começando a enlouquecer por morar em Nova York. Talvez eu tenha enlouquecido."

"Eu não acho que você tenha enlouquecido", diz VanWyngarden em tom tranquilizador, como só um amigo de muito tempo faria. "Mas fiquei preocupado se isso dificultaria a criação das músicas."

Ainda assim, apesar da divisão costeira, VanWyngarden e Goldwasser se encontraram de novo em meados de 2016 e começaram a tocar juntos. Como registrei em 2013 em uma matéria para a Pitchfork, detalhando a criação do terceiro LP autointitulado da banda naquele ano, as jam sessions são um elemento essencial para o processo de composição do MGMT. Mas as sessões para Little Dark Age foram muito menos carregadas de frustração do que as anteriores. "Musicalmente, tinha muita coisa rolando o tempo todo. Era um pouco excessivo", diz VanWyngarden a respeito do que eles aprenderam nas sessões de gravação de Little Dark Age. "A gente queria ter mais espaço para simplificar as coisas."

Surpreendentemente, a distância geográfica ajudou. "Nós trabalhamos como fazíamos na faculdade", VanWyngarden prossegue. "Um dos dois tinha o início de uma música e a gente adicionava elementos a ela. O lance do MGMT era encontrar momentos em jam sessions longas. A gente dizia: 'Agora vamos escrever uma música pop normal', mas certas partes de nós não nos deixavam fazer isso. Seja lá por qual razão, estávamos mais nesse clima dessa vez."

Leia o nosso papo sobre a criação do novo disco, a canção-tema de "Davi, o Gnomo" e o que VanWyngarden aprendeu enquanto julgava competições de Batalha de Bandas entre escolas de ensino médio.

Noisey: Vocês já fizeram vários clipes engraçados, e o clipe de "Little Dark Age" também é divertido, mas o humor é um pouco mais sutil.
Andrew VanWyngarden: Sutil o bastante para algumas pessoas acharem que agora somos uma banda gótica. Sempre curtimos o estilo gótico exagerado dos anos 1980. Os vídeos dessa época são meio ridículos de várias formas, e queríamos fazer referência a isso, ao Flock of Seagulls, esse tipo de mundo. É uma questão de hiperestilização, e das pessoas forçarem a barra para obter esse estilo em particular. Acho que muita gente desdenha disso na música atual — tudo tem que ser autêntico, direto. Eu não estou me escondendo atrás de nada, sabe? É divertido fazer referência a essa época.

Que papel o humor tem na música de vocês? É difícil fazer músicas "engraçadas" que não soem forçadas.
VanWyngarden: É, você não quer ser desagradável nem parecer uma banda de mentira, como o Flight of the Conchords. Ariel Pink ajudou a escrever os versos de "When You Die", ele escreveu a letra em menos de dez minutos, e quando a música dele funciona de verdade, pode ser ridículo e superengraçado para músicos e para quem entende as referências. Ele faz isso bem, é um bom critério.

Além do Ariel, vocês também trabalharam com uma variedade de músicos peculiares, como Jennifer Herrema, do Royal Trux, Sonic Boom e Connan Mockasin. O que atrai esse tipo de músicos a colaborar com vocês?
Ben Goldwasser: Eles vêm de um lado mais barulhento, mais experimental, mas todos gostam muito de música pop, o que talvez não apareça muito no trabalho deles, mas é divertido se juntar e brincar com essas coisas de que nós gostamos de verdade na música pop.

VanWyngarden: A abordagem deles ao escrever músicas é querer que elas alcancem o máximo de popularidade possível, e não é isso que as pessoas pensam quando as escutam. Talvez Ben e eu tenhamos uma tendência para esse lado porque temos nossa própria ideia caótica do que é a música pop.

"Me and Michael" se destaca, para mim, como uma música completamente ao estilo John Hughes. É muito direta, não se parece com o que ouvi vocês fazerem em algum tempo.
VanWyngarden: Ela é bem sincera. Nós a escrevemos muito rapidamente no estúdio, nos sintetizadores. Eu cantava "Me and my girl" o tempo todo no carro enquanto dirigia por Los Angeles, e achei que não era algo muito empolgante de cantar — tinha que ser "Me and Michael". É para ser uma coisa confusa e ambígua. Você acompanha a música, mas não faz ideia do que eles estão dizendo.

É como a vibe como a da música italiana dos anos 1980 — cantar alguma coisa com muita sinceridade, mas sem saber do que se trata (risos). Com essa canção, estávamos em busca desse sentimento honesto, mas que não precisa ser sobre uma coisa concreta. Claro que a gente também se diverte com a ideia de confundir as expectativas do público. Ela também foi influenciada pela música-tema de Davi, o Gnomo. Conhece esse desenho?

Eu assistia muito quando era criança.
VanWyngarden: É muito emocionante, eu adoro.

Como duas pessoas nascidas na metade dos anos 1980, qual é o entendimento de vocês a respeito dos símbolos culturais da década?
Goldwasser: Acho que nenhum de nós dois curtia músicas pop bacanas dos anos 1980 até recentemente. Originalmente, nós criamos um vínculo por causa de músicas bregas dessa época, e fizemos muitos covers como banda. As músicas "legais" que a gente ouvia eram Spaceman 3 e Royal Trux. Mas nos últimos anos, começamos a curtir The Wake e synth pop mais excêntrico, o que recentemente passou a nos influenciar mais, com certeza.

VanWyngarden: É estranho ter nascido nos anos 1980 mas não ter lembranças distintas da época, e ao mesmo tempo ter uma propensão para sentir nostalgia desse período. Definitivamente, faz parte de nós — Talking Heads, OMD. "Me and Michael" tem muito do OMD. É uma década muito interessante.

Goldwasser: Acho que os anos 80 agora são a minha década favorita musicalmente. Existia muita variedade, tipo, é como se só pudesse existir um animal como o pavão porque os predadores naturais dele não estavam nem aí, apenas diziam: "Ah, vai se ferrar, pavão!". O pessoal fazia acontecer.

Muitos artistas da geração de vocês têm abordado os anos 1980 por meio da nostalgia, mas, para mim, a música do MGMT costuma ser resistente a essa nostalgia.
VanWyngarden: Em termos de música, você está certo. Não acho que a gente busque um universo musical que seja de outra época. Somos descritos como nostálgicos às vezes, porém é mais por conta do que a nossa música desperta. Nossa canção mais popular se chama "Kids" e a letra fala sobre infância, provavelmente esse é um grande motivo para nos chamarem de nostálgicos. Não é como se a gente fizesse músicas que soam iguais às do Depeche Mode.

Vocês trabalharam com o produtor Dave Fridmann (Flaming Lips, Mercury Rev) nos últimos álbuns, mas agora levaram para o estúdio o Patrick Wimberly, ex-integrante do Chairlift, para ajudar na produção também.
Goldwasser: O Dave mixou todos os nossos discos, e no último álbum ele estava mais envolvido como produtor porque trabalhamos no estúdio dele. O Patrick era mais um produtor tradicional.

VanWyngarden: Ele estava lá enquanto a gente fazia jams e escrevia, nos estimulando a desenvolver as coisas, o que nos ajudou muito. Se estamos só nós dois no estúdio, não chegamos a lugar nenhum em boa parte do tempo.

Goldwasser: Normalmente, a gente gosta de botar a mão na massa, mas estamos melhorando nessa questão de abrir mão do controle. Mas ainda somos controladores. Acho que é saudável deixar outra pessoa afetar alguma coisa para que você possa se afastar e pensar: "Isso tá legal?". Se você tenta fazer tudo sozinho, é fácil se enganar e acreditar que está criando uma coisa legal, quando na verdade está uma porcaria.

Esse disco foi mais fácil ou mais difícil de fazer do que o último?
VanWyngarden: No geral, mais fácil. Eu sempre leio outros artistas dizendo: "A gente teve de escolher entre 50 músicas" e sempre fico meio com inveja. Como é que você tinha 50 músicas? Dessa vez nós tínhamos uns 30 lances que podiam se tornar músicas, o que foi muito legal. Não foi tão estressante. No último disco parecia que estávamos lutando para chegar a algum lugar. Já essas músicas surgiram com facilidade, o que é uma boa sensação.

Da última vez em que conversamos, vocês mencionaram que achavam fascinante o fato de o Flaming Lips poder fazer o que bem entendesse em uma gravadora grande. Mas é basicamente o que acontece com vocês, também.
Goldwasser: Agora é muito difícil fazer músicas estranhas estando em uma gravadora grande. Temos muita sorte na relação com a nossa gravadora. Surgiram uns boatos de que eles tentaram colocar rédeas em nós, mas nunca ninguém disse que não podíamos lançar uma música por ser esquisita demais. Eles podem dizer que estamos metendo os pés pelas mãos, mas nunca falam que não podemos fazer isso, o que é ótimo.

VanWyngarden: Sempre fizemos o que tínhamos vontade, e acho que isso aparece na música. Não somos calculados para fazer mais sucesso ou ganhar mais dinheiro. Dessa vez, criamos músicas mais simples, mas não foi porque pensamos: "Vamos compor uma música pop bem fácil para tocar no rádio".

Apesar da música de vocês poder ser classificada como rock, o MGMT não é exatamente uma banda de rock. Em uma época de música popular em que a noção de gênero deixou de existir, os trabalhos anteriores de vocês parecem antecipar esse fato.
Goldwasser: É legal ver bandas mais novas, como Lemon Twigs, que existem fora de um gênero. Dá para ver que eles são obcecados pelo Todd Rundgren. Eles não parecem muito ligados em questões editoriais, só estão fazendo o que gostam. Tem muita coisa desse tipo surgindo agora.

VanWyngarden: Desde o nosso último disco, eu fui jurado de duas competições de Batalha de Bandas de escolas do ensino médio em Nova York. Das duas vezes, os garotos estavam vestidos como se fossem do Veruca Salt e tocavam um rock bem tranquilo. Apesar de muitas bandas da nossa geração incorporarem hip-hop mainstream, R&B e música eletrônica, eu não acho que o rock esteja morto. Existe toda uma geração que gosta de rock, eles só não têm idade para deixar isso aparecer.

Goldwasser: Ironicamente, o que mata o rock são pessoas que fazem interpretação de gêneros excessivamente analisadas. É a mesma coisa que matou o jazz. O estilo de música que você toca não importa muito, e é importante manter isso vivo.

Muitas letras desse disco parecem pessimistas em relação ao futuro.
Goldwasser: Tem muita gente no noticiário dizendo: "Objetivamente, o mundo está acabando de verdade agora". Não é como se fosse acabar daqui a dez anos, ele está acabando e não há nada que se possa fazer. É um momento bem difícil de se viver, mas o que você faz? Desiste? Ou tenta despertar o melhor da humanidade pelo tempo que ainda nos resta? De certo modo, é bonito ver que as pessoas estão se fazendo mais presentes.

VanWyngarden: No nosso último disco, refletimos muito sobre a morte e tínhamos essa sensação de cinismo às vezes, mas também havia aceitação. Este fala mais de celebrar o quanto as coisas estão zoadas e de não ter controle sobre nada, em vez de se lamentar por isso.

Vocês diriam que são felizes?
VanWyngarden: Sei lá.

Goldwasser: Eu finalmente tenho um cachorro. Por um bom empo, isso era uma coisa que me frustrava.

VanWyngarden: Não posso falar de felicidade, mas conforme fui ficando mais velho, venho conseguindo administrar melhor o estresse e a ansiedade no dia a dia – o que ainda não é tão bom assim. Eu acho que sou feliz. Você devia perguntar para a minha mãe, ela sempre pergunta: "Você está bem?".

Larry Fitzmaurice está no Twitter.

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