Delete todos os seus aplicativos

Não é só o Facebook: lojas de aplicativos para Android e iOS incentivam uma economia que vende seus dados e históricos de localização para anunciantes. Eis como se precaver.

por Jason Koebler; Traduzido por Marina Schnoor
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12 Dezembro 2018, 9:00am

Imagem: Shutterstock.

Na manhã de segunda-feira, o New York Times publicou uma investigação chocante: após revisar um enorme banco de dados anônimos de localização de celulares, o jornal descobriu que fornecedores terceirizados “desanonimizavam” essas informações e rastreavam pessoas comuns – incluindo paradas em lugares como clínicas de aborto, casas e locais de trabalho.

A matéria desnudou o que o pessoal mais paranóico com privacidade suspeitava há anos: os aplicativos no seu celular estão te vigiando e, apesar de toda a conversa sobre anonimato e coleta de forma agregada, nossos hábitos são tão específicos – e muitas vezes únicos – que identificadores anônimos podem sofrer engenharia reversa e ser usados para rastrear indivíduos.

Junto à investigação, o New York Times publicou um guia para gerenciar e restringir dados de localização em aplicativos específicos. É mais fácil fazer isso no iOS que no Android, e é algo que todo mundo deveria fazer de vez em quando. Mas a conclusão principal é que não só temos que ser mais escrupulosos com nossas configurações de dados de localização: temos que ser muito, muito mais restritivos com os aplicativos que instalamos no celular.

Onde quer que vá, você está carregando um aparelho que não só tem um chip de GPS pensado para rastrear sua localização, mas também conexões de internet e LTE que visam transmitir essa informação para terceiros, muitos deles monetizando esses dados. Dados aproximados de localização podem ser obtidos rastreando as torres de celular a que seu telefone se conecta, e o melhor jeito de garantir sua privacidade seria ter um celular não-inteligente, um iPod Touch ou não ter celular nenhum. Mas, como para a maioria isso não é nem um pouco prático, vale a pena prestar mais atenção nos tipos de aplicativos que instalamos no nosso celular e sua proposição de valores – para nós e seus desenvolvedores.

Uma boa pergunta para fazer a si mesmo quando você avalia seus aplicativos é “por que esse app existe?”

As primeiras decisões da Apple, Google e desenvolvedores de aplicativos continuam a nos assombrar mais de uma década depois. Falando ampla e historicamente, estamos dispostos a gastar milhares de dólares num celular, mas recusamos a ideia de gastar US$ 0,99 num aplicativo. Nossa relutância a realmente pagar pelos aplicativos teve um custo incalculável para nossa privacidade. Mesmo apps de lanterna ou barulho de peido não são grátis para fazer, e a maioria dos aplicativos “gratuitos” não são altruístas – eles são pensados para fazer dinheiro, o que geralmente significa colher e revender nossos dados.

Uma boa pergunta para fazer a si mesmo quando você avalia seus aplicativos é “por que esse app existe?” Se existe porque você precisa pagar pra tê-lo, ou porque é uma extensão gratuita de um serviço que custa dinheiro, então ele tem mais chances de se sustentar sozinho sem colher e vender nossos dados. Se é um aplicativo grátis que existe com o único propósito de juntar o maior número possível de usuários, ele provavelmente está monetizando ao vender dados para anunciantes.

O New York Times apontou que muitos dos dados usados para sua investigação vieram de aplicativos gratuitos de previsão do tempo ou placares esportivos que vendem os dados de seus usuários; centenas de jogos grátis, aplicativos de lanterna e de podcast que pedem permissões que não precisam realmente com o único propósito de lucrar com seus dados.

Mesmo aplicativos que não são armadilhas de dados descaradas também funcionam assim: Facebook e seu conjunto de aplicativos (Instagram, Messenger, etc.) coletam muitos dados sobre você, do seu comportamento nos aplicativos em si mas também diretamente do seu celular (o Facebook foi longe para tentar esconder que seu aplicativo de Android estava coletando dados de chamadas telefônicas). E o Android em si é um ecossistema de smartphone que também serve como outro aparato de coleta de dados para o Google. A menos que você se sinta particularmente inclinado a ler as políticas de privacidade que têm dezenas de páginas para cada aplicativo que você baixa, vai saber que informações aplicativos de notícia, podcasts, linhas aéreas, compra de ingressos, viagens e redes sociais estão coletando e vendendo.

E o problema só está piorando: o Facebook passou o WhatsApp, um aplicativo que conseguiu ser lucrativo por uma taxa de inscrição anual de US$1, para um serviço “gratuito” porque acreditava que poderia lucrar mais com um modelo de negócio baseado em publicidade.

Isso significa que o modelo de negócio dominante nos nossos celulares é um que monetiza você, e só prestando muita atenção nas permissões de aplicativo e procurando alternativas pagas você consegue minimizar esses impactos em si mesmo. Se isso te preocupa, sua única opção é se livrar do seu smartphone ou repensar que apps estão instalados nele e agir de acordo.

Pode ser uma boa hora para se livrar de todos os aplicativos de uso único que são basicamente sites repaginados. Falando no geral, é mais seguro, do ponto de vista da privacidade, acessar nossos dados de um navegador, mesmo se for menos conveniente. Ou pode ser hora de deletar todos os seus aplicativos e começar a usar apenas apps que respeitem sua privacidade e tenham um modelo de negócio sustentável que não dependa de vender seus dados. No iOS, isso pode significar usar aplicativos da própria Apple, mesmo se eles não funcionarem tão bem quanto as versões de terceiros.

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