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O que os indígenas pensam sobre quem se fantasia de índio no Carnaval

"Chega de hipocrisia e de dizer que é homenagem."

por Marie Declercq e Julia Reis
01 Março 2019, 7:18pm

Os indígenas David Karai Popygua (à esq. / Foto: Felipe Larozza/VICE), Katú Mirim (no meio / Foto: Muriel Xavier/reprodução/Facebook) e Yuninni Terena (Foto: reprodução/Facebook). 

Muito se discute (e se reclama) sobre as fantasias que pegam mal no Carnaval brasileiro. Numa época em que a criatividade e bom humor deveriam reinar, muitos foliões ainda optam em sair com adereços e fantasias que podem ofender muitas pessoas – especialmente as maiorias minorizadas desse país. Sair fantasiado “de índio” no Carnaval outrora era encarado como algo corriqueiro, mas hoje em dia não há mais desculpa para alegar que se trata de uma homenagem ou que é apenas uma fantasia.

A população indígena no Brasil foi fadada à extinção desde a chegada dos portugueses que sistematicamente exploraram, estupraram, descaracterizaram e extinguiram diversas etnias. Da colonização até o século 21, a causa indígena continua sendo uma das mais urgentes no país e quem tem raízes indígenas ainda luta para sobreviver à constante ameaça de grileiros, latifundiários, autoridades e da própria população cheia de preconceito.

Portanto, sair fantasiado de “índio” não é uma homenagem ou apenas uma piada. É a maior prova de insensibilização com as raízes do seu próprio país. Para saber mais sobre isso, pedimos para que indígenas do Brasil dessem sua opinião sobre a fantasia que a galera não cansa de usar em todo Carnaval. Saque abaixo:

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Foto: Reprodução.

David Karai Popygua, 31, Aldeia Tekoa Ytu - São Paulo

A gente está num momento de muitos retrocessos por parte do governo. As falas do novo presidente têm inspirado e também motivado muitos crimes de ódio que estão acontecendo no Brasil. Hoje, nós que somos indígenas, temos a sensação de que estamos sendo caçados, perseguidos e atacados em todos os lugares. Temos exemplo do caso do cacique Francisco de Souza, de 53 anos, que foi assassinado essa semana com cinco tiros dentro de casa ou o caso do parente indígena de São Carlos que foi brutalmente atacado por três homens e acabou tendo o braço amputado.

Ou seja, a gente, que é indígena, está com receio de sair pra esse carnaval por conta desses ataques. Então estamos vivendo momentos muito tensos. Enquanto as pessoas estão curtindo o Carnaval vestidas de índio, a gente tá sendo atacado nas nossas aldeias e perdendo nossos direitos. Ser um indígena hoje não é motivo de festa, e sim de luta e de resistência. Os povos indígenas estão sendo mortos e atacados em todos os sentidos.

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Foto: Arquivo Pessoal.

Yuninni Terena, 21 anos, Aldeia Limão Verde - Mato Grosso do Sul

Nós lutamos contra a caracterização como indígena no Carnaval e em bailes a fantasia porque essa também é uma das maneiras de opressão vividas pelos povos originários, pois pegam elementos sagrados de nossa cultura, enraizados com fortes significados, pinturas e grafismos com definições, pré determinados para rituais ou momentos específicos e usam como fantasia, adereços de beleza e simples acessórios para diversão.

Legendam suas fotos com "índio por um dia" ou "virei índio" e se esquecem deles no resto do ano, ou não se importam com as mazelas sofridas pela etnia e nem querem somar forças e se juntar à luta.

Proponho o velho exercício "ponha-se no meu lugar". Pegar nossos símbolos e desrespeitar dessa maneira seria o mesmo que se caracterizar com elementos do cristianismo e sair por aí se divertindo.

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Katú é rapper e youtuber e foi uma das ativistas que levantou o movimento #Índionãoéfantasia em 2018. Foto: Reprodução/Facebook.

Katú Mirim, 32 anos, Boe - São Paulo

A fantasia de “índio” é um assunto polêmico. Mas antes de pensar em qualquer discussão sobre o assunto, vamos esclarecer desde já: não estou falando sobre apropriação cultural e sim sobre racismo.

Por que a fantasia é racista? Partindo da ideia de que a população nos conhece como "alegoria nacional”, acham que somos atrasados, selvagens, primitivos e que não sabemos falar português direito, por que não é racista? Não é okay pintar algo na cara, colocar cocar, falar “mim”, colocar uma fantasia de "índio" enquanto nós indígenas somos invisibilizadas, assassinadas e estupradas.

Para mim e muitas etnias, o cocar é símbolo de resistência. É sagrado, e não deve ser usado de qualquer maneira. Quando eu vejo a fantasia, a réplica barata de um cocar, eu só penso que esse racismo é aplaudido enquanto meu povo morre.

Chega de hipocrisia e de dizer que é homenagem, sinceramente, há formas ótimas de nos homenagearem... Principalmente quando falam sobre nós de maneira realista e não caricaturada. Quando dão visibilidade, quando fazem trabalhos pedagógicos que trabalham com nossas questões, quando se tem um processo educativo... Não precisa se fantasiar da gente para nos homenagear.

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