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A história do gangster mais durão de Copenhague

Leon Fristrup Jensen passou um total de 31 anos na cadeia.

por Lars Jellestad
20 Março 2017, 2:02pm

Esta matéria foi originalmente publicada na VICE Dinamarca .

Você pode descrever Leon Fristup Jense de várias maneiras — cafetão, homem de família, criminoso violento, amigo de famosos, traficante de drogas, charmoso. A maioria das pessoas em Vesterbro, Copenhague, na Dinamarca, o conhece apenas como "Lonne", um gangster incorrigível da vizinhança que passou quase metade da vida na prisão.

Lonne conta a história de sua vida em Born Free, um livro escrito por Peter Grønlund. Lonne nasceu numa família de classe trabalhadora em Vesterbro — que foi o notório Bairro da Luz Vermelha de Copenhague. Ainda é, tecnicamente, mas a gentrificação já invadiu Vesterbro. Lonne tinha 15 anos quando passou seu primeiro Natal atrás das grades, o começo de uma sequência de penas por diversos crimes, entre eles roubo, violência, contrabando, caftinagem e posse de bens roubados.

A história de Lonne serve como símbolo da própria mudança em Vesterbro. Nos anos 70 e 80, a área era cheia de cinemas onde passavam filmes adultos e pubs lúgubres, mas hoje em dia você encontra no bairro principalmente galerias de arte e cafés. Lonne era parte do antigo Vesterbro, assim como seus amigos que tinham nomes como John, o Açougueiro, Bert Ricardo e Violent Willy.

"Todos os amigos e conhecidos de Lonne são criminosos — Vesterbro era um bairro barra pesada e os garotos que cresciam ali tinham duas opções. Se tornar mão de obra barata, ou fazer o que Lonne fez e encontrar maneiras mais desonestas de ganhar a vida", diz o autor de Born Free, Peter Grønlund.

Lonne fazendo o truque da toalha. Fotos cortesia de Peter Grønlund.

Lonne é uma figura conhecida na mídia mainstream dinamarquesa há anos, mas Grønlund achou que ainda havia o suficiente para contar sobre a vida dele para encher um livro. Born Free explora como é ser um criminoso e baladeiro conhecido ao mesmo tempo — tão feliz em jogar dinheiro para o alto quanto em enfiar a mão na cara de alguém.

"Não há muitos dinamarqueses que passaram tanto tempo na cadeira quanto ele, mas ele não reclama. Ele passou muitos períodos da vida atrás das grades — 17 longos meses, inclusive, numa solitária. Mas ele aceita que isso foi consequência de seus atos, que essa era a vida dele", diz Grønlund. "Isso chamou minha atenção. Ele é alguém que vive por um código moral completamente diferente do nosso."

Hoje, Lonne vive uma vida bastante reclusa e ajuda a cuidar do filho de nove anos. Segundo Peter, Lonne "teve alguns problemas no caminho" durante os últimos anos — encarceramentos por 30 e 60 dias e multas por pequenos crimes —, mas nada que se compare aos crimes de seu auge nos anos 70 e 80.

Da esquerda para a direita: A personalidade da TV infantil holandesa Bubber, Peter Grønlund e Lonne na festa de lançamento de 'Born Free' . A festa aconteceu no Freddys Bar, um dos poucos pubs restantes do passado sujo de Vesterbro.

"Ele não sai mais para grandes noitadas como antes, mas aprecia um drinque de vez em quando", diz Grønlund, que acredita que Lonne é "fundamentalmente um cara legal". Ele acrescenta: "Vendo além das tatuagens no rosto dele e seu passado, você tem um homem simpático e falante cheio de histórias loucas, porque toda sua vida girava em torno do crime".

Lonne não pensa muito nas vítimas dos crimes que cometeu. "Pelo ponto de vista dele, ele cumpriu sua pena, então não se sente mal pelas pessoas que foram enganadas, roubadas ou que apanharam pelo caminho", diz Grønlund. "É isso que quero dizer com outro código moral. Ele não se preocupa nem um pouco em ter inundado Vesterbro com heroína, por exemplo. Na cabeça dele, se ele não tivesse feito isso, outra pessoa teria. Ele só se arrepende de ter sido pego."

No trecho seguinte de Born Free, Lonne explica como ganhou uma reputação no submundo criminal de Copenhague.

***

Quando eu tinha 15 anos, passei dois anos e dez meses na prisão juvenil de Nyborg. Era basicamente a sentença máxima que você podia dar a um menor. Se alguém pensava que aquele tempo na prisão ia me deter, eles estavam errados. Aquela sentença foi só o começo.

Tive sorte de ser preso em Nyborg com alguns amigos de Saxogade — a rua onde eu morava em Vesterbro. Elvis, Buller, Violent Willy e eu éramos conhecidos na prisão como a "Gangue Saxo". Elvis era um cara engraçado, sempre usado roupas berrantes e com o cabelo cheio de Brylcreem. Buller era um cara grande que tinha um soco malvado – assim como o Violent Willy. Pouca gente tinha colhões para enfrentar esses dois. Elvis e Buller bebiam muito. Uma vez, eles roubaram uma caixa de álcool retificado do hospital em Frederiksberg, e seja lá onde a gente estivesse, eles tomavam exclusivamente leite com chocolate misturado com um pouco daquilo. Os dois morreram muito tempo atrás, mas Willy ainda está vivo. Ele quase nunca bebia – mas adorava bater nos outros. Ele também tinha esse hábito de dar cabeçada nos canos da rua – todos eles tinham marcas por causa dele. Essa era a contribuição do Willy para a paisagem urbana. Até que um dia, um dos canos quebrados foi substituído por outro, de metal. Então foi o Willy que ficou andando por aí com uma baita marca na cabeça.

Eu estava preso com amigos, mas também com criminosos mais velhos do país inteiro. Eles contavam histórias sobre roubos de cofres, grandes carregamentos de contrabando, carros caros, mulheres, todo tipo de coisa excitante. Aquela prisão juvenil era uma fábrica — produzindo criminosos em massa. Então assim que cumpri minha pena e um amigo foi me buscar no portão da prisão, eu sabia exatamente qual seria meu próximo passo. Eu não estava pensando em estudar e conseguir um emprego. Eu queria ser um criminoso em tempo integral.

Não sei por que, mas parei de invadir residências depois de um tempo, talvez os outros caras fossem melhor nisso que eu, ou talvez eu tenha enjoado mesmo. Não lembro por quê, mas lembro que largar o roubo abriu novas oportunidades para mim.

Lonne (no canto esquerdo) com a atriz Anne Marie Helger e a turma de teatro da Prisão Vridsløselille. Dois membros da Gangue Blekingegade podem ser visto ao lado de Lonne. Lonne e os homens de pé ao lado dele interpretavam os guardas da prisão, enquanto os outros eram detentos. Na Dinamarca, os prisioneiros usam roupas civis, então todo mundo na foto está, de fato, fantasiado.

Os clientes do Den Lille Café eram um grupo misto: criminosos, contrabandistas, caras procurando briga, trabalhadores durões, desempregados, além dos típicos bêbados e prostitutas. Fiquei amigo de uma garota chamada Søs, que tinha fugido recentemente de uma casa para meninas em Viby, não muito longe de Aarhus. Ela tinha 16 anos, mas era uma garota legal pra caralho que ficava nos pontos principais de Vesterbro e vivia como se não houvesse amanhã. Não muito depois que nos conhecemos, ela me pediu para ajudá-la a trazer uma amiga para Copenhague. Ela me disse que a amiga estava morando na mesma casa para meninas de que ela tinha fugido, e que o lugar tinha reforçado a segurança. Não dava mais para fugir sozinha.

Fiquei feliz em ajudar, então pegamos um carro e fomos para Jutland. O nome da outra garota era Jonnie, e tirar ela de lá não foi problema. Jonnie amarrou dois lençóis juntos e desceu do segundo andar quando piscamos os faróis. Depois voltamos todos para Copenhague bebendo cerveja e ouvindo música alta.

Alguns dias depois, Søs veio até o pub e me deu 300 coroas [$43]. Fiquei confuso e perguntei o que era aquele dinheiro — ela não me devia nada. Mas ela disse que era para mim. Os caras sentados na mesa riram e disseram que eu devia aceitar a grana. Um pouco depois, Jonnie também começou a me trazer dinheiro. E foi assim que me tornei um cafetão.

Era bem aleatório, para dizer a verdade. Elas simplesmente passavam lá para me deixar 300 ou 400 coroas, mas logo peguei o ritmo. Em troca elas queriam que eu ajudasse com clientes que se recusassem a pagar ou dessem problema. Também aluguei um apartamento para elas em Eriksgade, onde elas podiam levar os clientes.

Criamos uma rotina: ao meio-dia eu levava papel higiênico, toalhas de papel e toalhas limpas para elas. Aí eu geralmente ia beber alguma coisa no Den Lille Café ou outro pub, o De Fire Årstider ("Quatro Estações"). Era lá que todos os outros cafetões do bairro se encontravam na época. As garotas passavam lá para deixar um dinheiro, tomar uma bebida com a gente e depois voltavam para a rua. Quando elas ganhavam dinheiro suficiente, a gente ia comer num restaurante caro ou dava uma festa. A gente não poupava despesas. Quando a gente saía, eu fazia chover drinques, garrafas inteiras de bebida. Eu pagava rodadas para todo mundo no bar. Eu estava ganhando tanta grana que — como qualquer cafetão de respeito — comprei um Mustang amarelo. Aquilo realmente chamava a atenção. As garotas tatuaram "Lonne Para Sempre" no braço.

Lonne tem os nomes dos três filhos tatuados na cabeça. Foto por Claus Visby.

Bons tempos, mas eu tinha muita coisa para cuidar. Pelo menos algumas vezes por semana eu tinha que usar meus músculos em alguém. Se os clientes estavam reclamando, bêbados, se recusando a sair do apartamento ou pagar, as garotas iam até o pub me chamar. Eu geralmente ia para o apartamento delas com outros caras — a gente se ajudava. Mandamos muitos caras escada abaixo com um olho roxo e dentes soltos.

Incidentes assim quase nunca acabavam na polícia. Não importa o quanto a gente batesse em alguém, as autoridades raramente se envolviam. No entanto, não demorou muito para eu voltar para a cadeia por agressão. Um dos meus amigos, um cara fanfarrão chamado Benny, chegou no pub um dia completamente fodido. Alguém tinha arrebentado ele. Acontece que o Benny tinha ido até a peixaria local, cujo dono era uma besta de forte, para comprar algo pro jantar. De brincadeira, Benny deu uma peixada na cara do homem. O Benny era assim mesmo. Ele podia ter se safado com outras dessas antes, mas o peixeiro não achou graça e deu umas porradas no Benny.

Eu estava sentado lá bebendo, mas quando ouvi essa história, levantei correndo, fui até o peixeiro e dei uma cabeçada nele, o que o derrubou no chão. Quando ele caiu, chutei a cara dele algumas vezes, para mostrar que ninguém podia foder com os meus garotos.

Diferente dos clientes das meninas, o peixeiro deu queixa na polícia e teve que me identificar no tribunal. Claro que ele não teve problema para fazer isso – tinha sido uma experiência muito assustador para ele. Eu tinha virado uma fera. Ele disse no tribunal que eu tinha invadido a loja e pulado nele. Neguei qualquer conhecimento dos eventos que ele descreveu. Eu era completamente inocente. Mantive essa história, mesmo depois. Eu sempre me declarava inocente no tribunal; nunca admiti ter feito nada. Esse é um princípio para mim. Mas o juiz não acreditou, então passei os dez meses seguintes na Prisão Vridsløselille por bater no dono da peixaria.

Born Free foi lançado na Dinamarca pela editora Bogkompagniet.

Tradução do inglês por Marina Schnoor.

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