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Como bots e movimentos políticos espalham falsas notícias sobre Marielle

Na internet, execução de vereadora foi da comoção nacional à enxurrada de boatos.

Diogo Antonio Rodriguez

Diogo Antonio Rodriguez

Crédito: Flickr/ Marcelo Freixo

Na noite da quinta-feira (15), o Brasil se encontrava comovido pela execução da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. O assassinato, que aconteceu na quarta (14), no centro da capital fluminense, gerou uma onda de choque e indignação por diversas cidades do país e algumas do mundo. No Rio de Janeiro, milhares tomaram a Cinelândia para denunciar a fragilidade dos negros frente à violência do Estado. A Avenida Paulista, em São Paulo, foi povoada na altura do vão do MASP por manifestantes que pediam a investigação do crime e o fim da violência contra os negros e as mulheres. Outras cidades, como Belo Horizonte, Maceió, Manaus e Recife também tiveram atos. Mais tarde, pela TV, houve a prova de que o caso Marielle tocou um nervo nacional: a Rede Globo exibiu um vídeo de homenagem feito por Ana Cesaro, influenciadora digital, em sua grade de programação.

O principal veículo de disseminação de conteúdo sobre a morte de Marielle foi o Twitter. Os números impressionam pela velocidade. Conforme mostrou o Laboratório de Estudos de Internet e Cultura (Labic) da Universidade Federal do Espírito Santo, o caso gerou mais tuítes do que o impeachment de Dilma Rousseff em um período menor de tempo. Mais: de acordo com um levantamento feito pela Diretoria de Análise de Políticas Públicas (DAPP), da Fundação Getúlio Vargas, o caso gerou 1,16 milhão de posts na rede social entre as 22h da quarta e as 16h da sexta. Uma análise das palavras mais usadas para falar do assunto mostram que o clima era de consternação. Segundo o DAPP, as palavras mais usadas, além do nome da vereadora, foram "negra" (10%), "mulher" (10%), "assassinada" (8%), "execução" (8%) e "assassinato" (8%), "executada" (7%). A grande maioria (88%) postou mensagens que lamentavam a morte da vereadora e expressavam luto.

Mas não demorou muito para as coisas mudarem no humor das redes sociais. O estudo também revelou que 7% das menções a Marielle eram críticas feitas às políticas de esquerda e que, destas, 4,6% foram feitas por robôs. Por mais que sejam números pequenos, a tática de espalhar boatos foi agressiva. (Pequeno esclarecimento: o DAPP afirma que não é possível saber atores ou identidades responsáveis pelo engajamento. Eles também dizem que 5% do conteúdo analisado foi gerado por robôs, ou seja, os perfis automatizados também serviram para prestar condolências a Marielle. )

Ainda na quinta-feira, começaram a aparecer falsas informações, espalhadas por meio de Twitter, Facebook e WhatsApp, fazendo acusações à vereadora. Ela foi acusada de ter sido casada com o traficante Marcinho VP, de ter recebido apoio do Comando Vermelho para ser eleita e, claro, de defender bandidos. Áudios, vídeos manipulados e postagens sem autor nem fontes foram os responsáveis pela onda de boatos que começaram a aparecer nas postagens. Dois perfis ajudaram a alavancar as mentiras: o da desembargadora do RJ Marília Castro Neves e o deputado federal Alberto Fraga (DEM-DF). Ambos publicaram acusações à vereadora com teor parecido ao das notícias falsas que circularam (e ainda circulam) pela internet. Nem a magistrada nem o parlamentar apresentaram fontes para suas supostas informações. Isso não impediu o conteúdo de ganhar forte repercussão. Matérias falando a respeito das declarações das duas autoridades foram as mais compartilhadas no Facebook, mostra o Monitor do Debate Político no Meio Digital, comandado pelo pesquisador e professor da USP Pablo Ortellado.

O Movimento Brasil Livre (MBL), grupo político ligado a partidos como DEM, PSDB e MDB, também aproveitou a onda de mentiras para surfar. Em sua página do Facebook, que tem 2,6 milhões de curtidas, o movimento publicou matéria com as declarações da desembargadora. O post teve mais de 44 mil curtidas e 33 mil compartilhamentos até o ontem (18). Aparentemente, o MBL apagou a publicação.

Durante o fim de semana, as notícias falsas a respeito de Marielle Franco ganharam força, o que motivou o PSOL e integrantes do mandato da vereadora a agir. Na segunda-feira, o partido entrou com representação no Conselho Nacional de Justiça contra a desembargadora do Rio. Marcelo Freixo, um dos principais líderes do PSOL, disse que "Marielle está sofrendo um duplo homicídio". "Não basta o covarde que apertou o gatilho, ainda tem covarde de plantão que não está preparado para julgar, mas para prejulgar, dizendo que a Marielle foi casada com bandido, com traficante, que sua filha é isso... É um nível de perversidade que a gente não está disposto a aturar", declarou o deputado estadual.

O partido de esquerda então pediu aos internautas que enviassem conteúdos ofensivos à vereadora diretamente aos advogados que atendem o PSOL do Rio, para o e-mail contato@ejsadvogadas.com.br. Já foram enviadas mais de 16 mil denúncias, de acordo com a assessoria de imprensa do PSOL nacional. Devido ao volume de material recebido pelo escritório de advocacia, o partido não sabe dizer quantas pessoas serão denunciadas da Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática. É preciso fazer uma triagem do material antes de tomar qualquer decisão.

Outra iniciativa para tentar conter a marcha das mentiras foi a criação de um site focado em desmentir os boatos que circulam pelo Brasil. "A verdade sobre Marielle Franco" rebate cinco das principais afirmações falsas divulgadas nos últimos dias. Além de esclarecer que a vereadora nunca foi casada com Marcinho VP, não foi eleita pelo Comando Vermelho e não defendia bandidos, o site ainda explica que ela nunca foi usuária de maconha e não engravidou aos 16 anos. O conteúdo foi redigido por voluntários em reação à onda de falsidades que mirou a vereadora.

A execução da vereadora Marielle Franco, embora ainda esteja longe de estar esclarecida, já pode ser considerado um dos maiores eventos políticos da história da internet brasileira. Tanto pela comoção e mobilização social que gerou logo após sua morte, quanto pela velocidade e voracidade com que as notícias falsas tentaram desqualificar a parlamentar. Em questão de dias, a vereadora passou de símbolo de luta e vítima do racismo do Brasil a representante de facções criminosas e protetora de infratores. Trata-se de mais um forte sinal de que é preciso monitorar a distribuição de conteúdo nas redes sociais de maneira atenta. As eleições 2018 estão logo ali.

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