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Rubens Franscisco Lucchetti, o Papa das Pulps, Aterrorizou o Brasil

O ficcionista (como prefere ser chamado) falou um pouco da sua extensa carreira e de seu universo particular. “Abomino a realidade”, disse ele.

Todas as fotos são do Rafa Mendes.

Visitar a casa do escritor Rubens Franscisco Luchetti é como fugir momentaneamente da realidade e mergulhar em um universo paralelo, em que tempo e espaço seguem regras diferentes, que quebram os padrões da existência ordinária. Localizada no centro da cidadezinha de Jardinópolis, distante cerca de 20 quilômetros de Ribeirão Preto, onde o calor é intenso mesmo no meio do inverno, essa casa alberga o último autor vivo de literatura pulp do Brasil. Ele vive em uma dimensão própria, que pouco tem a ver com suas cercanias. Cercado de gatos, relógios que parecem tocar o tempo todo (um resquício da coleção de sua falecida esposa, que mantinha cerca de 150 unidades espalhadas pela casa – e pelo menos 30 ainda funcionam), estátuas antigas que lembram esculturas gregas, quadros pintados por ele mesmo e estantes intermináveis de livros e filmes, o mundo de Lucchetti causa fascínio e estranheza, mas nunca indiferença. "Abomino a realidade", diz.

Recluso a seu modo, algo que justifica pela sua timidez ("Tenho muitos complexos – de inferioridade, inclusive", conta), o autor adora receber visitas, a quem serve café e macarronadas, além de as entreter com suas histórias de vida. Prolífico como um verdadeiro Balzac dos trópicos, já escreveu mais de 1.700 livros, incluindo-se aí o primeiro título genuinamente de terror no Brasil, além de cerca de 500 contos e mais de 300 histórias em quadrinhos. Entre suas diversas atividades secundárias, foi ainda autor de seriados radiofônicos, roteirista dos principais filmes de José Mojica Marins (o Zé do Caixão) e de Ivan Cardoso. Ele dirigiu ainda animações experimentais no molde dos curtas do National Film Board Of Canada no início da década de 60.

Verdadeira enciclopédia viva de parte importante da cultura popular brasileira, Lucchetti continua escrevendo aos 85 anos de idade. Ele soma mais de 70 anos de carreira, iniciada na publicação de seu primeiro conto, "A Única Testemunha", em um pequeno jornal no bairro paulistano da Lapa, no longínquo ano de 1942, quando tinha apenas 12 anos de idade. Ganhando pouquíssimo dinheiro e ainda menos reconhecimento ao longo da extensa carreira, foi obrigado a escrever trabalhos de encomenda em diversas ocasiões para completar a renda (ele conta que, durante a década de 80, por exemplo, chegou a escrever um livro por semana pelo equivalente ao valor atual de R$ 350 cada).

Embora ainda mantenha o hábito de escrever todos os dias, Luchetti agora pode ao menos se dar ao luxo de publicar apenas o que quer. A Editora Devaneio, que já havia lançado uma coletânea de contos ilustrados, Fantasmagorias, em 2013, agora está publicando uma série de 15 livros de bolso (vendida exclusivamente pela internet) com alguns dos títulos favoritos do autor. Além do primeiro volume, As Máscaras do Pavor, disponível desde o ano passado, o segundo, O Museu dos Horrores, está sendo lançado neste mês de agosto; já o terceiro, O Abominável Dr. Zola, deve sair até dezembro deste ano. Para adquiri-los, Lucchetti sugere que os fãs entrem em contato diretamente com ele através do Facebook.

Durante a visita, o ficcionista (como prefere ser chamado) falou um pouco da sua extensa carreira e de seu universo particular.

VICE: Qual foi seu primeiro contato com a literatura pulp?
Rubens Franscisco Lucchetti: Foi por volta de 1942, quando tinha 12 anos. Sempre tive poucos amigos, gostava muito de quadrinhos e cinema – e não havia muitas pessoas como eu. Nessa época, morava na Lapa, em São Paulo, e tinha um colega chamado Alcyr Rossi. Em um sábado de manhã, fui visitá-lo e ele tirou uma cesta debaixo da escada que continha duas revistas: uma Detective e uma Mistérios, que tinha o famoso personagem Sombra na capa.

As pulps publicavam estilos como ficção científica, horror, faroeste, mas, aqui no Brasil, a maioria era de detetive & mistério [nota: denominação que Lucchetti usa para um único gênero, que considera diferente do policial]. O nome vem da polpa de madeira que era usada na impressão, era o pior tipo de papel. Em 1943, eu já trabalhava e ajudava em casa – e, com o dinheiro que sobrava, comecei a colecionar algumas revistas. Uma das principais era a X-9, que durou de 1941 até 1970, que era editada pelo Roberto Marinho.

Quando você passou a colaborar para elas como escritor?
Por volta de 1948, eu comecei a colaborar para títulos como X-9, Meia-Noite, Suspense [versão nacional da Alfred Hitchcock´s Mystery Magazine] e Policial em Revista. Cheguei a ter uma história publicada no exterior também, na Alfred Hitchcock´s Mystery Magazine. Quando as revistas já estavam começando a desaparecer, no final dos anos 60, eu editei alguns títulos – entre eles, Série Negra e a Mistérios –, onde queríamos integrar texto e fotos. As pulps no Brasil eram maiores em tamanho, mas a Mistérios, não: ela seguia o formato americano. Depois disso, ainda colaborei em revistas como a Mistérios de Jack Douglas, nos anos 70, e Ação Policial, já nos anos 80.

Havia outros escritores importantes do gênero no Brasil?
Esses gêneros são muito estranhos ao Brasil, só agora tem aparecido escritores assim. Uma história policial, mais comum no país, é diferente de uma de detetive. São histórias que mostram como se chega ao criminoso através de uma investigação. Aqui não se criou uma tradição. Os únicos autores que se especializaram foram o Hélio do Soveral e o Jeronymo Monteiro. Fora nós, não havia mais ninguém que escrevia esse tipo de história.

Por que a publicação das revistas pulp no Brasil acabou?
Devido ao desinteresse das editoras. O grande problema editorial no Brasil é que são colocadas nos cargos principais pessoas totalmente incapacitadas e que não se interessam por gêneros "menores" de literatura. O diretor responsável pela Detective, por exemplo, era o teatrólogo Nelson Rodrigues. Não preciso dizer mais nada. E os tradutores eram péssimos, deixavam os textos ininteligíveis. As editoras foram as responsáveis pelo fim de uma galinha de ovos de ouro.

Hoje em dia, há um público novo ávido para saber o que foram as pulps. O filme do Tarantino ressuscitou o interesse, mas não há nada de "pulp" no filme, a não ser o título. Estou escrevendo um livro sobre a história das pulps no Brasil. Devo ter a maior coleção de revistas assim no país, com cerca de dois mil exemplares. [Em] Algumas [séries de revistas], estão faltando alguns números, mas quase consegui completar a coleção dos títulos publicados aqui.

Em que momento você passou a escrever livros?
Meu primeiro livro publicado foi Noite Diabólica, considerado o primeiro de terror lançado no Brasil. Saiu pela Editora Outubro, que depois mudou o nome para Taika, em 1963. Na época, eles eram os responsáveis pela revista em quadrinhos Seleções de Terror, que tinha histórias do Drácula desenhadas pelo Nico Rosso. Eu acompanhava e gostava muito desses desenhos – e queria ter um roteiro publicado por eles. Por volta de 1962, mandei alguns argumentos para o Nico Rosso e continuei comprando para ver se saía alguma história minha.

Um dia, em 1963, chegou em casa um pacote com seis exemplares de Noite Diabólica. Reuniram meus argumentos e publicaram como uma coletânea de contos, parte de uma coleção chamada "Série Terror", com ilustrações que foram feitas pelo Jayme Cortez, um português.

Foi nessa época que você passou a escrever histórias em quadrinhos também?
Minha primeira HQ, "A Única Testemunha", foi publicada em 1964 e desenhada pelo Paulo Hamasaki. Já em 1965, eu estava no lançamento de um livro do Jayme Cortez e comecei a conversar com um senhor que estava do meu lado. Descobri que era o Nico Rosso, e ele me pediu um roteiro. Acabamos criando 10 histórias juntos. Ele queria algo diferente, e criamos a Cripta, que mudou a forma de [se] fazer HQ de terror no Brasil: era algo que fugia do padrão das revistas da época. O formato era grande, parecido com o da revista Realidade, com desenhos em meio-tom. O carro-chefe eram as histórias do Nosferatu. Durou cinco números. Paramos de produzi-la porque a editora não estava dando o tratamento adequado; e, depois disso, veio a Estranho Mundo de Zé do Caixão, também em quadrinhos.

Houve um período no Brasil em que era possível sobreviver fazendo apenas quadrinhos?
Nos anos 60, dava para sobreviver de quadrinhos. Houve um "boom" de terror que durou de 1959 até 1973 e que possibilitou também a publicação de outros gêneros.

Qual foi o seu primeiro contato com o José Mojica Marins (Zé do Caixão), com quem você acabou colaborando no roteiro de 15 filmes?
Antes de ir morar em São Paulo, vi, um dia, um anúncio no jornal sobre a exibição de À Meia-Noite Levarei Sua Alma. Vi o filme em Ribeirão Preto, em um cinema decadente no centro da cidade, o Cine São Jorge. Pelas fotos de divulgação, não teria visto, mas resolvi arriscar. Era uma sexta-feira, sessão das 20h, em uma sala com 40 pessoas onde cabiam duas mil. Depois de 15 minutos, a maioria saiu. Era um filme paupérrimo, quase saí de lá também. De repente, senti um arrepio e vi que estava diante de algo inédito. A cena em que ele come carne na sexta-feira santa era uma coisa de gênio. A impressão geral que eu tive do filme é que era uma mistura de circo de cavalinhos com Shakespeare e drama grego, cheio de altos e baixos.

Através de amigos em comum, marquei um encontro com ele em São Paulo. Inicialmente, eu o achei frio, mas no final ele me entregou um cartão e me chamou para visitar seu estúdio. Cheguei lá e encontrei o lugar repleto de ratos, cobras, baratas, que ele usava para fazer testes com os atores. Foi então que acabou me convidando para ser roteirista de um filme em três episódios que estava preparando, que viria a ser O Estanho Mundo de Zé do Caixão. Ele me passava as ideias, mas em geral não eram nem argumentos.

Você e o Mojica chegaram a brigar por conta da revista em quadrinhos que você criou para ele, O Estranho Mundo de Zé do Caixão (Mojica, após o quarto número, vendeu os direitos para outra editora sem avisar Lucchetti, que perdeu os direitos de autoria sobre o título)?
Eu me afastei do Mojica, mas não briguei. Quase todas as pessoas que colaboravam com ele acabaram se afastando de alguma maneira.

E como você acabou conhecendo o Ivan Cardoso, para quem faria o roteiro de O Segredo da Múmia, As Sete Vampiras e O Escorpião Escarlate?
Ele e o Hélio Oiticica vieram me visitar com o Mojica quando eu estava morando no Rio de Janeiro. Ele me contou que tinha algumas cenas filmadas que queria reunir para transformá-las em um longa e me convidou para criar o roteiro de O Segredo da Múmia. Acabei não usando quase nada do que ele já havia feito. O filme foi bem recebido, e acabei ganhando o prêmio de Melhor Roteirista em Gramado em 1982.

O cinema é a sua maior paixão?
A literatura e as histórias em quadrinhos são minhas maiores paixões. Em segundo lugar, a música erudita e orquestrada; e, em terceiro, o cinema. É raro o filme em que eu não vejo erros. Considero o último filme do Kubrick, De Olhos Bem Fechados, o maior dos últimos 20 anos, e os críticos nem gostaram tanto.

O bom filme é aquele que fica com você. Cinema é imagem, entretenimento. Hitchcock é o maior cineasta de todos, pois foi quem melhor compreendeu essa linguagem. Nosso cinema é muito panfletário. Não concordo com essa coisa de "uma ideia na cabeça e uma câmera na mão". Um filme começa com um roteiro. Para mim, existem quatro elementos fundamentais: montagem, fotografia, roteiro e direção.

Seu gênero favorito é o terror?
O terror é um dos meus gêneros favoritos, mas ainda gosto mais das histórias de detetive & mistério. Mesmo minhas histórias de horror em geral estão mais para o suspense, tendendo um pouco para o mistério. O terror está mais na inclusão de alguns personagens.

Quantos livros você escreveu ao todo?
Escrevi um total de 1.547 livros por encomenda entre 1968 e 2000. São livros de mágica, piada, simpatia, horóscopo tradicional, chinês, asteca... você escreve para sobreviver. O editor encomendava, e eu recebia um valor fixo para cada título. Chamo-os de baboseira, livros deprimentes, lixo editorial. Escrevia apenas para ajudar na renda, são todos descartáveis. Seus editores são sujadores de papel, sem nenhuma exceção. Nessa conta, não estão computados os livros que escrevi nos meus gêneros prediletos, cerca de 200. Esses são os de suspense, horror e detetive & mistério, que escrevi porque gostava.

Muitos desses livros foram lançados com pseudônimos. Por quê?
Alguns saíram com meu nome e outros, com pseudônimos ou heterônimos. Os pseudônimos eram invenção dos editores. Já os heterônimos eram para mim quase como criar um personagem. Inclusive alguns deles eram mulheres. Tive muitos nomes de inspiração gótica, como Mary Shelby e Helen Barston. Às vezes, fazia até um desenho para o perfil dos autores em cada livro. Eu me aposentei em 1983 e, então, intensifiquei meu trabalho como "ghostwriter". Em muitos casos, é bom nem colocar o nome de verdade. O maior volume desses livros foi escrito entre 83 e 1998.

Qual era o perfil dos livros que você escrevia antes desse período?
Em 1972, eu fui para o Rio de Janeiro trabalhar na Bruguera, uma editora de livros de bolso que publicava 140 títulos, a cada 28 dias, de gêneros como policial e faroeste. A Bruguera era, na época, a principal editora da Espanha, e éramos a filial. Lá, eu era editor e escrevia. Até então, os livros eram traduzidos da Espanha, até que resolveram criar material próprio. Alguns livros tinham personagens fixos, como o agente da Pinkerton. Os nomes eram marca da editora. Dávamos as coordenadas e seguíamos mais ou menos o modelo das pulps norte-americanas.

Autor no Brasil não cumpre prazo, mas resolvemos tentar. Se não conseguiam cumprir, tínhamos de escrever. Eventualmente, mudaram o nome da editora para Cedibra. Na fase áurea, havia 140 coleções de títulos mensais, sendo que eram vendidos aproximadamente 50 mil exemplares de cada. Como o prazo era apertado, às vezes o autor não dava conta. Dependendo do gênero, uma pessoa diferente assumia. Policial era comigo – e, para a coleção "Trevo Negro", de horror, escrevi todos os títulos. Cada livro tinha cerca de 128 páginas.

Com que frequência você escreve atualmente?
Escrevo todos os dias, umas cinco horas em média. Para mim, é uma compulsão. Todos os textos são escritos a máquina. No início, usava uma Remington importada, mas atualmente uso uma Underwood. Ainda estou aprendendo a lidar com computadores: até o ano passado, eu ainda não sabia usar.

Os livros atualmente sendo publicados pela Devaneio são inéditos ou republicações de material antigo?
Alguns são republicações, outros são inéditos. Máscaras Do Pavor acabou sendo reescrito, não tinha a introdução atual. Saiu originalmente pela Cedibra no final dos anos 70.

Como é possível encontrar os novos livros?
Os livros não são vendidos em livrarias. A editora fez uma pesquisa em livrarias e distribuidoras e constatou que 70% do lucro se perde; e, por isso, decidimos vender exclusivamente pela internet. Meu filho foi chamado para editar, e o dono fez a diagramação.

Quais são seus autores favoritos?
Edgar Allan Poe é meu autor favorito. Gosto muito de Mark Twain, H.P. Lovecraft, Ray Bradbury, Arthur Conan Doyle e Robert Louis Stevenson. Dos nacionais, gosto de Dyonélio Machado [Os Ratos], Monteiro Lobato. Mas, em geral, acho nossa literatura meio rançosa. Os autores acham que devem ser Machado de Assis. Estão aparecendo novos autores que também trilham esse caminho do fantástico, como a Giulia Moon, [de] que gosto muito. Acho que ela foge desse ranço comum a muitos escritores brasileiros. Em geral, quando nossos escritores criam esse tipo de história, acaba ficando algo meio debochado. Uma história assim não pode ter erro: você tem de oferecer algum tipo de enigma para o leitor.

Você passa a imagem de uma pessoa reclusa e já declarou em entrevistas anteriores que não gosta muito de vizinhos. Isso é verdade?
Até gosto da cidade [Jardinópolis], mas vizinho, para mim, sempre foi uma coisa estranha. É bom que aqui quase não tenho. Acho a cidade aprazível: é melhor que Ribeirão Preto, que tem todos os problemas de São Paulo.