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Broadly

'Teeth' é o clássico de terror feminista que os homens tentaram sabotar

No aniversário de dez anos do longa, a produtora e o diretor do filme explicaram como a vagina dentata virou cult entre jovens mulheres.

por Sirin Kale; Traduzido por Marina Schnoor
11 Setembro 2017, 5:05pm

Foto cortesia de Joyce Pierpoline.

Esta matéria foi originalmente publicada no Broadly .

"Geralmente, quando estou falando com alguém e digo: 'Produzi Teeth'", diz Joyce Pierpoline, "a linguagem corporal da pessoa muda completamente!"

Estou falando com a produtora da comédia de terror cult de 2007 Teeth [que ganhou o título sutil Vagina Dentada em português], na Academia de Cinema e Televisão em Londres. Ao nosso redor, executivos da indústria em ternos caros digitam em MacBooks ou fazem brindes comemorando futuros acordos.

Pierpoline, uma mulher de cabelos pretos, usando grandes joias prateadas e tênis de pelúcia, fica ainda mais animada. "E aí", ela continua, "a pessoa se afasta de mim" — ela se afasta um pouco e cruza as pernas para demonstrar — "e diz 'Ah, você produziu aquilo?'"

Faz uma década desde que a comédia de terror de baixo orçamento estreou no Sundance com críticas positivas (a atriz principal, Jess Weixler, recebeu o Prêmio Especial do Júri por Atuação). Escrito e dirigido por Mitchell Lichtenstein, filho do famoso artista pop Roy Lichtenstein, Teeth acompanha a estudante Dawn O'Keefe, uma garota evangélica parte do movimento pela pureza.

O filme começa com O'Keefe e seu irmão postiço Brad, ainda crianças, numa piscina infantil, onde descobrimos o segredo da protagonista — ela tem uma vagina dentata (vagina dentada em latim). Brad tenta molestá-la e acaba com um dedo sangrando. Teeth segue O'Keefe enquanto ela navega pelas lutas da adolescência: manter seu voto de virgindade numa cultura obcecada por sexo, enquanto tenta escapar das investidas indesejáveis de seu irmão postiço e colegas de classe. Ela também tenta cuidar da mãe doente, cuja doença parece ter alguma ligação com a usina nuclear por onde O'Keefe passa de bicicleta indo para a escola.

Uma crítica poderosa à cultura da pureza nos EUA, Teeth também é um comentário incisivo sobre o tóxico comportamento masculino, levanta questões sobre o consentimento e a violência sexual. Apesar da resposta positiva da crítica, Teeth foi mal nas bilheterias. Com um lançamento limitado nos cinemas em 18 de janeiro de 2008, Teeth quase não recuperou seus US$2 milhões de orçamento. E pior, o filme foi superado nas bilheterias por Vestida Para Casar de Katherine Heigl, uma comédia romântica chatinha sobre uma eterna dama de honra. Mas com o tempo, Teeth foi ganhando uma nova importância no universo cinematográfico.

O que não quer dizer que todo mundo ama o filme. Uma crítica feminista conhecida a quem pedi comentários não quis falar sobre Teeth, por ser um filme escrito e dirigido por um homem. Alexandra Heller-Nicholas, que devotou um capítulo para o filme em seu livro de 2010 Rape-Revenge Films: A Critical Study, se sentia de modo similar. "Só porque você faz um filme sobre o monstruoso feminino isso não te dá passe livre para o cânone dos filmes de terror feministas", ela escreveu por e-mail à VICE. " Teeth tem um ótimo conceito, mas o produto final parece mais preocupado com o que corpos de mulheres podem fazer com homens do que com mulheres e seus corpos." Partes do filme envelheceram mal enquanto a conscientização sobre consentimento crescia — especialmente uma cena na qual o colega de classe de Dawn, Ryan, dá um sedativo a ela antes de a masturbar com um vibrador. (Um erro que Mitchell Lichtenstein reconhece abertamente durante nossa conversa.)

No entanto, dez anos depois de seu lançamento, Teeth vem ganhando novos fãs — especialmente enquanto o streaming online traz o longa para um público mais jovem. "Eu estava na casa de uma amiga em Nova Jersey", conta Pierpoline, "e a filha de 16 anos dela gritou: 'Você fez Teeth? Eu e minhas amigas amamos esse filme!'" Ela praticamente brilha enquanto fala sobre distribuir cartazes de Teeth numa exibição para um público de garotas fãs do filme: "Foi muito legal."

Dawn O'Keefe, interpretada por Jess Weixler. Foto cortesia de Joyce Pierpoline.

"Meu empresário na época me disse 'Não mostre [o roteiro de Teeth] pra ninguém'", Liechtenstein me conta por Skype de sua casa no Maine. "Ele disse: 'Quem ler isso não vai ler mais nada que você escrever'" Por quê? "A indústria do cinema ainda é comandada por homens, acho, e eles não gostam da ideia de ver pintos decepados. A maioria dos homens não quer ver isso." Como resultado, Teeth teve que ser produzido com financiamento privado. Todos os estúdios — até os europeus que Liechtenstein e Pierpoline acharam que seriam mais liberais com vaginas — o recusaram.

Se a mensagem geral do filme é que babacas tem o pinto (com piercing genital e tudo) comido por cachorros, a mensagem secundária é que os homens vão tentar obstruir seu filme de vagina dentada de todos os lados, desde aceitar o roteiro até a pós-produção. (Falando nisso, nenhum cachorro foi machucado durante as filmagens de Teeth, o piercing usado foi feito de açúcar por uma padaria local.)

E mesmo quando o dinheiro foi assegurado, filmar Teeth foi um processo árduo. "Precisávamos de um cenário de hospital, uma escola e uma casa", lembra Lichenstein. Antes de começar as filmagens, ele e Pierpoline foram para Austin à procura de locações. Um agente imobiliário local ficou feliz em os levar para vários cenários em potencial. Isso até descobrir do que Teeth se tratava. "Entre nos levar para os imóveis de manhã e nos buscar à tarde, ele leu o roteiro. Ele não só não ia mais nos ajudar, como ligar para os lugares que visitamos e dizer que estávamos fazendo um filme pornô, para eles não nos deixarem filmar lá." Teimosa, a equipe bastante unida (eles usaram anéis de castidade combinando durante as filmagens — Pierpoline ainda usa do dela) insistiu e encontrou locações alternativas na cidade.

"Ou o estúdio não entendeu ou foi misoginia." – Mitchell Liechtenstein. Foto cortesia de Joyce Pierpoline.

E Teeth com certeza não é um pornô. Mas também não é terror; pelo menos não totalmente. Apesar de Dawn poder e realmente castrar homens — pintos ensanguentados caem no chão com certa regularidade no filme — Teeth não faz de Dawn um monstro. Sua vagina dentata só morde quando ela está sendo violada ou estuprada; de outra maneira ela é capaz de fazer sexo consensual sem castração. Sem surpresa, a metáfora para sexo consensual passou batida para (a maioria) dos críticos homens do filme. Aqui, o crítico Jim Emerson fala sobre uma das principais cenas do filme:

"Como animais sem princípios que não aceitam 'não' como resposta, o filme sugere que os homens merecem o que recebem. Ainda assim, quando a primeira vítima de Dawn olha para abaixo e vê que ele não é nem a metade do homem que costumava ser, ele parece genuinamente magoado — tanto pela rejeição quanto pela castração. De um jeito sangrento e com temática de amor adolescente, essa cena é até tocante."

A cena que Emerson descreve acontece numa cachoeira, onde um beijo consensual entre Dawn e seu colega Tobey se torna uma tentativa de estupro. (Dawn grita: "Me solta." Tobey: "Você não precisa fazer nada". Dawn: "Não! Não! Caramba. Pare! Tobey! NÃO!") Vendo Dawn lutar contra o agressor, estamos claramente assistindo um ataque sexual violento, mas Emerson minimiza o estupro de Tobey como ardor de "amor adolescente", e imagina o cara, não Dawn, como a "vítima".

Como Emerson, os executivos dos estúdios não entenderam, ou não quiseram entender, Teeth. "Ou o estúdio não entendeu ou foi misoginia. Eu acho que foi misoginia mesmo", diz Liechtenstein. "A distribuidora [Roadside Attractions] queria vender o filme como simplesmente terror, contra minhas objeções, e acho que o venderam do modo errado para o público. Eles estragaram tudo.

"A boa notícia é que as pessoas sentem que descobriram o filme sozinhas, não que tiveram que engoli-lo por hype publicitário. É uma coisa de boca a boca, e esse é um jeito mais sincero de descobrir o filme."

Pierpoline não fica constrangida em dar nomes. Uma década depois, ela ainda está puta com como os executivos lidaram com o lançamento do filme. "Se a Lionsgate tivesse feito uma campanha de marketing diferente e gastado mais para levar o filme para um público maior, isso teria ajudado Teeth", ela diz. Quando o filme saiu, os estúdios estavam tentando replicar o sucesso de pornôs de tortura como a franquia Jogos Mortais; Jogos Mortais 3 saiu um ano depois que Teeth estreou no Sundance: "A Lionsgate... queria filmes como Jogos Mortais e tudo mais, e não éramos isso."

Ela pega um iPad e me mostra a campanha de marketing que eles tinham imaginado inicialmente para o filme. "Queríamos que ela tivesse esse visual fofo", ela explica, pausando num cartaz que ela e Lichenstein criaram. Weixler está puxando uma camiseta escrito "Aviso: Sexo Muda Tudo" para cobrir a virilha, que é tapada por uma enorme estrela dourada, como os adesivos que os professores criacionistas de Dawn usam para cobrir as páginas dos livros didáticos sobre sistema reprodutor feminino. Dawn está mordendo os lábios e com os olhos arregalados numa expressão divertida.

O cartaz alternativo de Teeth . Imagem cortesia de Mitchell Lichtenstein.

É um pôster muito diferente do usado pela distribuidora no final das contas. O cartaz de Lichtenstein e Pierpoline mostra uma heroína descabelada com quem é fácil se identificar. Ele implica corretamente que Teeth é uma comédia tanto quanto um filme de terror. O cartaz da distribuidora usa só tropos do terror: Dawn deitada numa banheira branca, seu rosto sem nenhuma emoção, nenhum traço da inteligência que Weixler traz para o papel, evidente no primeiro pôster. Embaixo, a palavra "Teeth" está escrita em vermelho sangue num fundo preto.

Eu era adolescente quando Teeth foi lançado, e lembro que não quis assistir o filme porque o cartaz era assustador. Quando menciono isso para Pierpoline, seus olhos ficam mais escuros e ela se mexe com irritação. "Acho que era um filme à frente de seu tempo, e não acho que a campanha de marketing realmente abordou isso. As pessoas ficaram hesitantes em encará-lo."

Agora, Pierpoline e Liechtenstein estão tentando fazer um remake de Teeth para a TV. Apesar da passagem do tempo ter em grande parte ajudado o filme, eles ainda estão sendo rejeitados de novo e de novo. Parece que um programa sobre vagina dentata em 2017 não é mais palatável para os executivos de Hollywood que um filme sobre vagina dentata em 2007.

"Adoraríamos fazer uma série de TV com Dawn como um anjo vingativo estilo Dexter, mas não acho que as pessoas estão necessariamente prontas para isso", ela explica. "Muitos homens ainda comandam agências e departamentos. E essa continua sendo uma série sobre vaginas."

Como o empresário disse a Lichenstein dez anos atrás, os executivos puxaram Pierpoline de lado e disseram a ela que um remake para a TV seria uma má ideia. Mas ela ainda se recusa a aceitar um não como resposta. "E eu disse, por que não?", ela exclama. "É original. É divertido. É sobre uma mulher forte."

Mas Pierpoline não vai em desistir tão cedo. Antes de ir, me vejo prometendo a ela que vou mandar um contato relevante da VICE para quem ela possa mostrar sua ideia do remake. "Então vou ter notícias suas", ela diz, com firmeza. Quem sabe? Talvez um dia, Dawn O'Keefe viva de novo para arrancar outros pintos.

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