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O Mudhoney fez um álbum sobre os tempos sombrios da era digital

Fundadores do grunge estão de volta após cinco anos com 'Digital Garbage', que sai em 28 de setembro pela Sub Pop.

por Eduardo Ribeiro
03 Setembro 2018, 10:00am

Foto: Emily Rieman/Sub Pop/Divulgação

Pouco importa a morte do rock. Pelo menos para o vocalista Mark Arm, o guitarrista Steve Turner, o baixista Guy Maddison e o baterista Dan Peters. Eles formaram o Mudhoney há três décadas com a proposta de desenvolver aquilo que nomes do punk americano como Black Flag, Dead Kennedys e Fear haviam iniciado no começo dos anos 1980. Sem grandes pretensões, acabaram se tornando a pedra filosofal do que logo ficaria conhecido como a onda grunge. A onda passou, a maioria das bandas não resistiu — tristemente, alguns dos principais ícones cometeram suicídio —, mas entre as sobreviventes permanecem Pearl Jam e Mudhoney, coincidentemente, bandas formadas por ex-integrantes do Green River, e também duas das mais honestas expressões daqueles tempos de cabelos desgrenhados e camisas xadrez.

Cinco anos após Vanishing Point, o quarteto de Seattle está de volta com Digital Garbage, álbum disponível nas plataformas físicas e digitais via Sub Pop em 28 de setembro. “Não posso falar pelas outras pessoas que ainda tocam rock, mas nós realmente não nos importamos com o que está acontecendo no mundo pop ou qualquer outro segmento. Isso nunca fez diferença. Tanto faz pra nós qual é a tendência do momento”, diz Mark Arm quando questionado sobre a sonoridade da obra a caminho, um típico disco de rock alternativo dissonante do começo dos anos 90. “Nós fazemos o som que gostamos de tocar e de ouvir. Por sorte, nos damos muito bem e desfrutamos da companhia um do outro. Acho que compomos músicas que nos satisfazem e realmente somos muito colaborativos."

Se os riffs e até a tecnologia usada na produção do álbum remetem aos tempos analógicos, a energia crua e a química afiada dos integrantes fazem das 11 canções, despejadas em cerca de 30 minutos, a válvula de escape ideal para o momento político e social norte-americano de 2018. As bases distorcidas e insistentes criam, combinadas à ironia das letras, um reflexo do que o músico considera uma sucessão de acontecimentos cada vez mais sombria. “Me parece que esse horror todo [o governo de Donald Trump] deu espaço para que pessoas que antes escondiam um jeito péssimo de ser começassem a se expressar. Elas acham que, só porque Trump pode ser babaca, elas também podem. É fascinante e interessante descobrir o quanto há de escuridão nos corações das pessoas. Isso é tão nojento”, desabafa.

"Nerve Attack", a faixa de abertura, menciona a ansiedade da era digital e cita uma presente ameaça de guerra. Já o título do álbum vem de "Kill Yourself Live", música que reflete sobre como a necessidade de ser notado se tornou viral hoje em dia. "Eu não estou nas redes sociais, então minha experiência é limitada", diz Arm. "Mas as pessoas realmente parecem estar em busca constante da validação de seus gostos. Além disso, com o live streaming, andam transformando em entretenimento banal até transmissões ao vivo de torturas e assassinatos." “Paranoid Core”, single lançado em julho, remete ao mesmo Mudhoney de 1988, na ironia crítica e na musicalidade.

"Eu realmente adoraria escrever músicas mais alegres", Arm tenta amenizar. "Mas a rebeldia ainda nos alimenta quando se trata de fazer um álbum de rock. De qualquer forma, espero que um dia possamos ouvir essas letras e comentar o quanto elas perderam a relevância. Isso seria lindo”.

Leia outros trechos da conversa exclusiva que Mark Arm teve com a VICE, por telefone, direto do escritório da Sub Pop em Seattle, onde ele trampa até hoje:

VICE: Como foi o processo de gravação e produção de Digital Garbage?
Mike Arm: Começamos a gravar em 20 de fevereiro de 2017. Então entre fevereiro e setembro escrevemos as músicas, gravamos no começo de setembro, continuamos compondo, e no começo de dezembro gravamos mais sete músicas e um cover. Ficaram 18 canções, entre as quais escolhemos 11 que estarão no álbum.

Está de bom tamanho para hoje em dia.
Acho um bom número. Eu não queria fazer aquilo que faziam na era do CD. As pessoas achavam que precisava preencher um CD inteiro. Não sei, acho que é por causa da minha idade, do formato musical com o qual eu cresci, os discos de 33 rpms. Naquele tempo um disco de 40 minutos era o esquema.

Mesmo 40 minutos talvez seja muito. Quanto mais longo, mais risco de baixa qualidade na prensagem, essa é a natureza dos grooves. Esse disco é mais curto, acho que tem uns 32 minutos ou algo assim, o que pra mim está ótimo. Sabe, um dos meus álbuns favoritos é o Fun House, dos The Stooges. Aquele disco tem apenas sete músicas.

Vocês continuam usando equipamentos analógicos dos anos 70?
Sim! Gravamos em rolo de duas polegadas e mixamos numa mesa de quatro canais analógica. Não tem nada de Pro Tools envolvido na mixagem. A mixagem foi feita com faders. Depois passamos para o computador pra converter e armazenar. Esse é o tipo de gravação que fazíamos quando começamos. E é isso o que funciona pra nós.


Investigamos in loco se o rock realmente morreu no Brasil:


Quanto tempo levaram para compor o repertório do álbum?
Na verdade, começamos a trabalhar no começo... Tinha algumas músicas prontas, ensaiadas e gravadas, mas, quando começamos a trabalhar nesse álbum, nós escutamos a elas o dia todo e não pareciam boas. Descartamos todas e começamos do zero.

Qual foi a primeira música composta?
“Prosperity Gospel”, essa foi a primeira música composta. E isso foi em fevereiro de 2016. Acho que um pouquinho depois veio uma música chamada “Vortex of Lies”, que não chegou a entrar pro álbum, mas que será lançada eventualmente. Entramos em estúdio com 11 músicas no final de agosto ou começo de setembro de 2016. Depois que gravamos todas as 11, Dan foi incisivo para que gravássemos mais algumas coisas, de modo que pudéssemos ter faixas para escolher, então continuamos trabalhando em novo material até o verão de 2017.

'Digital Garbage', o termo, teria a ver com uma crítica à música digital do momento?
Acredito que a tecnologia permite fazer coisas muito interessantes. É possível fazer coisas interessantes em qualquer formato musical. Não sou muito familiar a esse tipo de som. Acho que não se trata de bom ou ruim. É sobre criatividade. Tem um monte de gente que toca instrumentos acústicos e são chatas pra cacete.

Vocês ainda têm pique para fazer turnês pelo mundo depois de 30 anos?
Tem algumas datas de turnês já confirmadas, infelizmente nada no Brasil por enquanto. Eu adoraria voltar. Temos shows marcados até o fim do ano e vamos fazer alguns shows no Noroeste de Seattle e Portland, e mais um em Nova York em outubro. Vamos tocar em Vancouver em setembro e então vamos para a Europa por três semanas. Depois, vamos garantir as férias de inverno em casa. Em janeiro, começamos a fazer coisas de novo. Teremos a agenda lotada até, talvez, o segundo semestre de 2019. Serão muitos fins de semana de shows.

"Tudo o que sei é que nós não sentíamos que estávamos na vanguarda do underground dos anos 80, antes do grunge estourar. Eu meio que sinto que estávamos na onda final"

O que você acha do governo Trump?
Acho que o que acontece, ao menos aqui nos Estados Unidos, é que Trump não ganhou pelo voto popular. E um monte de gente que votou estava convencida de que Hilary Clinton era tão ruim quanto Trump. Muita gente votou no terceiro partido ou não votou. E acho que muito mais gente ficou horrorizada com isso. Acho que as pessoas que gostam do Trump são uma pequena minoria da população, mas acontece que eles são a maioria do Partido Republicano. Conheço um monte de gente tradicionalmente conservadora que abandonou o Partido Republicano.

Em sua opinião, qual marca será deixada pelo Mudhoney na história do rock?
Não cabe a mim decidir qual será o legado, mas a pessoas como você, historiadores e gente assim. Tudo o que sei é que nós não sentíamos que estávamos na vanguarda do underground dos anos 80, antes do grunge estourar. Eu meio que sinto que estávamos na onda final do surgimento da vanguarda. Antes de nós haviam grandes e influentes bandas de hardcore. E depois essa cena se juntou com aquelas bandas estranhas como The Butthole Surfers e Scratch Hassid, mas estes estavam preocupados com outras coisas como festas de aniversário e coisas assim. Então o Sonic Youth e Big Black apareceram, e era como se fôssemos só a continuação daquilo. Todo mundo era envolvido com a cena hardcore punk local e eles cresceram com o baixista original do Melvins.

Bem antes do Green River vocês já faziam um som, não é?
Steve e eu já tínhamos uma banda noisy punk chamada Mister Up, e aí formamos o Green River. Nessa época rolou uma onda mais new wave, uma banda chamada Bundle of Hits, eles definitivamente tocaram com bandas punk da cena local; e uns caras de Perth, Austrália, de uma banda chamada Greenhouse. Essas bandas tiveram um grande efeito no lance da gente querer tocar punk rock. Todos nós viemos dessa certa coisa que estava rolando, pelo menos no mundo ocidental. Não acho que estava rolando na China e Índia, mas já havia bandas de punk no Japão e no Brasil. Era um lance que rolava em vários países, quase no mundo inteiro, e foi aí que sentimos que estávamos conectados a um acontecimento.

O que você pensa de quem fala que o rock morreu?
Essa afirmação vem daqueles que enxergam a música dentro dos parâmetros da moda. Nesses termos, sim, mas o rock’n’roll mudou, ele hoje não soa mais exatamente como antes. Na verdade, soa um tanto diferente do Chuck Berry. As pessoas costumavam dizer isso do jazz uma época. Recentemente, porém, tem surgido um monte de álbum ótimos que continuam de onde Coltrane e Pharaoh Sanders pararam. São discos fenomenais. Então pessoas que fazem esse tipo de declaração têm aquele pensamento de que a música precisa sempre trazer a próxima grande coisa, e eu acho que gente assim é sem alma e conteúdo e está mais interessada na aparência das coisas do que nas coisas reais, no que realmente está acontecendo. O que importa é o mercado pra essas pessoas.

O rock’n’roll só exerceu uma hegemonia na música pop durante um certo período...
Mas ao mesmo tempo isso não é uma verdade absoluta. Houve momentos em que o rock era a música pop, como nos anos 1950, com Chuck Berry e Elvis, e depois deu uma morrida, e depois surgiram os ídolos do começo dos anos 60, os Beatles apareceram e houve uma retomada do rock à condição pop. E por um longo tempo o rock foi dominante, até os anos 70, quando você tinha Alice Cooper nas paradas ao mesmo tempo em que Helen Reddy. A disco e o rock foram pop juntos, na mesma época.

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