Viagem

As loucas coincidências nas fotos de Pau Buscató

Um fotógrafo obcecado que passa sete horas por dia procurando momentos malucos pelas ruas.

por Beckett Mufson; Traduzido por Marina Schnoor
20 Abril 2018, 2:00pm

Fotos por Pau Buscató.

O fracasso é uma parte vital do trabalho do ex-arquiteto nascido em Barcelona, que agora mora em Oslo, Pau Buscató. Ele faz fotos divertidas de pessoas, animais e objetos se sobrepondo de maneiras inesperadas. As imagens parecem fotoshopadas, ou pelo menos encenadas, mas não são. Buscató faz centenas de tentativas, e às vezes leva anos para tirar a foto perfeita. Os resultados são como uma boa piada.

Buscató ganhou sua primeira câmera profissional em 2010, e quase imediatamente largou seu trabalho de oito horas por dia para fotografar em tempo integral. Ele costuma passar sete horas por dia andando pelas ruas, e geralmente dispara seu obturador umas 400 vezes por sessão. Esses números dobram quando ele viaja para Nova York ou Índia, ou outros lugares que não são sua casa. Ele chama sua técnica de “amarelinha”, pois vê a vida mundana como um jogo.

A ideia veio da infância brincando com o irmão e a irmã num vilarejo em Ibiza, Espanha. “Objetos comuns e ideias simples nos mantinham entretidos por horas”, conta. “O que faço hoje não é muito diferente, exceto que faço sozinho e com a câmera na mão. Mas ainda tenho a mesma sensação de diversão, de brincar com as coisas ordinárias que encontro.”

Essas fotos são engraçadas por necessidade. Elas exigem uma prática disciplinada de não se entediar com pessoas e lugares que Buscató já viu milhões de vezes. “A familiaridade com o que nos cerca pode acabar nos cegando, então tentar ver seu ambiente com olhos novos e a mente aberta sempre ajuda”, fala. É uma lição para todo mundo preso num lugar, emprego ou situação chatos.

O segredo é uma combinação de paciência e reconhecimento de que ele está no lugar certo na hora certa. “Às vezes as fotos simplesmente vão crescendo”, pontua. “Um elemento ou pessoa simples chama minha atenção, e começo a fotografar; aí outro elemento aparece, e acho um jeito de ligá-los. Outras vezes as coisas acontecem tão rápido que é uma questão de reflexo.”

Buscató vende suas fotos em seu site e é membro do coletivo de arte Burn My Eye. Ele também ganha dinheiro dando intensivos de fotografia de rua que podem durar até 12 horas. Abaixo, ele compartilhou algumas de suas fotos favoritas com a gente, junto com as histórias de como ele capturou três delas.

“Essa é uma sequência de pássaros tirada em Leicester Square, Londres. A foto mostra pássaros pintados, um pássaro imaginário e um real. Tirei essa em julho de 2016, mas já tinha tentado fazer algo similar no mesmo lugar um ano antes. Em 2015, tentei tirar algumas fotos para acrescentar um pombo real (eles estavam voando por ali) na sequência dos pássaros pintados. Meio que consegui, mas achei o resultado chato, então deixei de lado e esqueci a história toda. Um ano depois, eu estava em outra viagem para Londres para fotografar, e depois de quatro dias na cidade, notei a mesma cerca com os pássaros pintados, mas não prestei muita atenção. Horas depois, passei pelo mesmo lugar e vi um detalhe que mudava tudo: tinha um rasgo no tecido que meu olho viu como outro pássaro. Foi quando fiquei obcecado, e passei meus últimos dois dias ali tentando pegar o momento certo. Tentei várias coisas, e depois de centenas de fracassos, consegui a foto.”
"Essa é um caso estranho. Encontrei essa foto enquanto procurava um endereço no Google Street View."
"Essa foto, tirada em Barcelona, é uma ligação geométrica entre linhas amarelas na rua e a bengala desse homem. Elas meio que criam uma flecha que, do lado direito, parece sair da orelha de outro homem. Primeiro notei a bengala amarela e comecei a fotografar. Segui o homem com a bengala por alguns metros até ele parar no cruzamento. Foi aí que vi as linhas amarelas no asfalto, então levantei minha câmera para ver se era possível ligar todas as coisas, e enquanto eu fazia isso o homem da direita apareceu e completou a foto daquele lado. Tive sorte com os detalhes, como os homens estarem usando roupas da mesma cor, e o gesto da mão do homem da esquerda, que equilibrou o enquadramento naquele canto."

Veja mais do trabalho de Pau Buscató no site dele.

Mande o site do seu fotógrafo favorito para o Beckett Mufson no Twitter.

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