Entretenimento

Os memes finalmente chegaram ao museu

Por dentro da exposição do KnowYourMeme, que rastreia a evolução de duas décadas de memes.
Traduzido por Marina Schnoor
20 Setembro 2018, 6:50pm
Todas as fotos e GIFS por Marisa Gertz.

Tem alguma coisa prazerosamente estranha em entrar na exposição “Two Decades of Memes” no Museu da Imagem em Movimento de Nova York, e ver uma impressão enorme do famoso Cérebro Em Expansão pendurada na parede. Como cidadãos da internet, consumimos memes exclusivamente através de jpegs do tamanho de um ravioli esticados nas telas dos nossos celulares e computadores. Mas aqui, nas pareces austeras desse ambiente acadêmico – que também faz exposições sobre a evolução das câmeras de vídeo e da obra de Jim Henson – você tem um gostinho do futuro onde algumas das piadas mais bestas da história serão estudadas como parte da nossa história global.

A exposição tem curadoria do site KnowYourMeme, que já se estabeleceu como a autoridade centralizada do humor da internet. Como você já espera pelo nome, “Two Decades of Memes” é uma combinação de uma linha do tempo e uma galeria, que te guia por alguns dos artefatos mais famosos e virais da história do ciberespaço. Tudo começa em 1998, com o famoso monólogo “All Your Base Are Belong To Us” do fliperama dos anos 80 Zero Wing, que depois foi imortalizado num desenho em flash de mesmo nome. É um ponto inicial válido, e se encaixa perfeitamente com astro como os Rage Comics, o Pepe, a Namorada Ciumenta, etc., até que você recebe uma destilação de como os memes evoluíram e se diversificaram com a tecnologia. Tudo junto, isso te obriga a considerar como essa parte em particular da dicção da internet vivia originalmente nas páginas de fóruns pré-históricos como SomethingAwful, antes de chegar aos nossos lares através de lugares extremamente públicos como, digamos, o Instagram da Kim Kardashian.

“Me mudei da Coreia para os EUA depois do ensino fundamental, e a internet foi o jeito como me ajustei à cultura ocidental”, diz Brad Kim, editor-chefe do KnowYourMeme. “Foi tão útil que decidi estudar como essas ideias pegam e mudam. Com essa exposição eu queria apresentar uma narrativa singular que [rastreia memes] que interagem com como a mídia e o TI se desenvolveram nos últimos 20 anos.”

Além da parte visual da exposição. O KnowYourMeme realizou um simpósio com palestrantes que abordaram alguns dos muitos ângulos intelectuais sobre a maturação do humor online. Amanda Brennan, que trabalha no Tumblr, fez uma apresentação de slides sobre a história (e prosperidade) dos gatos na internet. Ari Spool do GIPHY liderou uma discussão sobre a renascença contínua do GIF. Kim apresentou uma conversa sobre a intersecção de artistas de meme e o mundo da arte. E Eve Peyser e Peter Slattery da VICE também participaram de painéis, examinando por que o humor millennial é tão estranho/sombrio e análise de memes respectivamente. Essencialmente, a exposição argumenta que as pessoas devem levar os memes a sério; que essas piadas efêmeras que cruzam nossa linha do tempo diariamente dizem alguma coisa quando colocadas sob o microscópio. “Quero trazer [os memes] para um nível além [da piada]”, disse Kim. “E investigar como eles interagem com as questões sociais no mundo.”

É um desafio audacioso. É difícil saber como arquivar e analisar memes de maneira significativa em 2018, quando o formato ainda é tão novo e está em fluxo constante. E também não tem muita coisa com que comparar isso. Por exemplo, o Museu da Imagem em Movimento faz muito trabalho na indústria cinematográfica, que tem sua própria tradição sobre teoria e crítica de filmes. Essa infraestrutura não existe ainda para, digamos, uma imagem macro de um cérebro se expandindo. Não, os memes são novos demais, e muito insurgentes, para serem examinados com um olhar objetivo. Nesse sentido, o trabalho do KnowYourMeme está numa fronteira cultural.

No final das contas, a exposição Two Decades of Memes é uma tentativa nobre de canonizar uma crônica breve do folclore da internet, mas não aborda como os memes estão se tornando mais políticos, mais meta, com os anos. O Sapo Pepe foi sequestrado por uma comunidade internacional de racistas – não foi o primeiro exemplo disso, e com certeza não será o último, e Kim me disse que gostaria de explorar uma leitura mais profunda da politização do humor na internet no futuro.

Claro, tem quem ache que memes não são dignos de discurso acadêmico, uma posição compreensível, que mencionei para o diretor do Museu da Imagem em Movimento Carl Goodman. Ele quer lembrar a quem pensa assim que um dos primeiros filmes feitos para Kinetoscope, um aparelho de imagens em movimento do século 19, era de dois gatos numa caixa – basicamente um GIF do Tumblr. A mídia, mesmo quando considerada boba ou frívola, ainda pode ser crucial.

“De certa maneira, temos uma responsabilidade de contribuir com o zeitgeist. Não estamos reagindo a essas novas formas de expressão, estamos ajudando as pessoas a olharem para elas de maneira mais séria”, diz Goodman. “Temos que cumprir nossa responsabilidade como museu, que é nos certificar que as coisas que vamos ver no futuro como significativas, influentes e inspiradoras estejam disponíveis não só para o público, mas para acadêmicos e outros que querem documentar a história que vivemos.”

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