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Todos o 'Acústicos' da MTV Brasil, do pior ao melhor

Em um país conservador e geralmente fechado a estéticas mais ousadas, o formato violão e violino foi a salvação comercial de muita gente.

por Lucas Brêda
07 Agosto 2018, 10:00am

É praticamente impossível ter vivido no Brasil entre a segunda metade dos anos 1990 e a primeira dos 2000 sem ter tido contato com a nossa versão da série Acústico MTV. O formato surgiu na MTV norte-americana, mas chegou rápido por aqui, quando Marcelo Nova gravou um piloto (nunca exibido) no formato, em 1990. Até o último, de 2012, foram 32 edições do Acústico, algumas delas servindo como tábua de salvação para diversas bandas de rock que estavam em baixa (Capital Inicial, Ira!, Kid Abelha), mas também rendendo vendas expressivas para nomes populares (Zeca Pagodinho, Roberto Carlos).

Existe uma lógica para o Acústico MTV ter funcionado tão bem no Brasil, chegando ao ponto de algumas bandas continuarem apostando no formato até hoje, mesmo sem a tutela da MTV. Em um país conservador e geralmente fechado a estéticas mais ousadas, fica fácil pensar como o Titãs fofo é extremamente mais palatável do que o Titãs brabo. Só que o Acústico também é vastamente odiado por muitos fãs de música do país, por ter suprimido parte da criatividade e da originalidade dos nossos artistas, fazendo toda uma geração de discos bem-sucedidos parecer meio igual: com som de violão.

Além de tudo, que fique claro: esta lista é altamente pessoal. Cada pessoa tem uma relação muito individual com os acústico — aquele que estava sempre rodando no carro dos pais, o que tocava no boteco da sua vizinhança, o que algum amigo esqueceu na sua casa ou até mesmo o piratão “Melhor do Acústico MTV” que você comprou no camelô —, então, a discordância aqui é quase premissa. Por exemplo, na minha infância/pré-adolescência em Maceió, um dos três DVDs que minha mãe costumava alugar na promoção de fim de semana (pega sexta e só devolve segunda) era um Acústico MTV. Meus favoritos daquela época eram Cidade Negra e Capital Inicial, mas de lá pra cá muita coisa mudou: essas duas bandas só existem (ainda) por causa do sucesso dos álbuns desplugados, o rock passou a ser tão raro no mainstream quanto uma opinião sensata do Roger Moreira no Twitter e, muito provavelmente, a locadora de DVD que você frequentava virou uma dessas barbearias hipster em que se pode tanto cortar o cabelo quanto comer um hambúrguer artesanal.

Notas: o Acústico do João Bosco (1992) não foi incluído por não ter saído em vídeo; o do Barão Vermelho (gravado em 1991) também ficou de fora, já que só foi lançado como extras em um DVD de 2006. A menção honrosa vai para o acústico do Roupa Nova, que só não pôde ser ranqueado por não ter sido feito pela MTV.

31. Titãs (1997)

Algumas bandas de rock, nos acústicos, até conseguem expandir sua sonoridade usual mesmo sem guitarras e sintetizadores. É o caso de Paralamas do Sucesso e O Rappa. Outras usam o formato para se reapresentar em estéticas menos datadas, como Engenheiros do Hawaii e Kid Abelha. A maioria, contudo, acaba sendo apenas uma encarnação substancialmente menos expressiva que a original, elétrica. O Titãs é o maior exemplo: faixas como “Bichos Escrotos” e “Diversão” soam quase ridículas ao violão (“Calma que hoje é acústico”, o Paulo Miklos meio que se desculpa), ninguém está cantando bem (a exceção é o Miklos), as músicas parecem pequenas demais para orquestras de sopros e cordas e nem a participação do Jimmy Cliff chega a empolgar. Junto a isso tudo, tem o que o disco representa: foi o primeiro acústico de rock (segundo mais vendido até hoje), com um sucesso espontâneo que abriu caminho para outros artistas do gênero perderem o pudor de abrir mão das guitarras para conseguirem ser mais comerciais. Se levar a sério (orquestra, convidados ilustres, milhares de violões) é uma das principais razões para artistas mais desbocados, como era o próprio Titãs, perderem a graça. Entre as coisas que este acústico influenciou estão “Epitáfio”, a escalada do Nando Reis cantautor e todos os outros volumes roqueiros da série.

30. Bandas Gaúchas (2005)

É um acústico praticamente sem hits, o que já diz bastante sobre o apelo deste volume. Além disso, a escolha de reunir quatro bandas com apenas a geografia em comum só faria sentido se elas representassem algum movimento ou pelo menos conversassem mais intimamente em termos artísticos. E, bom, o Beto Bruno berrando por cima de um violão não é realmente um dos momentos mais inspirados da música nacional.

29. Lulu Acústico MTV II (2010)

Esse álbum saiu em 2010, uma época em que as pessoas já não ligavam tanto para acústicos e Lulu Santos num geral. Isso sem falar que se trata de uma sequência de outro acústico que já é um disco duplo (o Lulu tem um cancioneiro respeitável, mas ninguém precisa de 3 horas ou quase 40 versões acústicas de músicas dele já lançadas anteriormente). Tem uma versão forçada de “Odara” (Caetano Veloso) com a Marina de la Riva e “Adivinha o Quê” (uma das minhas favoritas dele) perde todo o apelo sexy e fica parecendo uma “Bete Balanço” mais contida.

28. Legião Urbana (1999)

É o volume mais simples (e enfadonho) da série, com apenas dois violões e percussão, uma sucessão de erros e um clima geral de ensaio. Nem as ótimas escolhas de cover (Neil Young, Jesus and Mary Chain, Joni Mitchell e Menudos) conseguem compensar as desafinadas do Renato Russo e a quase completa falta de arranjo. O álbum/filme foi gravado em 1992, mas só saiu em 1999, depois da morte do Renato, o que com certeza potencializou as vendas e justifica grande parte da devoção do público até hoje.

27. Capital Inicial (2000)

O Capital Inicial surgiu nos anos 1980, mas a verdade é que a banda fez consideravelmente menos sucesso que seus contemporâneos de rock na época e até passou por maus bocados na década seguinte (chegou a ficar sem gravadora e ter Murilo Lima, ex-Rúcula, como vocalista). Um dos mais rentáveis da série, esse acústico vendeu tanto que não só fez “Primeiros Erros (Chove)” encher o saco de um país inteiro por tanto tocar, como também foi definitivo para a banda brasiliense se estabelecer no mainstream — e, consequentemente, para a consolidação desse pop rock altamente inofensivo no nosso imaginário popular. É por causa dele que o Capital Inicial está por aí até hoje tocando “Natasha” com um balão imenso da protagonista da música no palco e enchendo o mundo de acústicos.

26. Zeca Pagodinho II (2006)

Neste segmento nichadíssimo da indústria do entretenimento mundial — o Acústico MTV brasileiro —, sequências dificilmente agregam em alguma coisa. Assim como no caso do Lulu Santos, o segundo volume do Zeca Pagodinho na série soa demasiadamente parecido com o anterior, só que com um repertório de “segunda linha”. Pra quem ama o primeiro e já enjoou daquela tracklist, tem algum valor.

25. Marina Lima (2003)

A Marina Lima sempre teve uma carreira sólida em termos de mercado, desde os primeiros momentos dos anos 1980. Nos 2000, depois de se afundar em uma depressão que chegou a prejudicar sua voz, e ficar afastada do palco, ela fez o Acústico MTV para estabelecer de vez seu retorno ao cenário musical. Apesar do valor do repertório, o que realmente afunda o disco é o desempenho vocal esquisito da Marina Lima.

24. Roberto Carlos (2001)

Na época, esse Acústico era esperado como uma (finalmente) mudança de rumo na carreira do rei. É também resultado de uma novela nos bastidores, já que Roberto Carlos supostamente tinha o sonho de fazer um acústico na MTV (dizem que chamou até um numerólogo para decidir a quantidade de faixas), mas a Globo era (e ainda é) detentora dos direitos do cantor. Depois de acordos e desacordos, as gravações foram realizadas e a MTV acabou sem poder exibir o programa na TV, apesar de ele ter saído em CD/DVD. O repertório é até bem selecionado, mas a produção é tão pasteurizada que soa como se tivessem colocado uma banda de churrascaria ao lado de uma orquestra. Além de tudo, uma sofrência decente naturalmente requer um vozeirão emocionado e, neste disco, o Roberto parece fazer esforço zero para cantar além do necessário.

23. Arnaldo Antunes (2012)

O último Acústico a sair pela MTV Brasil é também um dos mais irrelevantes. Tanto pela falta de apelo da marca na época quanto pelo que ele traz de novo à obra de Arnaldo Antunes (hoje, um cantor de MPB pouco distante do formato). A banda de acompanhamento, contudo, é criativa, com Curumin na bateria, Marcelo Jeneci no órgão (onde ele realmente agrega) e Edgard Scandurra na guitarra (o que ele faz com a boca em “Dentro de Um Sonho” é uma das maiores contribuições ao disco). É um show redondo, porém tão monótono quanto o vocal nunca esforçado do Arnaldo Antunes.

22. Ira! (2004)

Não fosse a possibilidade de re$$urgimento comercial, provavelmente o Ira! nem teria feito este show. Isso porque os méritos da banda nunca estiveram ligados à sua capacidade melódica e, sabemos, Nasi nunca foi um cantor de harmonias. Não chega ser um desastre, mas este volume, com produção do Rick Bonadio, é outro caso de acústico (como o do Titãs) que anula ou deixa em segundo plano todas as qualidades do artista. O vocal desajeitado e granulado do Nasi funciona muito melhor no meio da sujeira; os riffs do Edgard Scandurra perdem muita força num violão. O próprio Ira! havia lançado um filme ao vivo bem superior, pela mesma MTV, apenas alguns anos antes.

21. Cidade Negra (2002)

O único Acústico de reggae da MTV brasileira é também outro sucesso de vendas. Só que, apesar de bastante significativo para o reggae pop no Brasil, ele tem tantos altos quanto baixos. Quando a banda se aprofunda no gênero que está acostumada (“A Sombra da Maldade”, “Firmamento” ou “Extra”, com uma contribuição importante de Gilberto Gil), o formato é um aliado. Quando rola uma aproximação do pop rock (a versão bonitinha de “O Erê”, o cover de “Soldado da Paz”, dos Paralamas do Sucesso) ou quando o grupo incorpora uma caricatura good vibes (“Girassol”), a coisa desanda. Para completar, tem a tradução um tanto tosca da versão do Peter Tosh de “Johnny B. Goode” (Chuck Berry).

20. Sandy & Junior (2007)

É o disco de despedida de Sandy & Júnior, já que eles se separaram logo depois do seu lançamento. Nesse contexto, o álbum ganha ainda mais sentido: é a obra que marca o amadurecimento das crianças que marcaram o pop nacional (inclusive, influenciaram muita gente boa) e a revisão necessária daqueles hits aos quais ninguém passou imune. Claro, é tudo excessivamente polido, traz o suficiente para os fãs do vocal certinho da Sandy e até o Marcelo Camelo faz uma participação meio nada a ver em “As Quatro Estações”.

19. Lobão (2007)

O Lobão é o típico caso de roqueiro para quem a chegada dos anos não foi nada generosa. Hoje perdido artisticamente, ele também virou escritor polêmico, ícone da direita e reinterpreta hits dos anos 1980 que ninguém aguenta ouvir. Mas quando seu Acústico foi lançado, Lobão vivia um admirado momento de independência das grandes gravadoras, aproveitando a oportunidade para voltar a fazer algum barulho no mainstream. Lobão nem sempre é o melhor intérprete de suas próprias canções, mas, nesse show, ele consegue se encontrar entre os violões, com performances precisas em faixas mais ácidas (“Decadence Avec Elegance”, “Bambina”, “A Vida é Doce”) e até em nos hits-baladas (“Me Chama”). Vale a pena o resgate de “O Mistério”, do Vímana, o grupo de rock progressivo que ele tinha nos anos 1970 com Lulu Santos e Ritchie.

18. Lenine (2006)

Goste ou não, Lenine faz um tipo de MPB que faz jus à sigla: é popular, brasileiro e, sim, original. É também verdade que o Acústico acrescenta pouco artisticamente à carreira do artista, uma vez que seu repertório naturalmente já se comporta bem no formato. O que tem de mais diferente são as participações do rapper GOG (em “A Ponte”) e do ex-baterista do Sepultura, Iggor Cavalera (em “Dois Olhos Negros”).

17. Gal Costa (1997)

Um óbvio sucesso de vendas: Gal Costa no fim dos anos 1990 começando a revisitar a carreira, e indo direto nos clássicos dos 1960 e 1970 (“Baby”, “Vaca Profana”, “London, London”, “Folhetim”, “Vapor Barato”, “Sua Estupidez” etc). Poderia ser melhor se não tivesse a pretensão de soar chique ou refinado. Os convidados também não ajudam: a diferença de talento vocal entre Frejat, Herbert Vianna e Zeca Baleiro em relação à dona da festa salta aos ouvidos. É uma Gal pomposa, desacelerada e bem menos despojada que nos melhores momentos, mas ainda assim é a Gal (intensa, profunda etc).

16. Ultraje a Rigor (2005)

Como você provavelmente se lembra, antes de ser o reaça insuportável do Twitter (e do talk show do Danilo Gentili), Roger Moreira era conhecido como o cara que fazia as letras cheias de sacadinhas espertas do Ultraje a Rigor. Assim como qualquer coisa relacionada ao Roger, o Acústico do Ultraje não envelheceu muito bem, mas vale olhar para o que ele representou na década pré-Twitter da série da MTV: os anos 2000. É uma das edições mais animadas e certamente a que menos se leva a sério (não dá pra negar: há muita pretensão no “minimalismo” do Legião Urbana), o que significa poucas canções românticas e quase nada dos momentos bregas típicos do formato. As bandas de rock sempre foram comportadas demais no ambiente de acústico e o Ultraje a Rigor pelo menos tem alguns solos ágeis, uma bateria pegada, fala algumas idiotices e um ou outro palavrão (mais do que o necessário para entreter um pré-adolescente nos anos 2000).

15. Paulinho da Viola (2007)

O Paulinho da Viola é um mestre e ostenta essa postura mansa, com uma voz que é um veludo de tão terna, que só aumentam a aura de “ancião” em torno dele. Este álbum é uma aula de sambas melódicos, com altas doses de nostalgia nas mais antigas (“Coração Leviano”, “Para Um Amor no Recife”, “Nervos de Aço”) e uma serenidade que em algumas situações pode até soar maçante. É impressionante como o Paulinho da Viola consegue emocionar com suas performances sem parecer que derramou uma gota de suor para isso. Ele tem aquele vocal classudo, perfeitamente equilibrado entre o confortável e o corajoso. É o Acústico mais elegante, para o bem e para o mal.

14. Marcelo D2 (2004)

A combinação de rap e violão não é exatamente um conceito animador, mas no caso do Marcelo D2, a coisa acontece com alguma naturalidade. Ele já vinha desenvolvendo o samba-rap nos primeiros discos solo e a banda do Acústico – com o auxílio luxuoso do João Donato – segue essa direção. Tem performances menos inspiradas (“Loadeando”, com o então jovem-futuro-Sain, vira um reggae estilo Natiruts), só que sons como “1967” acabam com uma cara interessante de jazz-rap (chega a lembrar o Unplugged do Jay-Z com o The Roots). Duas curiosidades: este álbum leva o conceito tão a sério que até os scratchs são acústicos, graças ao Fernandinho Beat Box; e o Marechal é um dos backing vocals.

13. Engenheiros do Hawaii (2004)

O que há de importante na obra do Engenheiros do Hawaii saiu nos anos 1980 e no começo da década seguinte, tudo com aquele cheiro de naftalina de new wave e de parte do rock progressivo mais cabeçudo (muita coisa tem o timbre de guitarra que hoje poderia estar em qualquer som do Mac DeMarco). O Acústico reapresenta as melhores composições do Humberto Gessinger – o melhor do Engenheiros do Hawaii – em um formato mais direto, sem tanto conceito. É também uma das edições menos centradas no violão em relação às outras de rock, com piano e bandolim também revezando como instrumento principal (além da gaita marcante). A curiosidade é o lendário Lincoln Olivetti sendo responsável pelos arranjos do quarteto de cordas.

12. Moraes Moreira (1995)

Dos primórdios dos acústicos (o terceiro a ser lançado), este volume traz Moraes Moreira disposto a reinventar sons próprios e clássicos do Novos Baianos. Tem umas ousadias muito interessantes, como a simples “Preta Pretinha” virando um épico de quase dez minutos cheio de solos de todos os tipos e das intervenções amalucadas do cantor. Ele também explora as cordas em marchinhas e xotes (“Pombo Correio / Festa do Interior”), reforça os sambas com sanfona ou sopros (“Brasil Pandeiro”, “Lá Vem o Brasil Descendo a Ladeira”) e, como de costume, enche a plateia de histórias. Apesar de artisticamente ambicioso, é um dos volumes menos comerciais da série e, em geral, um dos menos lembrados pelo público.

11. O Rappa (2005)

Particularmente, prefiro O Rappa dos anos 1990, mas o Acústico, produzido pelo Carlos Eduardo Miranda (RIP), é uma exceção na discografia da banda nos 2000. Tem a ver com a plateia da banda ficar sempre muito louca nos shows, o que inflama a atmosfera, e também com a complexidade sonora. O Rappa sempre foi uma mistura bastante específica de música brasileira com reggae, rap e rock e, no Acústico, eles estão ainda mais percussivos, com cavaquinho — em faixas que não são sambas —, uma variedade de pianos e órgãos e a rabeca do Siba em “Homem Amarelo” (que é de fato um momento). O repertório é equilibrado e há situações realmente pesadas, raridade nos acústicos.

10. Kid Abelha (2002)

O Acústico do Kid Abelha também é um dos que soam limpinhos demais, porém carrega uma importância superior a dos outros de rock. Uma geração inteira conheceu esse Kid Abelha doce e sentimental, suficientemente diferente daquela banda new wave sintética dos anos 1980. Como aconteceu com o Engenheiros do Hawaii, conforme a estética oitentista foi ficando obsoleta — apesar do hype nostálgico recente mostrar que isso está já está mudando há algum tempo —, as versões “comuns” do Acústico se tornaram as definitivas da maioria das composições do Kid Abelha. E tem a Paula Toller de fato cantando bem, principalmente nas mais sofridas, o que não é algo tão comum assim com os roqueiros. É pop rock bem executado, justificando o posto de Acústico mais vendido até hoje pela MTV brasileira.

9. Art Popular (2000)

O Acústico do Art Popular é o pagode noventista ganhando status de teatro e dimensões de orquestra, com um dos maiores orçamentos da série investidos neste show. É interessante porque aproxima o samba romântico à soul music e joga luz sobre a conexão do gênero com o R&B (o pagode foi e ainda continua presente no que podemos entender como R&B brasileiro). Muita gente reclama que o hit “Temporal” deveria ter pelo menos um trecho cantado por Márcio Art, responsável pela voz na original, mas não deixa de ser curioso ouvir a faixa na interpretação de seu compositor, Leandro Lehart. O Jorge Ben Jor ainda engrossa o caldo na última faixa do disco, “Agamamou”.

8. Rita Lee (1998)

Boa parte dos fãs acredita que este volume poderia ter sido melhor. De fato, tirando uma excitante performance em conjunto com a Cássia Eller (“Luz del Fuego”) e o cover de “Gitâ” (Raul Seixas), são poucas as novidades (uma delas é a então inédita “O Gosto do Azedo”, de letra bisonha assinada por Beto Lee, então com 21 anos). Por outro lado, Rita Lee é uma das maiores autoridades no quesito canção pop rock e tem um repertório que, por si só, já é substancialmente mais representativo do que quase todo o resto dos artistas nesta lista. A inclinada ao formato também fez sentido para a época tranquila da carreira dela (já passando dos 50 anos de idade em 1998). O dueto com Milton Nascimento em “Mania de Você” é ouro puro.

7. Os Paralamas do Sucesso (1999)

Sem tantos convidados, sem orquestra e até dando uma trapaceada com uma guitarra, o Paralamas do Sucesso não inventou moda e fez um dos acústicos mais legais. A banda não quis cair nas “regrinhas” de todo Acústico e acabou acompanhada apenas pelo naipe de sopros e percussão já presentes nos shows normais, com o acréscimo de apenas um violão (tocado pelo Dado Villa Lobos, ex-Legião Urbana). No caso do Paralamas, a tática funciona: as músicas continuam com vigor e groove mesmo no ambiente orgânico. Tem covers de James Brown, Tim Maia e Nação Zumbi e uma preciosa versão de “Feira Moderna” (Beto Guedes, Lô Borges e Fernando Brant).

6. Jorge Ben (2002)

Este volume com certeza poderia estar melhor posicionado na lista, mas ele é parcialmente um golpe. Desde que trocou o violão pela guitarra no meio dos anos 1970 (a partir de África Brasil), Jorge Ben Jor nunca voltou a usar o instrumento acústico. A expectativa era de que esse show marcasse a volta dele ao violão de náilon e àquela sonoridade eternizada em álbuns como Samba Esquema Novo (1963) e Tábua de Esmeralda (1974), mas ele acabou optando por um violão de aço (de 12 cordas), tocado quase do mesmo jeito que uma guitarra. No fim das contas, essa abordagem acaba deixando tudo menos animado do que costuma ser (nas apresentações de Ben Jor), mas o acréscimo de cordas e sopros no estilão anos 1970 contribui para algumas faixas (“Take It Easy My Brother Charles”, “Menina Mulher da Pele Preta”) ficarem mais instigantes. Claro, ainda assim é Jorge Ben Jor, e com um repertório irretocável.



5. Charlie Brown Jr. (2003)

Basta ouvir a performance agressiva de “Hoje”, com participação do Marcelo Nova (Camisa de Vênus), para entender por que o Acústico do Charlie Brown Jr é tão único. Enquanto a maioria das bandas, quando tentam se adaptar ao violão, partem para a exploração da canção, a trupe do Chorão mostra que não é preciso de guitarras para soar parrudo. Não há concessões: é bateria acelerada, gritaria e a postura do malandro urbano eternizada pelo profeta menos sagaz da nossa música. Até mesmo nas participações — RZO e Marcelo D2, além do Nova —, ninguém chega para amaciar o som, e sim para contribuir na barulheira (a exceção é Negra Li, e em uma música de viés político). Para completar, as lentas (“Zóio De Lula”, “Tudo Que Ela Gosta de Escutar”) se encaixam como uma luva no formato, e algumas delas, como “Como Tudo Deve Ser” (ancorada no baixo viajante do Champignon), ficam até mais adequadas que as versões originais. O Acústico é a celebração do CBJr. no auge — e não um retorno à relevância —, entrosado e fazendo o que quer, logo antes de a banda voltar a trabalhar com Rick Bonadio e sofrer com desavenças entre integrantes, mudanças de formação e o trágico fim, dez anos depois, com a morte do Chorão.

4. Zeca Pagodinho (2003)

Tinha tudo para soar como qualquer outro lançamento ao vivo do gênero, ou do próprio Zeca Pagodinho. O que torna esse álbum diferente são os arranjos ostensivos que deixam o samba de partido alto — recheado de humor e histórias cotidianas da rua e dos guetos — muito mais grandioso. O Acústico do Zeca também saiu em 2003, refletindo um tempo de esperança bem específico do Brasil, logo após a primeira eleição de Lula e a conquista da Copa do Mundo de 2002 (pra quem não tem idade pra lembrar, “Deixa a Vida Me Levar” era a mais pedida nas resenhas e virou trilha sonora daquele time). É um clássico do churrascão de fim de semana (uma instituição nacional), ostentando os hits dos hits e o carisma inimitável do Zeca (outra instituição nacional).

3. Cássia Eller (2001)

Cássia Eller era uma intérprete e discos ao vivo de intérpretes têm a faca e o queijo para o sucesso. É basicamente isso que a cantora entrega: performances vocais tão inspiradas quanto ecléticas, da improvável “No, Je Ne Regrette Rien” (Edith Piaf) à sensível “Todo Amor Que Houver Nessa Vida” (Cazuza). Ela ficou conhecida pelas composições do Nando Reis (“Relicário”, “O Segundo Sol”, “Luz dos Olhos”), das quais se apossa sem nenhuma dificuldade, além da reinvenção completa de “Por Enquanto” (Legião Urbana) e a marca registrada “Malandragem” (Cazuza e Frejat). Mesmo ignorando essas faixas já saturadas de tão tocadas, o Acústico ainda traz Cássia absolutamente afiada em “Vá Morar Com o Diabo” (Riachão), “Partido Alto” (Chico Buarque), “Quando a Maré Encher” (Nação Zumbi), “De Esquina” (Xis) e “Top Top” (Mutantes). Mais que um amontoado de composições alheias bem cantadas, este álbum é profundamente pessoal: dá para entender quem era a cantora só pelas escolhas de repertório. E, apesar da carreira curta, não é nenhum absurdo dizer que o Acústico MTV é o disco definitivo da Cássia Eller.

2. Lulu Santos (2000)

Não é à toa que a versão acústica de “Apenas Mais Uma de Amor” é a música Top 1 de Lulu Santos no Spotify: não existe ambiente melhor para um hitmaker deste escalão do que um disco com a canção — e não sua estética — como foco. É Lulu, e não qualquer outra banda de rock, quem tem o repertório mais apelativo para as rodinhas de violão. Além disso, ele está com o gogó absolutamente em dia, entregando o tipo de performance esforçada que praticamente evoca o público a cantar junto. Lulu também soa sutilmente mais original em relação aos outros acústicos — o timbre brilhante do violão de 12 cordas casa perfeitamente com sons como “Tempos Modernos” e o medley “Sereia / De Repente Califórnia / Como uma Onda”. Mesmo com momentos pé na jaca, a atmosfera geral é ditada pelas baladinhas confiantes e um clima romântico meio fanfarrão. É um disco pra sentar e ter conversas não tão profundas sobre a vida, a trilha sonora do encontro casual para uma cerveja — e isso é o máximo que um Acústico pode oferecer, uma tradução literal e imediata do poder da música pop

1. Gilberto Gil (1994)

A escolha do primeiro lugar não chega a ser óbvia, mas ela é objetiva: assistir a toda a extensão do Acústico MTV do Gil é ter uma noção da dimensão do violão popular brasileiro. Não só pela importância histórica do instrumento na obra de Gil, mas pela espontaneidade com a qual ele visita todas as nuances da música (afro) brasileira, cujo núcleo é o elemento crucial desta série: o violão. De “A Novidade” a “Sampa”, Gil faz a distância entre reggae e a bossa nova parecer um passeio na praia, com um cardápio de grooves que vai da levada quebrada de “Refazenda” até o rebuliço de “Toda Menina Baiana”, passando por uma versão deliciosamente arrastada de “Esotérico”. O vozeirão precioso do Gil também está em um momento muito único: já amadurecido e minimamente desgastado, só que ainda profundo e potente (a performance dele em “Se Eu Quiser Falar Com Deus” — a música gospel da qual devemos nos orgulhar — é sublime). O Acústico do Gil é um dos únicos a transcender a banalidade do “banquinho e violão” e é também uma celebração do magnetismo da nossa cultura, cuja originalidade não está na pureza, e sim na capacidade de ressignificação. Curiosidade: o flautista da banda é um jovem (e quase irreconhecível) Lucas Santtana.

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