FPS filosófico

Alguém fez um mod de 'Wolfenstein 3D' para refletir se é aceitável a violência contra nazis

Numa espécie de obra filosófica, o designer Ramsey Nasser adicionou caixas de diálogo ao clássico jogo de matar nazistas.

por Lief Johnson
08 Fevereiro 2017, 10:00am

Desde que um cara socou o supremacista branco Richard Spencer no dia da posse de Donald Trump, nos Estados Unidos, tem rolado um debate se descer o cacete em nazistas é uma atitude aceitável. Ramsey Nasser, designer de games do Brooklyn, acredita que sim.

Para mostrar sua tese, ele pegou a versão gratuita do shooter clássico de 1992 da id Software, o Wolfenstein 3D, e o atualizou para os dias de hoje com o título  Dialogue 3-D

Talvez você se lembre do enredo: William "B.J." Blazkowicz, espião americano de descendência polonesa judia, invade uma prisão nazista armado com uma pistola Luger atirando em soldados pelo caminho. Digamos que o roteiro estava quase pronto. Precisou apenas de uma atualização.

Joguei Wolfenstein 3D pelo menos uma centena de vezes e a catarse segue a mesma mais de duas décadas depois. Com Dialogue 3-D, porém, sempre que aperto "X" pra meter chumbo no primeiro nazi atirando em minha direção, aparece uma caixa de diálogo.

"A resistência violenta já resolveu alguma coisa?", pergunta o texto, com as opções de Sim e Não. O nazi continua atirando. Ao pensar nas Revoluções Americana e Francesa, clico hesitantemente em "Sim".

Atiro no nazi e surge mais uma caixa:

"Espera aí, não é importante preservar o direito deles à liberdade de expressão?"

Tento clicar no "sim", mas Blazkowicz já está morto no chão. E isso é Dialogue 3-D. Percebi que é possível matar os soldados e jogar quase normalmente caso se responda as questões rápido o bastante, mas, convenhamos, é um pé no saco. A cada tiro me via diante das mesmas perguntas –  "Isso não te faz o verdadeiro nazista?" ou "Já tentou falar com eles? –  que me impedia de atirar até respondê-las. A paciência vai se esgotando. E talvez esteja aí a arte da coisa.

Por mais que afirme "prefiro que as pessoas tenham suas próprias experiências [com o jogo] e tirem suas próprias conclusões", Nasser admite que há uma mensagem nesse modo pausado de jogar.

"As reações melindrosas a Richard Spencer – que já falou em prol do genocídio e limpeza étnica publicamente – levar um soco são bizarras", comentou em mensagem direta via Twitter. "Há todo um cuidado em torno da violência em geral e confusão sobre o que significa liberdade de expressão. Em vez de continuar a discutir sobre isso, coloquei o que penso em Dialogue 3-D."

Crédito: Ramsey Nasser

Dialogue 3-D não é o único game que Ramsey criou abordando a violência antifascista. Há algumas semanas, ele e a designer de games Jane Friedhoff juntaram forças na Global Game Jam e criaram o Handväska.

O game não é tão violento – a ideia é dar bolsadas no máximo de nazistas que puder –, mas ele se orgulha de que as circunstâncias tenham levado o jogo a ser lançado no Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto. Ele vê os games como uma boa forma de fazer as pessoas pensarem sobre tais assuntos.

"Com certeza sou melhor programador e designer de games do que escritor, então este é um meio mais expressivo para mim, mas, claro, artigos bem escritos podem tocar e educar grandemente as pessoas", disse Nasser. "Eles são diferentes e ter uma diversidade de táticas é ótimo."

Tradução: Thiago "Índio" Silva