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A reintegração de posse da ocupação São João parou o centro de SP

Busão queimando, gente fazendo selfie, bomba estourando e famílias sem ter pra onde ir.

por Débora Lopes; fotos por Felipe Larozza
16 Setembro 2014, 6:00pm

Alguma coisa aconteceu entre a Avenida Ipiranga e a São João, em São Paulo. Foi a Polícia Militar e o Judiciário arrancando 200 famílias da Ocupação São João, há seis meses instalada num prédio do antigo hotel Aquários – que nunca funcionou, por sinal. 

Silmara, líder da FLM (Frente de Luta por Moradia), conta que o acordo com a polícia foi firmado num batalhão: a reintegração de posse seria pacífica e contaria com 40 caminhões e 120 homens para ajudar os moradores a retirar seus pertences. Ela relata que, do nada, uma bomba de efeito moral foi jogada pela PM dentro do prédio. A partir daí, surgiu a resistência dos ocupantes e o fogo na Babilônia foi oficialmente instaurado. Objetos e até móveis foram arremessados na rua. A PM nega que tenha começado a atacar de maneira injusta e explica que 250 homens estavam presentes no local desde as duas da manhã negociando com os moradores. Inclusive, a Ponte fez um vídeo massa de dentro do prédio.

"As famílias estavam lá dentro, tinha até cadeirante. Teve criança desmaiando – inclusive, uma estava caída na escada. Foram todas levadas para o 3º DP.” O PM Paulo confirma a informação, mas diz que ninguém está preso lá. “O delegado está qualificando as pessoas. Pegando nome, dados. As pessoas assinam e vão embora”, ele justifica.

Assim que a Tropa de Choque se aprumou, ocupantes passaram a fazer barricadas de fogo para impedir o acesso. Bombas de gás lacrimogêneo pipocavam pelo centro. Trabalhadores corriam, tiravam fotos. 

“Isso aqui é resistência. Não tem outra forma. Estamos sendo reprimidos. De manhã, [a polícia] bateu na nossa porta e jogou bomba de gás lacrimogêneo com criança lá dentro”, relata Tatiane, moradora da ocupação. 

“A Tropa de Choque tá nervosa hoje”, disse o Taba Benedicto, um amigo fotógrafo que me puxava pelo braço enquanto corríamos das bombas.

Entre os moradores da São João que faziam a resistência, a coisa também estava tensa.

“Mano, os moleques vão botar fogo no busão”, disse um cara ao fotógrafo da VICE Felipe Larozza que, prontamente, colou junto. Álcool, uma camisa social branca no estofado e, em poucos minutos, o 8622/10 Morro Doce – Praça Ramos coloriu o céu do centro da cidade com uma fumaça preta e densa.

Embora houvesse todo um horror na situação, os trabalhadores da região sacaram seus "espertofones" do bolso; maravilhados, assistiam à ação da PM, ao fogo, aos bombeiros, à imprensa, às bombas estourando, aos caras encapuzados colhendo pedras e arremessando contra a Tropa de Choque. Era um espetáculo particular.

Em dado momento, avistamos uma confusão. Pelo relato de quem estava lá, uma menina jogou uma garrafa plástica em direção à polícia. Nisso, um cara com um colete escrito "reportagem" supostamente teria dado um tapa na cara da moça. Foi bem caótico. O suposto mano da imprensa acabou sendo achincalhado pela galera e tomou uma cusparada de uma menina. Minutos depois, duas garotas foram carregadas até a viatura de maneira truculenta. Fiz um vídeo com o celular. Aqui está:

 

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Segundo a PM, 70 pessoas foram encaminhadas às delegacias da região. Uma delas é menor de idade e já possui passagens pela polícia. Duas foram detidas por agressão a PMs. Seis pessoas foram levadas à 77º DP, onde estão sendo investigadas por saques nas lojas dos arredores. Quatro policiais saíram machucados do confronto - um deles com o pé quebrado. 

Uma das garotas do vídeo [que foi levada pela viatura] passou mal e um PM não identificado disse que elas seriam encaminhadas para o Pronto Socorro. 

Outras questões ainda ficam no ar. Silmara, da FLM, me lembra da principal delas: “Os móveis foram para um depósito e as famílias vão para a rua. Elas não têm pra onde ir”.

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