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Saúde

O que realmente sai quando uma mulher ejacula

Tudo que você sempre quis saber sobre o elusivo squirt.

por Grant Stoddard; Traduzido por Marina Schnoor
13 Dezembro 2019, 10:00am

Foi, e continua sendo, uma das coisas mais espetaculares que já testemunhei. Uma dezena de mulheres, minha parceira na época entre elas, jorrando arcos de líquido no ar da genitália pela primeira vez, em uníssono. O que tinha começado 90 minutos antes como uma aula de anatomia bastante granular numa casa no Brooklyn, se metamorfoseou em algo que lembrava um show das fontes do Bellagio.

Apesar de estar intensamente focado na habilidade repentina da minha parceira de fazer o “squirt” – como ejaculação feminina é mais conhecida – eu estava bastante consciente de que novas squirters na sala pareciam expressar as mesmas duas coisas que ela: uma liberação desenfreada de emoções reprimidas e total incredulidade na capacidade de seus corpos de fazer algo completamente novo e quase mágico.

Até aquele momento, eu tinha sérias dúvidas que o homem musculoso de calça colorida e corte de cabelo de um guerreiro Lenape podia mesmo guiar esse grupo diverso de mulheres e seus parceiros para abrir as comportas pela primeira vez, quanto mais ao mesmo tempo. Na verdade, fui lá com a certeza de que algumas mulheres podiam ejacular e outras não, e que isso se dividiria no mesmo número de pessoas que são destras e canhotas.

E mais, durante uma carreira de 15 anos escrevendo principalmente sobre sexo e sexualidade, eu tinha lido vários artigos científicos concluindo que ejaculação feminina realmente existe, e outros insistindo que definitivamente não. Alguns outros argumentavam que isso existia, mas não era a coisa que você achava se é no Pornhub que você consegue as informações. Ainda há mais pesquisas focando em de onde isso vem, do que a ejaculação é composta e quão predominante essa habilidade é. Quando deixaram a gente entrar na casa, todas as conclusões diferentes da literatura tinham me convencido de que eu voltaria pra casa impassível e seco.

Saí daquele espaço – o Squirting “PlayLab” de Kenneth Play – quase dois anos atrás, um convertido firme e agradavelmente molhado da ideia de que a maioria das mulheres têm a capacidade de ejacular. Testemunhei isso muitas vezes desde então. Mas enquanto a ejaculação feminina se tornou um subgênero muito popular do pornô e gerou um monte de produtos disponíveis na Amazon para facilitar e gerenciar brincadeiras sexuais que resultam numa poça, a literatura científica, no primeiro olhar, continua tão inconclusiva quanto antes.

A principal questão é como a ejaculação feminina – que é descrita há milênios no mundo Ocidental e Oriental – é definida. Alguns artigos concluem que a expulsão de um monte de líquido transparente geralmente retratada no pornô, e que exige trocar os lençóis depois, é principalmente urina. O termo ejaculação feminina, eles argumentam, deveria se referir apenas a volumes muito menores de líquido de cor branca leitosa que também pode sair da uretra.

Antes de se tornar sexóloga, conselheira sexual e educadora sexual, Anita Hoffer foi professora de Urologia no Brigham and Women's Hospital. Ela confirma que virtualmente toda ejaculação que vi voando no ar, momentos antes estava contida na bexiga, explicando que não há outro lugar de onde isso poderia vir.

Estudos sugerem que o que é considerado ejaculação feminina “verdadeira” vem das glândulas de Skene. Essas glândulas, que ficam ao lado da uretra, muitas vezes são chamadas de próstata feminina porque como na versão masculina, elas produzem antígeno prostático específico (PSA) e fosfatase ácida prostática (PAP). “É importante saber que as glândulas Skene são muito pequenas e não podem criar 150, nem 30 ml de ejaculação feminina sozinhas”, diz Hoffer.

Um estudo francês observou de onde vêm as grandes quantidades de líquido que você pode ver no Squirting PlayLab ou em filmes adultos como Squirt Squad, Liquid Lesbians e White Water Shafting. Pesquisadores recrutaram sete mulheres que soltavam grandes quantidades de líquido quando gozavam e pediram amostras de urina a elas. As mulheres passaram por um ultrassom para confirmar que suas bexigas estavam vazias. Aí elas fizeram o que precisavam para fazer chover. Algumas sozinhas e outras com ajuda dos parceiros.

Antes delas experimentarem la petite mort, um segundo ultrassom foi realizado e no ponto do orgasmo, o fluído foi coletado e um terceiro exame foi feito. A segunda coisa que os pesquisadores descobriram foi que as bexigas das mulheres tinham se enchido completamente antes delas ejacularem. A terceira coisa foi que enquanto duas das amostras de urina das voluntárias eram idênticas ao fluído expelido no orgasmo, as outras cinco tinha pequenas quantidades de PSA presentes no líquido que não estavam na amostra de urina inicial. A primeira conclusão dos cientistas provavelmente foi que eles não estavam fazendo muita coisa para dissipar a ideia que as pessoas têm do que um acadêmico francês faz no dia a dia.

Hoffer explica que enquanto a urina passa através da uretra durante estimulação sexual, ela pega secreções das glândulas de Skene vizinhas no caminho. Play diz que enquanto algumas pessoas em suas aulas soltam uma pequena quantidade de fluído branco, a maioria espirra um volume muito maior de líquido transparente. Ele acha que enquanto algumas de suas milhares de alunas estão expelindo ejaculação “verdadeira” ou apenas xixi, a maioria das squirters – como parte da comunidade científica sugere – estão produzindo um coquetel das duas coisas: um pouco da coluna A e muito da coluna B.

“Descobri que seja lá do que isso é feito, isso não importa realmente para quem está experimentando”, diz Play, acrescentando que é bem comum que as novas squirters chorem, riam ou gritem durante o orgasmo. Ele acha que sentimentos de vergonha ou se preocupar em ser normal ou apenas de deixar um macha molhada quando elas se masturbam, leva a esguichar quando elas sentem um desejo involuntário de urinar durante a brincadeira sexual. “Embora a técnica e a ergonomia de facilitar a ejaculação da parceira é importante, o mais importante é ajudar a mulher a se abrir física e emocionalmente quando a vontade de fazer xixi começa a se manifestar.”

“Mulheres relatam que ejaculação pode acompanhar excitação sexual, mas que isso também pode ocorrer durante atividade sexual sem ser simultâneo ao orgasmo”, diz Hoffer; uma vez ela realizou uma pesquisa “informal” sobre a percepção de 160 mulheres sobre estímulo do ponto G, que geralmente é associado com ejaculação feminina. Ela descobriu que metade delas não se importava com isso. “Todo mundo é diferente.”

Hoffer destaca que toda uma indústria cresceu em torno do ponto G e da ejaculação feminina que ele pode provocar, se referindo a brinquedos, livros, outros acessórios e, suponho, oficinas de ejaculação feminina como as que Play oferece ao vivo e online. Ela diz que a habilidade de ejacular se tornou um marcador de sucesso sexual para algumas mulheres, e que os homens também vão “avaliar sua proeza sexual pelo tamanho da mancha no lençol depois do sexo”.

“Infelizmente isso é baseado numa emulação do modelo masculino onde a ejaculação é associada ao prazer”, ela diz, “e pode levar os dois parceiros a se sentir desnecessariamente decepcionados se a mulher não responder dessa maneira em particular”.

Claro, mesmo se uma mulher não consegue ejacular não quer dizer que ela não é boa de cama e não está sentindo prazer. E, mesmo que minha parceira que ejaculou no PlayLab tenha ficado impressionada com essa nova habilidade dela, ela me dissuadiu de me esforçar para provocar isso de novo.

“Nah, estou bem assim”, ela disse quando me ofereci para colocar em prática o que tinha aprendido com meu papel de facilitador. Mas segundo um estudo intrigante, a atitude da minha parceira é meio que raridade. A pesquisa, publicada no British Journal of Urology descobriu que 78,8% das mulheres que ejaculavam achavam que isso enriquecia suas vidas sexuais. Os parceiros eram até mais entusiasmados quando as coisas ficavam “wet and wild” – 90% deles curtiam muito. E desde que minha parceira curta abrir as comportas, eu também curto pacas.

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