O Instagram transformou todo mundo em stalker

Perguntei a várias pessoas o que elas acompanham na plataforma e por quê, numa tentativa de entender melhor nossos estranhos hábitos online.

por Daisy Jones; Traduzido por Marina Schnoor
03 Setembro 2019, 10:00am

Colagem por Alia Wilhelm.

Agora essa já é uma história familiar. No último verão, uma amiga tomou um perdido de um homem com quem ela estava saindo há seis meses. Ele não deu nenhum sinal de que isso ia acontecer, só parou de responder mensagens. Se fosse em 1999, você poderia achar que seu ex tinha desaparecido. Talvez você ligasse para o telefone da casa dele algumas vezes, até desistir. Mas hoje, você sabe exatamente onde a pessoa está, o que ela está fazendo e com quem ela está namorando agora. Não só pelo que a pessoa posta no Instagram, mas através das postagens dos amigos, de amigos de amigos, com data e hora precisamente mapeadas como um jogo de ligar os pontinhos digital.

O Instagram transformou todos nós em stalkers. Se isso parece muito óbvio, é porque é mesmo. Esmiuçar contas de pessoas em quem estamos interessados de alguma forma se tornou um comportamento padrão na internet. Talvez você veja regularmente as fotos da sua ex, comparando sua franja com a dela e passando pela seleção de aquarelas de animais que ela pintou em 2013. Talvez você acompanhe a vida desse casal que mal conhece, aí fica pessoalmente puta quando ele larga ela para ficar com alguém que conheceu numa viagem. E talvez você não faça nada disso – só vive e respira o momento, e nesse caso, parabéns, ô, Pocahontas.

A razão para stalkearmos alguém no IG são multifacetadas e complexas, e provavelmente variam de pessoa pra pessoa. É natural querer encontrar respostas para dúvidas, e quando elas estão bem na sua frente, você vai procurá-las mesmo. E outras pessoas são interessantes. A trajetória de vida delas é diferente da sua. Assim como sua estética, personalidade, dinheiro e interesses. Todos esses dados são achatados numa tela para vermos e tirarmos nossas próprias conclusões. E tudo isso soaria problemático se não fosse tão normalizado. Com isso em mente, falei com algumas pessoas sobre quem elas stalkeiam e por quê, numa tentativa de entender melhor nossos estranhos hábitos online.

“Tenho essa compulsão de acompanhar a vida das pessoas que conheci na escola”

"Não consigo parar de stalkear pessoas do meu colégio. Não tenho mais contato na vida real com elas e todo mundo parece viver na internet, então é tipo uma reunião do ensino médio sem aquela pressão toda. Minha escola era no oeste de Londres, uma escola particular. Tenho essa compulsão de acompanhar a vida desse pessoal. Sentei do lado delas todo dia por sete anos, então se a pessoa está tendo sucesso e indo bem na vida, penso “fizemos literalmente a mesma coisa, por que não estou nesse ponto?” ou “O que estou fazendo? Por que não me esforço mais na vida?”

Tem sempre as mesmas pessoas no topo do meu feed, por causa do algoritmo. Tem uma garota que está morando e viajando pela Austrália, outra é escritora. E tem essa garota em particular que tem um podcast, um site e está fazendo um monte de coisas loucas, como viajar de três em três meses enquanto faz um curso universitário de Estudos Orientais e Africanos.... Como?!" Zara, 29 anos

“Não tenho contato com meus ex-namorados, então esse é o único jeito de ver o que eles andam fazendo”

"Stalkeio meus ex-namorados... mas é tipo um reflexo? Faço isso porque realmente me importo com eles? Não tenho sentimentos por esses caras. Mas não estou mais em contato com eles no geral, então esse é o único jeito de saber o que eles andam fazendo.

Também acho que é como um espelho. Quanto mais o tempo passa, e mais você vê alguém mudar, isso te faz pensar em como você mudou, e onde você está em relação a essa pessoa, esse tipo de coisa. O que dá vergonha é que quando você procura a pessoa regularmente e o nome dela aparece no seu histórico de busca, porque o Instagram sabe o que você está fazendo. E isso me faz pensar se eles também veem minhas coisas. E aí você pensa consigo mesma “Me importo com isso? Na verdade não”. Sinead, 27 anos

“Stalkeio ela esperando que ela esteja triste por ter sumido três meses atrás”

"Infelizmente sou vítima daquela doença “ficar obcecada por alguém que disse que te amava e sumiu quase imediatamente depois”. Faz uns três meses que nos falamos pela última vez, e posso dizer que esse fato me fornece o tormento diário de ficar imaginando se um dia vou ser feliz com alguém. Como resultado, vejo o perfil dela regularmente (quase todo dia). E sim, machuco meu orgulho assistindo os stories dela também, para lembrar pra ela que estou aqui, estou vendo, esperando aquela reposta, babe.

Sabe aquele meme "estou na merda, quero ela de volta"? E isso que quero ver. Acho que stalkeio ela esperando que ela esteja triste por ter sumido da minha vida três meses atrás. Também me mantenho atualizada no caso dela fazer algo drástico e devastador que mostre que ela não me superou, como cortar a franja. O que eu sei é que ela pintou o cabelo de roxo agora, parece estar amando sua vida maravilhosa, e com certeza nunca assiste meus stories, o que eu acho uma falta de educação. Digo pra mim mesma que ela está convencida de que seria doloroso demais me ver radiante no gram (risos), mas todo mundo sabe que é porque ela tem uma namorada nova. A coisa mais irritante, por causa da natureza dos relacionamentos queer entre garotas, é que nunca vou saber se essa menina que ela está abraçando e dizendo que ama no stories é uma amante ou amiga mesmo. Certeza que é só uma amiga." Grace, 26 anos

“Meu parceiro tem um amante que nunca conheci”

"Tenho um relacionamento aberto há três anos, e mesmo achando que tem mais coisas positivas que negativas, às vezes fico com ciúmes. Meu parceiro às vezes se encontra com um amante em particular que nunca conheci, e por alguma razão isso realmente me incomoda. Entro no Instagram dele pelo menos uma vez por dia, às vezes quase compulsivamente, mas sempre tomo cuidado para não assistir o stories. Não consigo deixar de me comparar com ele, mesmo que isso seja ridículo porque todo mundo é diferente, e vai ter coisas que eu tenho que ele não tem. Estou tentando limitar as vezes que entro na conta dele, mas é difícil quando ela está bem ali na sua frente." Dom, 29 anos

“Acompanho casais do mesmo sexo porque gostaria de expressar mais minha sexualidade”

"Stalkeio casais. Principalmente pelos relacionamentos, mas também se acho que eles são legais ou gosto das roupas. Como pessoa, questiono romance, questiono minha sexualidade e questiono muito meus relacionamentos. Me comparo com essas pessoas, vendo o relacionamento delas e pensando “o meu não é assim”.

Questiono muito minha identidade, e isso vem de ver outras pessoas e pensar como elas me veem. Sou bissexual, mas estou num relacionamento com um homem há três anos. Não sei como descrever, mas me imagino explorando mais o outro lado da minha sexualidade. E é uma coisa estranha de identidade – sentir que não estou expressando minha bissexualidade porque estou num relacionamento hétero. Então me pego vendo casais do mesmo sexo porque gostaria de expressar mais minha sexualidade. Meu namorado é hétero, então é difícil. Quando vejo outros casais, penso: estou me expressando totalmente?" Alice, 24 anos

@daisythejones / @aliiiiia

Texto originalmente publicado na 'Beyond the Grid', uma coluna mensal da VICE Reino Unido sobre Instagram.

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