Entretenimento

As páginas “feministas”, “esquerdistas” e “comunistas” de apoio a Bolsonaro não convencem

Uma série de endereços de Facebook com apoios inusitados a Jair Bolsonaro leva a crer que ação é coordenada para aumentar alcance do candidato na rede social.

por João Paulo Vicente
21 Dezembro 2017, 9:30am

Imagem que fica no topo da improvável página "Sou Feminista e Apoio o Bolsonaro". Crédito: Reprodução/ Facebook

“Sou Feminista e apoio Bolsonaro’”. “Sou Homossexual e apoio o Bolsonaro”. “Sou De Esquerda e Apoio o Bolsonaro”. “Sou comunista e apoio o Bolsonaro”. “Sou maconheiro e apoio o Bolsonaro”.

Cinco páginas de Facebook com bandeiras de esquerda, um pré-candidato à presidência com ideias de direita. Cinco matches ideológicos que beiram o impossível, um padrão de comportamento difícil de alocar em qualquer quadrante. Ao bater o olho nesses grupos confusos, é impossível não questionar: essa galera é real?

É difícil responder a pergunta com precisão. Uma série de indícios deixados pelo comportamento dessas páginas, porém, mostra que a suspeita de serem fakes é bastante válida.

A data de surgimento das cinco páginas é o primeiro ponto a chamar atenção. Todas parecem ser fruto de lançamento coordenado. Três foram criadas em curto período de diferença em novembro de 2016, e outras duas com apenas um dia de diferença no mês seguinte. Os primeiros posts da “Sou maconheiro” e “Sou comunista” são, respectivamente, de 29 e 30 de novembro. Elas também tem alcance mais modesto (1.3 mil e 2.5 mil seguidores), grafia parecida (com a segunda palavra em minúscula) e certa semelhança de conteúdo: a primeira postagem da “Sou comunista” foi “Maconheiro sim, retardado nunca! Entendam, coerencia sempre, amores."

A relação entre as outras três é mais interessante devido aos maiores alcance e volume de postagens. Os primeiros sinais a aparecerem foram da “Sou De Esquerda” – hoje com 32 mil seguidores e que mudou o nome para “Queremos Bolsonaro Presidente”, como será chamada no texto daqui para frente. No dia 11 de outubro, a página postou uma primeira foto com a legenda “Se você é petista, comunista e socialista como nós mas apoia Bolsonaro Presidente curta nossa página!!!".

A página "Sou de esquerda e apoio Bolsonaro" mudou de nome para "Queremos Bolsonaro Presidente" e desistiu de levar adiante os supostos ideais esquerdistas do início. Crédito: Reprodução/ Facebook

Em 15 de outubro, quatro dias depois, em um comentário feito às 16:45 dentro de uma de suas próprias postagens, a “Queremos Bolsonaro Presidente” compartilhou link para a “Sou Feminista” (20 mil seguidores) – página que ganhou mais repercussão após matéria da Folha de S. Paulo que apontava para as interações estranhas que ocorriam na página. Foi um movimento curioso, já que o primeiro registro desta é de três horas antes, o que sugere uma ação coordenada ou um mesmo dono. Até hoje, as duas páginas se curtem. (A “Sou Homossexual”, por sua vez, não existe mais. Após causar rebuliço quando surgiu, ela foi deletada ou apagada pelo Facebook – a empresa não comenta casos específicos.)

A partir de 19 de outubro, a “Sou Feminista” começou a compartilhar – em geral dentro de posts com outros temas, e não direto na timeline – links para a “Sou Homossexual”. A “Queremos Bolsonaro Presidente” nunca fez o mesmo, mas ainda no dia 11, quando surgiu, escreveu "Somos de esquerda, somos gays e apoiamos Bolsonaro sim!".

Em 2 de novembro, outro personagem entra na história. Tanto “Sou Feminista” quanto “Queremos Bolsonaro Presidente” começaram a compartilhar – de novo, dentro de outros posts – links para uma outra página chamada “Tirinhas Bolsonaro”. Isso acontecia também retroativamente, ou seja, em postagens anteriores. Isso é interessante para mostrar como elas estão ligadas, mas não são os indícios mais reveladores. A intenção de servir como "isca" no mar revolto do Facebook fica mais clara ao olharmos para seus apoiadores na rede.

Páginas buscam de retroalimentar com links. Crédito: Reprodução/ Facebook

Hoje a “Tirinhas Bolsonaro”, cujo endereço é /JornalDesesquertizador, está abandonada. No entanto, outra página com o mesmo nome (com 9 mil seguidores) e cujos primeiros registros são de fevereiro deste ano é curtida pela “Sou Feminista” e pela “Queremos Bolsonaro Presidente”. Na foto de perfil, há o rosto de Jair Bolsonaro sobreposto ao uniforme do super-homem versão DC bad vibes e, na descrição, há o perfil do Instagram e Twitter da “Treta”.

A “Treta” também é uma página de Facebook, tem cerca de 210 mil seguidores e posta conteúdos ligados à repressão (violenta) da violência e, em menor quantidade, posições conservadoras como críticas ao casamento homoafetivo, aborto, uso de drogas e por aí vai. “Tirinhas Bolsonaro” e “Sou Feminista” compartilham muitos vídeos da “Treta”.

A chave para a criação dessas páginas pode estar, então, no post de 13 de setembro de 2017 da “Queremos Bolsonaro Presidente”. No conteúdo, cheio de erros gramaticais, algo bem comum a nesses grupos, a página afirma que os apoiadores de Bolsonaro precisam aumentar o alcance do político também entre aqueles que não se julgam de direita. “ O Facebook diminuiu nosso alcance, ele persegue todas paginas de direita. Precisamos sempre alcançar mais pessoas e sua ajuda é fundamental. Por favor se vc esta vendo este poste. Curta, comente e se possível compartilhem. (...)”, diz o texto.

Em seguida, a página botou links para as páginas oficias de Jair Bolsonaro, dos seus filhos Eduardo (deputado federal do PSC por São Paulo), Flavio (deputado estadual do PSC no Rio de Janeiro) e Carlos (vereador do PSC no Rio de Janeiro), para duas páginas chamadas “Bolsonaro 2018” e “Bolsonaro2018” e, claro, para a “Sou Feminista” e “Tirinhas Bolsonaro”.

Procurada pelo Motherboard para tratar de sua campanha digital, a assessoria de imprensa de Jair Bolsonaro não se manifestou sobre o tema.

Por que o Bolsonaro?

Dentro as quatro páginas ativas citadas no começo da matéria, apenas a “Sou comunista” respondeu a um pedido de entrevista. O dono da página, que disse tocá-la sozinho hoje, contou que é homem e comunista. “A página surgiu pois vi que vários comunistas apoiam algumas ideias de Jair Bolsonaro, mas tem medo de se impor”, afirma. “Mas a maioria das pessoas até dentro do movimento levaram a página como brincadeira, novas pessoas entraram na equipe da página achando que era brincadeira.”

Sobre os pontos de intersecção entre o comunismo e a proposta política de Bolsonaro, ele disse, na íntegra, que “temos que concordar que a situação do país não é das melhores, então algumas idéias dele me fazem pensar que seria o mais viável, ele é um candidato sem acusações por corrupção, o que infelizmente é raro, e defende a soberania nacional, lembrando muito Stalin”.

O cara, que não se identificou, também contou conhecer as equipes responsáveis pela “Sou Feminista” e pela “Sou maconheiro”, apesar de não ter relação com elas. Disse que que a “Sou maconheiro” é de zoeira mesmo. A outra, não. “A galera comenta brincando por conta dos posts que os antigos moderadores da página postaram, eles realmente acharam que era brincadeira”, explica. Ao mesmo tempo em que cita os posts de antigos moderadores, ele reforça que a “Sou Feminista” nasceu como uma página séria.

Para Pablo Ortellado, professor de Gestão de Políticas Públicas da USP, enquanto iniciativas como essa são lidas como uma sátira, o potencial de impacto é pequeno. Contudo, a expansão do alcance pode criar problemas, inclusive com o uso dos conteúdos por outros atores.

“É o que acontece com sites satíricos como Sensacionalista ou o The Onion nos Estados Unidos. Eles produzem matérias satíricas que são utilizadas no conflito político como se fossem verdadeiras por gente que não está habituada a eles”, afirma Pablo. “Mas nessa discussão sobre sites falsos, tem uma questão difícil de como fazer a diferenciação entre sites falsos maliciosos, digamos, e satíricos, até porque eles também se misturam”, diz.

A bem da verdade, a reportagem da Folha levanta a dúvida sobre a possibilidade da ‘Sou Feminista’ ser uma iniciativa menos que séria, assim como aponta uma série de inconsistências no feminismo defendido ali. Mas o fato é que tanto esta página quanto a “Querermos Bolsonaro Presidente” insistem em ser vistas como verdadeiras.

A evolução das duas, no entanto, foi bem diferente. A “Queremos Bolsonaro Presidente” chamou mais atenção quando surgiu e tentou, durante alguns meses, vender a ideia de pessoas alinhadas ao pensamento político de esquerda que apoiavam o militar de reserva. E dá-lhe postagens como: “ SER SOCIALISTA E TER IPHONE PODE MAS APOIAR O MITO NAO... NAO CONFIO EM ESQUERDA QUE NAO APOIA O BOLSONARO”, “ Bolsonaro não é esquerda ou é direita... É BRASIL!!!", “ Nos adoramos o Lula... MAS AMAMOS O BOLSONARO!! #ESQUERDACOMBOLSONARO” (um cenário muito factível, segundo o Datafolha) e “ Quando criamos a página, todos nos aqui sabíamos que iriam vir crianças: Bonsolmions e esquerdopatas ofender nossa equipe. Mas não cara, vem pessoas adultas nos ofender, de direita e esquerda.

Como o último exemplo deixa claro, não colou. A página falhou em encontrar o público que dizia representar e levou lapada de todos os lados. Meses depois, o nome mudou e as tentativas de encampar a esquerda-Bolsonaro foram enterradas bem fundo. Em 16 de abril, apareceu por lá um post que resume isso: “ Vc!! isso mesmo vc que defende essa esquerda maldita (...) ou vc acredita em Deus ou vc é da esquerda os dois não dá,deixa de ser burro.” Era uma referência a uma charge publicada no Jornal Extra, onde, embaixo de Jesus Crucificado, aparece a legenda “Tá com pena, leva para casa!”. Dá para entender o quão, digamos, é maleável o pensamento por ali.

A “Sou Feminista”, por sua vez, se esforçou a desenvolver melhor seu ponto de partida. Basicamente, usa três pontos para justificar o porquê de uma feminista apoiar o Bolsonaro: 1) Bolsonaro tem as propostas mais enérgicas contra homens que agridem mulheres, como a castração química de estupradores, por exemplo; 2) o candidato apoia um ponto de igualdade entre homens e mulheres e aprecia o papel delas “tanto na família quanto no mundo corporativo” em contrapartida a um feminismo tradicional, associado a depreciação do homem, segundo a lógica interna; e 3) as seguidoras mulheres se identificam com o feminismo defendido ali e apoiam o Bolsonaro.

Há, de fato, algumas mulheres que seguem e interagem com a página, mas o grosso da participação é de homens, o que não faz muito sentido. Além disso, apesar da tentativa de emular um linguajar mais, digamos, progressista (um número significativo dos posts começa com ‘manas’), o conteúdo é oposto a pautas históricas do movimento feminista, com reforços de padrões de belezas e uma defesa ferrenha da proibição absoluta ao aborto.

Página busca editoras mulheres. Crédito: Reprodução/ Facebook

Tudo isso cria situações surreais, como os comentários de uma postagem do 13 de novembro. Trata-se de um vídeo compartilhado da página “Treta”, que mostra quatro policiais espancando um homem. Uma moça tenta intervir e leva um sopapo de um dos policias, que, em seguida, a imobiliza no chão enquanto puxa seu cabelo.

São 43 comentários, a maioria deles feitos por homens que elogiam – e até comemoram – a ação. Apenas duas mulheres fazem o mesmo. Para deixar mais claro: estamos falando de uma página dita feminista que publica um vídeo de um grupo de policias agredindo uma mulher e que recebe elogios de, em sua grande maioria, homens.

Impacto eleitoral

Embora tenhamos vários indícios de tentativas de manipulação, é possível apenas especular as motivações por trás de páginas como essas. As questões que ficam são: isso é feito pelas mesmas pessoas? São coordenadas por uma equipe de Bolsonaro? E, mais importante, elas podem impactar o jogo político?

“Essas iniciativas se conectam com debate mais amplo de como estratégias feitas de maneira não explícita são, de fato, parte do jogo em diversas frentes no debate político”, afirma Fabio Gouveia, um dos coordenadores do Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura (Labic) da UFES. “Parece existir o objetivo de criar uma correspondência orgânica com determinado grupo social e, nesse meio termo, passar da ironia para a construção de outras pautas políticas.”

Desde a publicação da reportagem da Folha, o grosso de interações com a “Sou Feminista e apoio Bolsonaro” é crítico. Muita gente duvida da autenticidade do endereço. Na segunda-feira, dia 11, há um post informando que uma série de denúncias ao Facebook tiveram por objetivo tirá-la do ar. A princípio, no entanto, nenhuma das diretrizes da rede social parece ser desrespeitada, então é difícil imaginar que isso ocorra.

Na dúvida, você já sabe: não alimente os trolls.

Leia mais matérias de ciência e tecnologia no canal MOTHERBOARD.
Siga o Motherboard Brasil no Facebook e no Twitter.
Siga a VICE Brasil no Facebook , Twitter e Instagram .