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Karol Conká de volta à infância em show na periferia de Curitiba

Em novembro, a rapper voltou à vila onde cresceu, o Boqueirão (décimo bairro mais violento da cidade), para uma apresentação especialíssima num centro de atividades culturais para jovens da região.

por Cristiano Castilho
06 Dezembro 2016, 3:00pm

Fotos: Julio Garrido

A quebrada fica a 16 quilômetros do Centro de Curitiba. Dentre os 75 bairros da cidade, o Boqueirão é o 10º mais violento, de acordo com dados do Relatório Estatístico Criminal disponibilizados pela Secretaria de Segurança Pública do Paraná. Mortes por tráfico e latrocínios na conta. Salve-se quem puder. Ou conseguir.

Foi de lá que surgiu a voz esfarrapada de Karol Conká, ainda Karoline dos Santos Oliveira quando rimava na Escola Estadual Roberto Langer Junior. Sua trajetória, apoiada em letras engajadas, libertárias e empoderadoras, rompeu as barreiras da esquizofrênica cena musical curitibana quando, em 2013, lançou Batuk Freak, disco produzido pelo Nave, outro brother da perifa de Curitiba.

O furacão Conká ("furakão", hehehe) começou com a inclusão da música "Boa Noite" no game FIFA 2014, passou por sua participação na propaganda da Adidas, chegou até o Japão, onde, após convite do DJ Zegon, tocou ao lado da dupla N.A.S.A, e aterrissou na Europa, a convite do selo inglês Mr. Bongo Records, que lançou o disco internacionalmente. A rapper de cabelo mutante desfilou seu sorriso gigante na Inglaterra e na França, oui. Neste ano, participou da abertura das Olimpíadas. Cerca de dois bilhões de pessoas, em todo o mundo, a ouviram cantar no Maracanã. E agora está de contrato assinado com o canal a cabo GNT, onde irá substituir Ivete Sangalo em um programa de diversidade e cultura que estreia em março de 2017.

Janine Mathias. Foto: Julio Garrido.

No último dia 19 de novembro, Karol Conká voltou ao tempo em que tomava vinho na praça, fumava um baseado e "fugia da polícia". Em um show gratuito em companhia das cantoras Tássia Reis e Janine Mathias, a rapper se apresentou no Portal do Futuro do Boqueirão — centro de atividades culturais para jovens mantido pela prefeitura de Curitiba.

Era como um palco na laje de casa, que proporcionou um encontro temporal duplo: Karol não visitava seu bairro há cinco anos. Fãs adolescentes vibravam, celulares a postos, com a primeira apresentação ao vivo que viam da mulher que cantou sua quebrada para o mundo.

"É Boqueirão, eita", gritou Karol após cantar "É o Poder". Olhos vidrados no pequeno palco, Andrielly Maria Dias, de 17 anos, e Suêli Ferraz Gonçalves, de 12, vibravam com o primeiro show que assistiam em suas vidas. "Ela é daqui, isso é dahora. Nos empolgamos demais, as letras entram no coração da gente", disseram as garotas, vizinhas da antiga casa da rapper. "Nosso rolê é aqui. É como se fosse a [novela] Malhação de verdade."

Em "Ouça-me", Karol, Tássia e Janine cantam a "a revolução será crespa/ doa a quem doer" e na sequência erguem os punhos para cima, imitando o conhecido gesto dos Panteras Negras na luta contra a discriminação racial nos Estados Unidos. Ao final do show, após o hit "Tombei", um bate-papo rápido com os fãs terminou por democratizar ainda mais a apresentação. "Quero ser artista e dizem que não vou conseguir", disse aos prantos Gabrielle, de 20 anos. "O que você me aconselha?". "Ouvi isso várias vezes aqui. É o que eles querem, que a gente pense que não consegue. Mas olha só. Minhas músicas são orações. O que cantava em 2011, tô vivendo hoje. É só acreditar", respondeu a rapper, tomando um gole do seu "chá" especial.

No cantinho do palco, Ane Caroline, de 31 anos, estava impávida. Foi saudada pela "diva do Boquera" durante o show. É uma amiga de infância de Karol. Elas não se trombavam há seis anos. "Ela é a mesma coisa. Humilde, uma pessoa que dá conselhos e que pensa muito na família. Não nos víamos há muito tempo, mas a fama não mudou nada. E não faria sentido se mudasse", diz Ane, que até então só tinha acompanhado apresentações da amiga pela TV. "É uma mistura de emoção e saudade."

No camarim com o filho, Karol, 30 anos, conta os minutos para sair para um show que faria no Cajuru, outro dos bairros mais violentos de Curitiba. "Revi pessoas queridas, passeei por aqui, onde brincava. Mudou muito, mas é preciso mudar mais. Cresci ouvindo que a gente só consegue sonhar, não realizar. Não é verdade."

Prestes a lançar seu segundo disco, Karol Conká diz que conseguiu manter a cumplicidade com a região em que nasceu, mesmo agora, que veste roupas "mais caras". "Você pode sair da periferia, mas ela não sai de você", disse a "louca das pracinhas do Boquera", que carrega parte da Curitiba invisível na atitude, nas rimas e nas batidas.

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