Dez anos depois, o JazznosFundos virou um santuário da música instrumental paulistana

Um bate-papo com Máximo Levy, fundador do projeto que começou com pequenas jams nos fundos de um estacionamento em Pinheiros, e transformou-se num amplo circuito de entretenimento e até aprendizado para os amantes do jazz.

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04 Novembro 2016, 2:55pm

Foto: Felipe Larozza.

O JazznosFundos pode ser entendido como o projeto que deu nova vida ao jazz e à música instrumental ao longo da última década em São Paulo. A lição vale para qualquer estilo: se você quer sacar o que há de mais autêntico rolando em qualquer cenário musical, evite os roteiros clichês e busque nas ramificações que te levarão aos seus núcleos criativos. Por isso nem me espantei, dez anos atrás, quando soube de uma tal  "melhor festa de jazz da cidade", que estava acontecendo nos fundos de um estacionamento em Pinheiros, à rua João Moura. Um espaço diminuto e sem garbo, com ares de sociedade secreta: só podia ser verdade. E era. Não à toa, pouco tempo depois, o pico já vivia abarrotado.

Sem concorrência direta, o público da festa cresceu, a lista de artistas parceiros também, e, em 2013, surgiu a versão mais formal do JazznosFundos, o JazzB, próximo ao Metrô República (no antigo Bar B, que nos anos 2000 era um dos principais palcos da cena indie da cidade). Mas a proposta que dera início a tudo, porém, também necessitava evoluir. Daí que, recentemente, o argentino Máximo Levy, idealizador da parada toda, e sua equipe, abriram o Centro Cultural de Música Instrumental. O JazznosFundos segue atendendo pelo mesmo nome e no mesmo terreno, só que agora ocupa o subsolo de um sobrado com três pisos, e nova entrada pelo número 742 da Cardeal Arcoverde. O lugar ainda está sendo ampliado, mas já funciona normalmente.

No térreo, fica a Sala do Autor, que acolhe shows com voz e ritmos que transcendem o jazz instrumental. Além desses dois ambientes, na laje em breve funcionará um restaurante e bar onde não haverá apresentações musicais, apenas happy hour. Nesse novo esquema, o cliente paga a entrada, o que for consumir, e, no caso dos shows, só aqueles a que quiser assistir em cada sala. Fora isso, justificando a nomenclatura de "centro cultural", a casa continuará com sua dedicação de promover os desdobramentos do jazz, não só arquivando o registro em streaming de tudo o se toca por lá, mas também realizando workshops, palestras e cursos de curta duração sobre a música e sua história.

A celebração de aniversário do JazznosFundos começa na próxima terça (8) com som do Ricardo Herz Trio na Sala do Autor, e encerra-se no sábado, dia 12, com os Jazz Brothers — os irmãos Cuca e Wilson Teixeira — para uma noite de clássicos do jazz na Sala do Autor, e, na sequência, uma jam na sala JazznosFundos. A programação conta ainda com Coisa Fina & KL Jay, Marcelo Coelho & MC Lav.in, Arrigo Barnabé com Claras e Crocodilos, Cuban All Stars, e tributo a Fela Kuti por Èkó Afrobeat. Clique aqui para ver os detalhes e garantir seu ingresso.

Na próxima semana, publicaremos mais informações sobre os destaques da agenda. Por ora, a fim de contar um pouco acerca da gênese de tudo isso e comentar o que vem pela frente, o Max, jornalista e artista plástico convertido em empresário da noite, recebeu o Noisey num fim de tarde no próprio Centro Cultural de Música Instrumental. Eis o papo que o encontro rendeu:

Noisey: Qual é a sua história com o jazz?
Máximo Levy: A minha história com o jazz é uma coisa de família. Em casa, meu pai, que era jornalista, escutava notícia, enquanto a minha mãe escutava música. Quando meu pai morreu eu era bastante novo, então passei a escutar música. A minha paixão pelo Brasil também vem de quando eu era muito pequeno, tocava música brasileira em casa, jazz. Eu tive uma educação musical muito boa.


Foto: Felipe Larozza.

Então você não é instrumentista, nem engenheiro de som...
Eu sou um apreciador. Antes de abrir o JazznosFundos eu era jornalista, trabalhava como repórter internacional, morei em diferentes países, e, depois de um tempo, fazendo isso por cinco anos, cansei. Vim morar aqui na frente do estacionamento, era meu ateliê, minha casa. Entre uma viagem e outra encontrei o lugar, reformei aquele espaço, e ficou sendo meu ateliê. Eu vinha ao Brasil cinco vezes por ano, e ficava fechado lá dentro, trabalhando nas minhas obras. Era muito barato o aluguel e valia a pena. Aí um dia eu cansei, durante uma pauta no Oriente Médio, e resolvi fazer eventos com os quais eu pudesse pagar as contas. Quando voltei, tive a ideia de fazer uma festa de jazz. Eu tinha visto na minha cidade, em Barcelona [Max é argentino, mas viveu boa parte da vida na Espanha], um evento que estava rolando às quintas num porão, aí pensei: "Acho que o meu espaço comporta perfeitamente algo parecido com isso."

Não te pareceu furada investir numa festa de jazz ao invés de algo mais pop?
Eu dividia o espaço com outros cinco artistas plásticos, paguei a parte deles e pedi o espaço de volta pra fazer uma festa. O pessoal achou estranho, disse que não ia pegar, que no Brasil jazz era coisa pra coroa bebedor de uísque, e num sei o quê... Mas sempre acreditei que o jazz pode ser para todo mundo, na verdade. Então começamos uma festa, no fundo do estacionamento, super alternativa. Abria às 19h, o show acabava umas 22h30, 23h, por causa da Lei do PSIU, já que nós não tínhamos acústica. E conseguimos fidelizar um público. No início funcionava esporadicamente, depois virou quinzenal, e com os anos foi passando para uma vez por semana, depois duas, e foi crescendo de maneira orgânica, uma coisa bem tranquila. Sinceramente, eu só queria fazer uns eventos, ser empresário/dono de casas não estava nos meus planos iniciais. A ideia era mais curtir uma coisa que eu gostava.

Que fatores mais colaboraram para criar uma aura de prestígio em torno do JazznosFundos?
Acho que funcionou pela proposta inusitada, de estarmos num estacionamento, de refletir o amor à música, a decoração feita de arte com materiais reciclados. Esta arte, por exemplo [apontando para as paredes], é o espectro de "A Love Supreme" [clássico do John Coltrane, de 1964]. É uma instalação que eu fiz durante a obra aqui, reproduzido na madeira a partir de 20 metros de plotagem. São madeiras recicladas, cortadas aqui e colocadas uma por uma dentro do espaço da música. Então é o desenho da música mesmo, e ao mesmo tempo serve de acústica pra casa. Tudo isso atrai um público que se identifica. Hoje a proposta traz uma experiência que conta com música, gastronomia... Quando abriu, o diferencial eram as cervejas especiais, que ainda não eram tão comuns de se encontrar nas festas. E assim foi surgindo um conceito.

Acho legal que vocês não param na programação de shows, mas sempre tiveram uma preocupação em formar ou contemplar os apreciadores do jazz, com o lance das transmissões em streaming pelo site e o registro dos áudios.
Nas festas, nós começamos a gravar todos os áudios. Hoje em dia, existe um acervo com quase três mil shows. E também tenho os e-mails de todo mundo que já passou por aqui e deixou o contato. São 120 mil e-mails. No endereço antigo, chegou a passar perto de 150 mil pessoas diferentes. Isso, pra música instrumental, foi muito bom.

Foto: Felipe Larozza.

Você pensa em hospedar esse conteúdo todo em alguma plataforma?
Nossa bandeira é divulgar a música instrumental. Fizemos uma parceria com o Spotify, e estamos vendo outras mídias, para divulgar todo o streaming que temos no acervo. É um trabalho gigante de masterização e tudo mais... Temos uma década de registro da cena do jazz em São Paulo, que durante esse período passou pela programação do JazznosFundos. Isso é um capítulo da história da cena local.

Com a abertura do Centro Cultural de Música Instrumental, o JazznosFundos passa a receber atrações de outras vertentes que não exclusivamente o jazz?
Na parte de baixo não teremos canto, só instrumental. Aqui em cima, já teremos canto, coisas mais alternativas, world music. Igual no JazzB. Lá, às quartas, rola world music. Mas sempre com uma base instrumental. Sábado, que é um dia mais cheio, programamos coisas como afrobeat. Às terças, que tem menos gente, botamos algo mais tranquilo, pra prestar atenção.

Quem foi o primeiro artista a se apresentar no JazznosFundos?
A primeira banda que tocou era uma de um baixista que conheci na época. Ele morava duas casas mais pra cima, o baterista dividia o espaço com ele, e o saxofonista vivia numa pensão um pouco mais pra cima. Chamava Bujão de Jazz. Eles começaram a convidar os amigos... no primeiro show tinha 20 músicos, rolou uma super jam e tal. Os primeiros quatro, cinco shows, foram deles. Aí começou a ter um bafafá, entrou uma parceira, que por muito tempo foi minha sócia, que trabalhava no Teta Bar de garçonete. Ela já conhecia todos os músicos da cena, nós começamos a conversar e tal. Ela foi fazendo esse relacionamento com os músicos. Conforme nomes respeitados iam se apresentando, os outros sentiam firmeza e topavam também. O lugar era um mocó [risos], normal que os músicos ficassem ressabiados. Não tinha acústica, não tinha bar, era tudo improvisado. Era um evento inusitado, bem artístico. Era mais um happening com jazz do que realmente um clube de jazz.

Então os músicos e amigos dos músicos que pegaram bem com a vibe do lugar é que fizeram a divulga do pico?
Foi tudo no boca a boca. Nunca fizemos publicidade. Com o JazzB, já estamos expostos na rua, e não escondidos, então foi preciso uma divulgação diferente. Mas até então era boca a boca. É a melhor divulgação, sem dúvida.

Foto: Felipe Larozza.

Quando se é dono de um lugar assim, a hospitalidade faz uma grande diferença na fidelização o público, não é?
Eu fui escutando o público e fazendo o que as pessoas pediam, só isso. Comecei a comprar Guinness só pra atender aos pedidos de alguns. Ia no supermercado e comprava só pra eles. Aí os caras falavam, "Que legal, você fez parceria com a Guinness!". E não tinha parceria nenhuma, eu comprava só pra essa galera mesmo. Depois de um tempo, já tinha que comprar umas 24, porque o pessoal estava gostando muito.

Quanto tempo levou pra você sentir que o negócio tinha virado?
Eu diria que demoramos quase dois anos pra conseguir ter uma programação regular séria. Só que, no começo, alguns músicos fodas não queriam tocar naquela barulheira, eles achavam que era muita bagunça.

Dá um exemplo de alguém que nunca quis tocar no JazznosFundos.
Um exemplo? O Nelson Ayres, que hoje é fixo do JazzB. Ele toca todo mês, se não com a Big Band, como trio ou outro formato... é o nosso melhor divulgador, ele adora tocar lá. Mas ele nunca quis vir tocar no Jazz Nos Fundos. Ele fala: "Max, ducaralho o que você faz, mas não é a minha proposta. Não sou músico de casa de jazz, sou músico desta casa [o JazzB]." Os músicos têm essas preferências, eles têm que vir porque gostam do projeto. Ele aceitou o B porque ele adora lá, mas aqui eu não consegui convencê-lo de tocar.

Foto: Felipe Larozza.

Tem rolado uma agitação instigante de jazz em São Paulo?
Não tem roteiro de jazz em São Paulo. Existe uma cena, sim, porque há muitos músicos, bandas e lugares underground, mas um trabalho como o nosso, para um público diverso de idade e posição econômica, não tem. O que tem são casas de shows que hoje fazem, sei lá, seis eventos de jazz num mês, visando mais o entretenimento mesmo, como o Bourbon Street, ou tipo o All of Jazz, que tem foco na música, mas atrai um público mais velho, não muito descolado. Programação instrumental, aos fins de semana, quantos apostam nisso?

Quantos shows de música instrumental vocês estão realizando no mês?
A gente faz hoje em dia 170 shows por mês. Chutando, acho que dá mais ou menos a mesma quantidade que todo o grupo Sesc. Nós amamos a cena do jazz. Hoje em dia somos a nossa própria concorrência. O JazzB versus JazznosFundos. O nosso trabalho de curadoria é o principal investimento, representa o melhor do jazz contemporâneo na cidade. Se você recebe a nossa programação semanal por e-mail, você tem 15 opções diferentes de shows, todos de alta qualidade instrumental.

Qual é o dia mais crowdeado aqui no CCMI?
Sexta, por exemplo, temos a noite latina, que fizemos por experiência e que mantemos porque é uma das que mais enchem. Muitos tentam copiar essa noite, mas poucas festas do tipo duram tanto tempo como esta, que já tem oito anos.

SERVIÇO:

10 anos de JazznosFundos

A semana de aniversário do JazznosFundos inaugura com o grupo de música instrumental brasileira Ricardo Herz Trio. Nesta noite, em clima de festa celebração, o trio do violinista, formado ainda por Michi Ruzitschka (violão sete cordas) e Pedro Ito (percussão e bateria), trará todo o suingue de sua música, antecipando temas do mais novo disco, Torcendo a Terra, que será lançado em janeiro. Ano passado, o grupo fez uma temporada de 18 shows pela França e outra de dez shows pelo Brasil.

Rua Cardeal Arcoverde, 742 - Pinheiros, São Paulo - SP
Abertura da casa: 20h
Fechamento: até o último cliente
Entrada: R$ 25
11 3088.0645 | 11 94311.2766