Relembrando o Hipster

Aqui jaz o hipster

2015 foi o ano que os comentários do YouTube ganharam partido político, a internet se devorou e também se eliminou qualquer menção séria do hipster dos anos 2000.

John Saward

John Saward

Fotos porJamie Lee Curtis Taete .

Desde que o mundo alcançou o Auge Hipster, já passou tempo suficiente para podermos olhar para trás e enxergá-lo como um movimento, uma febre ou um meme, ou que porra tenha sido, e tentar fazer um balanço para entender o que significou, se é que é possível. Então é exatamente isso que vamos fazer com uma pequena coletânea de matérias.

"Por muito tempo, gabei-me de ser mestre de todas as paisagens possíveis, e julguei risíveis as celebridades da pintura e da poesia moderna."

-Uma Temporada no Inferno, Arthur Rimbaud, 1873 (tradução livre)

Mary Wilke: [lendo em voz alta as memórias da mulher de Issac] "Ele era dado a surtos de fúria, paranoia liberal judia, machismo, misantropia hipócrita e uma disposição niilista para o desespero. Tinha reclamações sobre a vida, mas nunca soluções. Almejava ser artista, mas se recusava a fazer os sacrifícios necessários. Em seus momentos mais íntimos, falava sobre o medo da morte, que elevava a níveis trágicos, quando na verdade era apenas narcisismo."

-Manhattan, dir. Woody Allen, 1979

SÓ QUERO TOMAR CAFÉ E CRIAR E DORMIR

Roupa de marca, várias, 2013

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Lembraremos de 2015 como o ano em que os comentários do YouTube ganharam partido político. O ano em que o Drake fez com que, em cada momento da sua vida, você parecesse meio bêbado em uma festa de casamento. Foi o ano em que o Hipster Runoff morreu de vez, o ano em que a internet se devorou, e com isso levou qualquer menção séria do Hipster do início dos anos 2000, pelo menos da variedade Look At This Fucking.

Este pacote de artigos serve como uma lápide para o hipster, mas louvá-lo aqui parece ao mesmo tempo prematuro e tardio. Foi uma estética, um perfil demográfico, uma noção que parece ter existido para sempre, mas sem nunca se realizar completamente, uma caricatura desde sua origem, diluída, imprecisa, cafona, mas ainda assim um certo atalho de uma eficiência invejável. O hipster, se foi alguma coisa, seria o acolher de braços abertos de emoções, ideologias e fascinações que poderiam levar os republicanos a te chamar de fresco.

Manejar esses fragmentos obscuros de movimentos musicais, filosóficos ou sociais era bradar que você era um pioneiro, arquivista ou preservacionista. Era tudo bobagem, mas os americanos quase sempre foram dados à sugestão mesmo. Fazer uma pose. Bater no peito. Quem eles se convencem que são no espelho, quem percebem que são na volta para casa, mantendo essas duas coisas separadas pelo maior tempo possível. Mas não somos mais vulneráveis a nada disso, na verdade. Não há mais falsos pioneiros, porque não há mais falsas fronteiras. Todo mundo pode estar em todo lugar sempre. A internet descontextualizou tudo. Você não veio de lugar nenhum porque todos vivemos no mesmo lugar. Todos gostamos de cinema, de trepar, de perder tempo. Então assinamos Netflix e relaxamos. Não importa o que você está assistindo ou quem está tentando comer; essas são as nossas compulsões, domesticadas e genéricas como são; a exclusividade já era. "Estou aqui para me divertir, não para ficar", disse o sábio. A estética é apenas um facilitador, o canal, o meio para efetivar a mesma sede que todos temos, no Cracker Barrel, no Roberta's ou no Hot Pocket de micro-ondas – onde for, não importa.

2015 foi o ano em que a internet apontou o dedo para o Fat Jew pelo roubo de memes e depois... nada disso fez muita diferença. Lá está ele ainda, cantando versões de karaokê de todas as músicas de Autodepreciação na Internet: Shut Up and Play The Hits. Foi o ano em que todos viramos uma versão colaborativa e refletida de nós mesmos. Foi o ano em que demos à luz ao dab e o transformamos em uma carcaça em questão de três dias. Transformamos memes em moletom. Não há elite cultural porque não há escassez. Na internet, todo mundo pode ser bilionário. Como me sinto quando, emojis, memes que tocam seus impulsos mais "nossa, eu também!", a universalidade de todas as coisas. O ano em que a internet se tornou fluente naquele amplo observacionalismo seinfeldiano de "já reparou?". Somos as mesmas pessoas, sempre, nossa necessidade de comunidade e rebelião e realização pessoal isolada simultaneamente.

A paródia comercializada pela Urban Outfitters e os memes da Ariel Hipster sempre pareceram inadequados. O hipster, em vez disso, era uma coisa definida pelo manuseio cuidadoso de dicotomias. Era um meio de ousadia para um povo que por outro lado parecia tão inerentemente frágil, redefinindo e avaliando sem fim, refletindo sobre quem se quer ser. O que parecia incomodar a população não era a arte em si, mas o consumo dela, a necessidade de classificar e dissecar, de validar o próprio investimento.

O hipster um dia já pareceu ser uma postura combativa. Uma resposta hiperintelectualizada aos desastrados e retrógrados anos da gestão Bush. Agora, não significa nada, a não ser, talvez, "intelectual semiafetado de bicicleta e sem crédito para pegar empréstimo". Você consegue imaginar alguém além dos seus pais ou do Marco Rubio reclamando de uma Kardashian? Será que o estereótipo do insensível resistira à Carly Rae? Gente branca e rica ainda tem uma coisa ou outra a dizer sobre como você deveria levar a sua vida, mas às vezes o mundo é um saco e só Justin Bieber consegue te ressuscitar, e ninguém tem como questionar isso.

O hipster como movimento sempre pareceu estar no estágio adolescente. Eles agiam como se estivessem em algum lugar entre o jeitoso, a afetação pomposa e a melodia de um mistério taciturno. A necessidade de ser todas as coisas o tempo todo. A sensibilidade apática de Michael Cera, a hipocrondria de Woody Allen e o renegado desatento de Stanley Kowalski. Respeitados como filósofos e temidos como homens que só confiam no impulso. Primitivamente minimalistas, mas ainda assim delicados. É possível descrever essas pessoas como hipsters, mas elas quase não têm características em comum, sejam físicas ou espirituais, além de uma certa autossatisfação, uma adesão à rubrica de doutrinas estéticas.

Em um artigo para o New York Timessobre Basquiat em 1985, Cathleen McGuigan afirmou: "[Basquiat] mantém um fino equilíbrio entre forças aparentemente contraditórias: controle e espontaneidade, ameaça e sagacidade, imaginário urbano e primitivismo."

Vá pedir para o Hipster-Ipsum gerar quatro parágrafos de lero-lero hipster para você. O que define os hipsters, na verdade, é um monte dessas mesmas contradições. "Pabst" e "cerveja artesanal", "vegano" e "copa lombo", "legging" e "flanela". O hipster era um Stuff White People Like marginalmente mais irreverente. Era "básico" com mais bom gosto musical e tendências sexuais talvez mais liberais. Era estar ao mesmo tempo imerso em alguma coisa e descolado dela, dedicado e apático, algo que acho que chamaremos de hipérbole qualificada – "esse guacamole meio que é a melhor coisa do mundo"; "meio que acho Thoreau uma merda". Foi vendido como uma coisa no cruzamento entre friendzone e fuccboi; era ao mesmo tempo o cara que nunca liga e o cara para quem você liga para falar sobre o cara que não ligou.

Uma propensão a agir com uma sinceridade compulsiva e ao mesmo tempo uma emoção contida, explicitamente masculino e descaradamente feminino. Tumblrs pós-emo sobre Final Fantasy e ficar triste em Minnesota, mas também os tipos mano-mano que acham que são Hemingway na capa, homens niilistas, hedonistas, brancos e negros e orgulhosos das coxas peludas.

O hipster, visto que exista hoje, é a habilidade de apoiar não apenas Bernie Sanders, mas, pelo bem da audácia, também o Donald Trump. Pessoas que conseguem se aliar tanto a um idealismo altivo quanto a um narcisismo impenitente. Destruir o país, torná-lo glorioso novamente, transformá-lo em utopia socialista – não importa, porque não há mais aposta, na verdade. O hipster é um homem rico que desafia você a contestá-lo, em todas as suas infinitas fantasias, pois um homem branco e rico se sente inerentemente incontestável em seu cerne. É tudo uma diversão.

O que tornou a cultura hipster tão persistente não foram os gorros de crochê nem os óculos e as cervejas artesanais, mas como ele funcionou como uma certa permissão, uma licença para dar uma guinada para uma recreação negligente e Movimentos Importantes na mesma medida. O hipster foi exatamente o que chamamos de jogos que gente branca joga com suas diversas regalias.

O #occupywallstreet de um é o #chuvadechampanhe de outro.

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