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Games

“Wolfenstein II” nos mostra que os nazistas nunca deixaram de ser um problema

Um dos maiores games do ano surfa na onda do mais controverso tema da atual política norte-americana.

por Emanuel Maiberg; Traduzido por Amanda Guizzo Zampieri
27 Outubro 2017, 2:52pm

Os jogos de tiro em primeira pessoa sempre se regozijam no ato de matar um nazista. Eles são um alvo fácil porque não têm ambiguidade moral. São, afinal, genocidas, iconicamente maus e os vilões dos livros.

Os crimes reais contra a humanidade perpetrados pelos nazis os tornam estrangeiros para nós – tão diferentes em seus modos maléficos, praticamente não humanos – o que, talvez, explique o subgênero de vídeo games de zumbis nazistas. É fácil matar aquilo que você não compreende.

De todos os games de atirar em nazistas, nenhum é mais icônico que a série Wolfenstein. O Wolfenstein 3D, da Id Software, ajudou a definir o gênero de tiro em primeira pessoa (antes de a equipe fazer o Doom), sempre associando o gênero ao ato de matar nazistas.

De muitas formas, o Wolfenstein II: The New Colossus é igual aos demais Wolfensteins (existem 11 no total, mas este em especial é uma sequência direta do reboot da série feita em 2014), uma publicadora de grande orçamento que retorna às fontes porque os games novos são um negócio arriscado e uma quantidade já conhecida é uma aposta segura.

O primeiro sinal de preocupação é que um jogo sobre nazistas dominando os EUA parece muito de acordo com o que está acontecendo de um modo geral. Em agosto, supremacistas brancos marcharam pelas ruas de Charlottesville, na Virgínia, com tochas de fogo (dessas de luau) cantando "Judeus não vão nos substituir". Após encontrarem a oposição de manifestantes anti-fascistas nas ruas e um supremacista branco jogar seu carro contra a multidão e matar uma manifestante anti-fascista, o presidente dos EUA afirmou que "ambos os lados" têm responsabilidade pela violência.

No início deste mês, a Bethesda lançou um anúncio com o slogan "Make America Nazi-Free Again" ["Deixar a América Livre de Nazistas Novamente", em tradução livre]. Na semana passada, a Bethesda divulgou novo anúncio apoiando o espancamento de nazistas. O debate sobre se um nazista deve ser socado começou após Richard Spencer, que ajudou a organizar a marcha dos supremacistas brancos em Charlotesville, levou soco na inauguração de Trump.

O pior é que alguns gamers estão se opondo abertamente a esses anúncios da Bethesda, e à violência contra os nazistas de Wolfenstein II em geral, porque acreditam se tratar de racismo contra pessoas brancas.

Desenvolver um jogo de tiro em primeira pessoa com grande orçamento como o Wolfenstein II leva muitos anos, e Pete Hines, diretor de relações públicas da Bethesda, me contou por e-mail que a empresa não tinha como prever nosso clima político geral. E isso não a impediu de pegar onda no momento.

"Nós utilizamos alguns dos bordões do presidente porque, infelizmente, são exemplos do mundo do jogo iguais a acontecimentos do mundo real", Hines afirmou. "Nós temos nazistas de verdade marchando abertamente nas ruas dos EUA em 2017. Pense, isso parece loucura."

Mas será que é tão louco assim? Surpreendentemente, Wolfenstein II tem um argumento de que não. E isso fica evidente nos momentos de abertura do jogo, que examinam o passado do protagonista B. J. Blazkowics.

Ao ser apresentado como uma criança no Texas do início do século 20, aprendemos que Blazkowics foi criado por uma mãe judia imigrante e um pai norte-americano branco e racista.

Sabemos que ele é racista porque castiga Blazkowicz por ficar muito amigo de uma garota afro-americana, e a chama de preta duas vezes em menos de 10 minutos de jogo. É impactante, mas talvez seja necessário pintar um retrato desse homem, que põe a culpa de sua ruína nos negócios em sua esposa judia e em seu filho, que sai com pessoas de outras raças – todo mundo, menos ele mesmo.

Desde o início, Wolfenstein II diz aos jogadores que eles podem não gostar nem um pouco, mas que o racismo contra o qual eles estão lutando também é, literalmente, parte de seu personagem.

Isso serve de pano de fundo para quando o jogo insinua que o Terceiro Reich seria capaz de dominar a América em parte porque seus ideais já estavam alinhados com os de muitos americanos. (Para mais informações sobre a história real do que o Terceiro Reich sabia sobre o racismo dos americanos nos anos 1930, esse artigo da Atlantic sobre o livro Hitler's American Model ["O Modelo Americano de Hitler", em tradução livre], de James Q. Whitman, é um bom começo.)

Blazkowics não seguiu os passos de seu pai. Em vez disso, ele cresceu e se tornou uma máquina matadora de nazistas e, depois dos acontecimentos do jogo anterior, um símbolo de esperança para os que ousam se opor à dominação nazista do mundo.

Em Wolfenstein II, quando Blazkowics pede ajuda à Grace Walker, uma líder de uma rebelião afro-americana contra os nazistas, nos moldes no partido dos Panteras Negras, ela não se contém, e diz a ele que a América dos brancos não está lutando tanto contra os nazistas quanto ela. E que quando os nazistas assumiram o controle, permitiram que a Ku Klax Klan governasse o Sul.

"Monstros fizeram isso", diz Blazkowics a Grace em seu esconderijo no topo do Empire State em ruínas, enquanto olham para a cidade de Nova York, que fora destruída por uma bomba nuclear, e discutem sobre o que os nazistas fizeram com a América.

"Não foram monstros. Foram homens", ela corrige.

Homens como o pai de Blazkowicz. Homens como os que marcharam com tochas em Charlottesville. Isso é que é assustador a respeito dos nazistas: eles não se restringem aos vilões de games, como alienígenas ou zumbis. Eles são algo no qual poderemos nos tornar se não prestarmos muita atenção. É algo que já está em nossa sociedade.

Imagem: Bethesda.

Também vale a pena mencionar que, sim, de todas as outras formas, Wolfenstein II é exatamente aquilo de que se espera. É um jogo de atirador grotescamente exagerado, em que atiro na cabeça de nazistas, derreto-os com lasers e corto suas pernas fora com um machado antes de enfiar o machado na cabeça deles enquanto mantenho contato visual.

Deixarei para que os especialistas discutirem se isso é saudável, mas me faz sentir muito bem. Muito, muito bem. Nunca houve um tempo tão catártico para jogar um game onde você mata nazistas sem dó nem piedade e, em minha opinião, nunca haverá outro Wolfenstein tão bom quanto esse, então eu acho que funciona bem.

E o fato de que ele tem algo pertinente a nos dizer sobre o que está acontecendo hoje no mundo faz dele um dos jogos mais importantes do ano.

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