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Documentos do governo revelam que o Canadá levava OVNIs a sério

No ano de 1967, o governo canadense estava obcecado por alienígenas.

por Mack Lamoureux; Traduzido por Marina Schnoor
09 Março 2018, 1:00pm

Foto via screenshot.

Uma coleção de documento de 1967 encontrados nos arquivos nacionais do Canadá nos dá uma noção de quão sério o governo levava avistamentos de OVNIs.

O documento destaca como o governo investigava OVNIs – um processo que podia durar anos – e mostra seis casos “de interesse” para o governo em detalhes. As investigações incluem um homem queimado por um OVNI em Manitoba, algumas aparições muito estranhas no radar do Departamento de Defesa, um oficial da Polícia Montada na Nova Escócia que viu um OVNI entrar na água e desaparecer, e um círculo numa plantação em Alberta que foi o primeiro caso do tipo investigado por um governo.

Os documentos foram encontrados no arquivo nacional por Chris Rutkowski – um homem que pode ser descrito como o Fox Mulder do Canadá – e recentemente postados em seu blog de ufologia. Rutowski sempre vasculha os arquivos nacionais do Canadá procurando coisas assim, e descreveu sua última descoberta como “uma joia”.

“O que temos aqui são relatórios interessantes de pessoal e fontes qualificadas, investigados por gente qualificada e ainda não há explicação”, Rutkowski disse a VICE. “O que eles nos dizem é que eles estavam levando essas histórias muito a sério.”

A introdução do documento. Foto via screenshot.

Enquanto o governo tem algumas pesquisas sobre OVNIs disponíveis em sua base de dados online, ainda é relativamente desconhecido – especialmente para o público em geral – como eles realmente investigavam os casos e como era a burocracia envolvida. As novas descobertas, diz Rutkowski, podem ser “nossas melhores fotos” do processo.

“Certamente é uma imagem interessante, porque mostra o que estava acontecendo antes e como a coisa deslanchava, a acho que mostra como o exército e o governo do Canadá viam OVNIs”, disse Rutkowski.

As 27 páginas do documento – para o qual Rutkowski gentilmente direcionou a VICE – foram preparadas pelo tenente-coronel Douglas Robertson (um oficial das Forças Canadenses conhecido da comunidade de ufologia) para oficiais anônimos em novembro de 1967. Rutkowski especula que o destinatário poderia ser o recém-indicado Ministro da Defesa, já que “o infame Paul Hellyer [um dos oficiais de mais alto escalão do mundo que acredita em alienígenas] tinha deixado a posição alguns meses antes”. Na época, como Robertson escreve, o Departamento Nacional de Defesa era o corpo no comando das investigações de relatos de OVNIs.

O documento detalha sete categorias militares para avistamentos de OVNIs, incluindo farsas, histeria em massa, interpretação equivocada de eventos naturais, tecnologia militar avançada e condições psicológicas. No entanto, a sétima e última categoria é “avistamento incomuns que o espectador não consegue identificar ou explicar, ou seja, OVNIs”. Eita.

Os documentos mostram que a investigação de OVNIs era meio que uma batata quente no Canadá, já que frequentemente era entregue para diversos departamentos. Quando um novo relato surgia, os pesquisadores primeiro decidiam se o objeto era um meteoro ou uma bola de fogo – se sim, o caso era direcionado para o Conselho de Pesquisa Nacional (CPN). Se fosse outra coisa, o relato era colocado em uma de três categorias: Classe A, digno de investigação; Classe B: interessante mas não é necessário investigar; e Classe C: chato.

Foto via screenshot.

As investigações variavam e podiam ser simples como uma entrevista ou complicadas, envolvendo várias agências como a Polícia Montada, o CPN, o Conselho de Pesquisa de Defesa (CPD) ou (estranhamente) o Departamento Nacional de Saúde e Bem-Estar. Em muitos desses casos, você tem outras instituições como a Universidade de Toronto e a Universidade de Manitoba ajudando na análise. O governo também mandava profissionais para investigar os locais e se o caso fosse intenso o suficiente, parceiros dos EUA.

O documento foi escrito durante uma época interessante para os OVNIs no Canadá. Como Rutkowski descreve, 1967 foi um marco para esse tipo de atividade no Norte. O documento indica que ouve um pico nos relatos entre 1966 e 1967 – de uns 40 para 167 avistamentos. Os casos compilados mostram A) como essas ocorrências eram estranhas, e B) como o governo levava a sério essas investigações.

Aqui vão os destaques dos casos analisados por Robertson, que ele conclui serem “de interesse” de quem deveria ler o documento:

Falcon Lake

O primeiro aborda talvez o mais infame “encontro de OVNI” do Canadá, o caso Falcon Lake. O caso gira em torno de Steven Michalak, um homem de Manitoba, que diz ter encontrado dois OVNIs 140 quilômetros ao leste de Winnipeg. Enquanto Michalak analisava uma formação rochosa, ele disse que dois discos voadores apareceram. Um voava a alta velocidade, enquanto outro pousou 30 metros na frente dele. Quando ele tocou o objeto com sua mão numa luva, ele o queimou imediatamente. O objeto decolou e o vapor disso também o queimou. Michalak ficou hospitalizado por vários dias como resultado.

No documento, Robertson escreve que amostras do solo do local foram “analisadas e se mostraram radioativas num grau que foi preciso serem descartadas de maneira segura”. Robetson também admite que “nem as equipes de investigação do Departamento de Defesa e da Polícia Montada conseguiram fornecer evidência que pudesse contestar a história do Sr. Michalak”. Além disso, o radiologista despachado para a área não conseguiu explicar a contaminação por radiação. O trecho termina com “apesar de a investigação estar completa, ainda falta uma conclusão satisfatória”.

Muitas coisas foram escritas sobre o caso Falcon Lake, incluindo um livro que Rutkowski escreveu com o filho de Michalak.

A foto de um OVNI em Calgary

O segundo caso, também acontecido em 1967, envolve a famosa foto canadense de um OVNI perto de Calgary. Ele conta a história de Warren Smith, que estava fazendo uma trilha perto de Nanton, Alberta.

“Um OVNI apareceu de repente de uma área com árvores alguns metros acima dos observadores”, diz o documento, que continua explicando como Smith conseguiu tirar duas fotos do objeto. Smith revelou as fotos, que foram mandadas para o Departamento de Defesa. “As fotos foram sujeitas a análise detalhada do Centro de Inteligência de Interpretação de Fotos. O Centro concluiu sua investigação dizendo que as fotos do Sr. Smith são genuínas, com o OVNI se encaixando na descrição dada por ele.”

Clear Water Bay

O caso seguinte no documento se foca numa família voltando para casa em Clear Water Bay de barco, quando encontrou um OVNI. Segundo Robertson, o objeto apareceu a 15 metros do “Sr. Green” (como o homem é chamado no documento) e Green decidiu investigar. Quando ele se aproximou, o objeto disparou na direção dele, e ele “bateu em retirada em velocidade máxima”. Aí o objeto voltou a sua posição original.

Green e a família deixaram o barco nas docas e correram para uma casa próxima para acordar todos os ocupantes, que também foram ver o objeto. Eles ficaram observando a coisa por 15 minutos até que ela decolou. Numa casa próxima, um vizinho entrevistado pelo governo disse que apesar de não ter visto o objeto, ele estava “ouvindo rádio no momento da aparição do OVNI e disse que estava recebendo tanta estática que foi obrigado a desligar o aparelho”.

Uma “investigação detalhada conduzida pelo Departamento de Defesa em cooperação com a Polícia Montada” descobriu que Green era “uma testemunha confiável, competente e sincera sem tendência a indulgências”. Eles também checaram se alguém tinha consumido álcool na hora, descobriram que não, e também examinaram os olhos de Green. Folhas murchas foram descobertas no topo de árvores próximas de onde o objeto supostamente estava pairando, e algumas foram enviadas para a Universidade de Manitoba para serem examinadas. O Departamento Florestal também investigou e descobriu “que não conseguia explicar a razão para as folhas terem murchado”.

Esse trecho acaba com “a investigação foi encerrada sem conclusões ou descobertas fixas”.

O OVNI mergulhador da Polícia Montada

O próximo avistamento foi de um general da Polícia Montada perto de Barrington Passage, Nova Escócia. O oficial descreveu ver um objeto de cerca de 18 metros de comprimento com luzes brancas pairando sobre a água em baixa altitude. O objeto começou a fazer um som de assobio agudo e se jogou na água, deixando apenas uma luz branca visível. O general Wereisky se aproximou da luz de barco e ela rapidamente afundou quando ele chegou perto. A área então foi vasculhada pela Guarda Costeira Canadense e outros barcos, mas nada foi encontrado.

O governo conduziu uma investigação rigorosa do avistamento, que incluiu uma busca submarina e não descobriu nada. A investigação do governo acabou, mais uma vez, “sem nenhuma descoberta fixa”.

Avistamento nos radares do Departamento de Transporte

A investigação seguinte destacada no documento é uma descrita por Rutkowski como “muito única”. Em julho de 1967, o Departamento de Transporte relatou que “um alvo não identificado foi rastreado por sete voltas do radar deles, o que foi testemunhado por três controladores e dois técnicos 112 quilômetros ao leste de Winnipeg”.

O alvo se movia numa velocidade intensa. Como mostrado no documento, ele acelerou de “720 nós [1.333 km/h] para 3.600 nós [6.667 km/h] em um minuto e dez segundos”. O documento explica que as cinco pessoas que testemunharam o objeto “tinham certeza que era um alvo de radar e não algum problema mecânico, elétrico ou do equipamento”. No mesmo dia em Kenora, Ontário, um objeto similar foi pego pelo radar.

“O objeto desconhecido ficou no radar por 29 minutos”, diz o relato do avistamento em Kenora. “O objeto seguiu o voo 405 da Air Canada por um período antes de desaparecer. Depois reapareceu e seguiu o voo 927 da Air Canada por um período. O Departamento de Transporte não consegue explicar essas leituras de radar.”

O Departamento de Defesa novamente investigou o caso e de novo não conseguiu encontrar qualquer conclusão.

Círculo numa plantação em Camrose

O caso final detalhado no documento é de Alberta e, segundo Rutkowski, contrário à crença popular, foi o Canadá, não a Inglaterra, o primeiro governo a investigar círculos em plantações. O caso ocorreu nos arredores de Camrose, Alberta, em agosto de 1967, quando “várias impressões profundas foram feitas com um objeto desconhecido num pasto”.

O Departamento de Defesa mandou um homem chamado de “Dr. Jones” no documento para investigar, e ele não descobriu “nenhuma evidência física de danos nas árvores ou arbustos no campo, e nenhuma evidência sugerindo a interferência ou envolvimento deliberado de uma pessoa”, Rutkowski conseguiu encontrar mais documentação da investigação do Dr. Jones e também compartilhou isso com a VICE. Nos documentos, vemos quão aprofundada foi a investigação do governo.

Nos documentos, Jones diz que acreditava que o caso podia ser uma “farsa deliberada”, mas que as pessoas por trás dela “teriam que ter algum equipamento especial e muita determinação”. Ele estimou que para fazer esses círculos os envolvidos precisariam de duas rodas num eixo de 9 metros, para colocar três quartos de tonelada de pressão no pasto. Em seguida, Jones diz “considerar a possibilidade de OVNI” e dá a matemática por trás do tamanho que um veículo voador precisaria para produzir tais marcas: 135 toneladas.

“Essa carga de 135 toneladas poderia ser a base de uma grande espaçonave, ou talvez uma pequena espaçonave inteira”, termina Jones.

Epílogo

Depois dos estudos de caso, Robertson usa o documento para discutir possíveis planos futuros em pesquisa de OVNIs no Canadá, e dá recomendações gerais ao leitor desconhecido. Ele propõe que o Departamento de Defesa entregue a responsabilidade pela investigação de OVNIs ao Conselho de Pesquisa Nacional e que o diretor de operações trabalhe como uma agência de coordenação entre unidades do Departamento de Defesa fornecendo investigações de campo e o CPN.

“É evidente que pelas investigações conduzidas pelo Departamento de Defesa, e das descobertas feitas por pessoal importante e altamente qualificado, que o interesse primário em OVNIs cai no campo da ciência, e num grau menor, no da segurança nacional”, escreve Robertson.

Robertson escreveu que os OVNIs deram tanto trabalho em 1967 que estavam começando a tomar tempo demais dos funcionários do governo. Ele também escreveu que o governo deveria ser mais aberto com o público sobre seu trabalho com OVNIs. Isso é algo com que Rutkowski – 51 anos depois – concorda.

“Não poder comentar sobre isso faz parecer que eles têm algo a esconder. Claro, esses documentos mostram que houve conclusões muito interessantes, alguns casos inexplicáveis que deveriam ter sido tornados mais públicos”, disse Rutkowski. “Mas quando um oficial de relações-públicas continua repetindo que não pode comentar, isso mostra que talvez algo esteja sendo escondido.

“Minha leitura desse documento é que as Forças Canadenses não sabem realmente o que fazer com os OVNIs. Não é que eles estão escondendo tudo, eles só não têm o conhecimento no campo e a comunidade científica não queria ter nada a ver com isso, então eles ficaram de mãos abanando.”

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