Alan Moore

Ficou claro que o Sr. Moore estava a fim de conversar conosco por bastante tempo sobre seu trabalho e suas ideias. E sim, foi um lance mágico.

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fev 6 2010, 12:00am

Fotos por Jonathan Worth e Jose Villarrubia



Quase todo mundo que já leu uma HQ na vida concorda que Alan Moore é o melhor escritor do gênero na história do formato. Nos anos 80, ele foi o cara que praticamente sozinho fez adultos covardes admitirem gostar de gibis. 


Um filho orgulhoso de Northampton, Inglaterra, que ainda vive perto da área onde cresceu, Moore amadureceu no começo da década de 80 na 2000 AD, a maior fábrica britânica de HQs de ficção científica e fantasia. Sua tira do Judge Dredd reimaginava o personagem com complexidades até então inexploradas. Sua criação, Halo Jones, foi o primeiro título nessa mídia que não retratava uma personagem feminina como uma supermulher peituda ou uma vítima. 

Lá pela metade daquela década, Moore tinha revolucionado as HQs norte-americanas, primeiro fazendo o estagnado título da DC Monstro do Pântano pegar no tranco, transformando-o em um livro de busca existencial com preocupações ecológicas, e depois criando Watchmen, que foi a primeira HQ a realmente virar as tropas de super-heróis de ponta cabeça, e que acabou virando um filme abismalmente horrível no ano passado (o qual Moore, felizmente, desaprova). 

Várias batalhas legais sobre propriedade e direitos sobre suas criações depois, Moore começou sua própria linha, que meio de brincadeira batizou de America’s Best Comics. De 1991 a 1996, ele produziu Do Inferno, sua própria versão linda e austera da história de Jack o Estripador. Disso também fizeram um filme de merda que Moore desaprova. A série A Liga Extraordinária começou em 1999 e virou um vasto mamute, que mistura histórias ficcionais e imaginadas com versões da nossa própria realidade. Outra vez: filme de merda, Moore desaprova. Em V de Vingança, Moore nos deu sua visão sobre o totalitarismo. E, novamente, filme de merda, Moore desaprovando. 

Nos anos mais recentes, Moore produziu um romance complexo, A Voz do Fogo (1996), e um poema longo que trata de garotas que gostam de garotas e garotos que gostam de garotos, chamado The Mirror of Love (2004). Ele também publicou 25.000 Years of Erotic Freedom (2009), que examinava bem o que o título sugere, e Lost Girls (2006), que ele criou com Melinda Gebbie e que envolve Wendy do Peter Pan, Alice de Alice no País das Maravilhas, e Dorothy de O Mágico de Oz tendo muitas e muitas aventuras explícitas. Uma comédia total. 

Atualmente Moore está trabalhando em Dodgem Logic, uma revista underground, em seu segundo romance, Jerusalem, e em um guia de magia. Na verdade, Moore é um mago praticante (e não é daqueles de coelho e cartola). Recentemente ligamos pra ele em sua casa em Northampton, e depois que ele nos assegurou que tinha uma xícara de chá em mãos e “quantas xícaras fossem necessárias pra fazer isso”, ficou claro que o Sr. Moore estava a fim de conversar conosco por bastante tempo sobre seu trabalho e suas ideias. E sim, foi um lance mágico. 

Vice: A Dodgem Logic é um dos seus novos projetos. Por que não começamos falando sobre ela? 
Alan Moore:
 Dodgem Logic é uma colisão agressiva e aleatória de todo o tipo de coisas, de textos absurdistas de ficção feitos por Steve Aylett a novos pedaços de trabalho feitos por Savage Pencil e Kevin O’Neill. Esteticamente e em termos de formato ela veio de uma fascinação com a imprensa underground, que é uma cultura que data de antes do jornalismo impresso, mas que se tornou uma realidade popular nas décadas de 60 e 70 quando era uma parte vital da contracultura. 

Quais eram as grandes entidades da imprensa underground no Reino Unido naquela época? 
Os principais jornais eram o International Times e o Oz, que começou como uma revista de sátiras na Austrália e mudou pra cá, onde se tornou muito mais controverso e psicodélico. Eram tempos inebriantes, e foi a imprensa underground que agia como a cola que mantinha todo aquele elemento da sociedade junto e em contato um com o outro. Sem aqueles jornais, você teria apenas algumas pessoas que usavam roupas parecidas, tinham um gosto musical similar e usavam drogas parecidas. Você não teria um discurso político ou cultural coerente. 

E a Dodgem Logic é pra ser uma continuação daquela tradição? 
Nós decidimos fazer da Dodgem Logic uma revista de 48 páginas de cores vivas que tenta reinventar a noção de publicação independente para o século XXI. Estamos constantemente tentando deixá-la sem muito polimento. Não queríamos que ela fosse impressa em papel brilhante, porque isso poderia ser algo intimidante, poderia criar uma barreira entre a revista e seus leitores. Nós escolhemos esse visual mais bruto deliberadamente.

Tem várias partes dela que parecem colagens, o que faz com que ela pareça um híbrido entre um jornal underground e um fanzine. 
Isso para mim é um elogio. Fanzines costumavam ser uma parte vital da cultura na qual eu cresci, dos fanzines de poesia nos anos 60 até os fanzines de HQ, ficção científica e fantasia dos anos 70 que produziram grande parte do talento que hoje domina os gêneros de HQ e ficção científica. Eles eram pequenas publicações incrivelmente produtivas e continham muita energia. Talvez isso tenha vindo do quão fácil era produzi-los. Não era tão fácil como seria fazê-los hoje em dia, mas agora toda a tecnologia está aqui para fazermos algo muito mais ambicioso do que jamais sonhamos que fosse possível, o ímpeto desapareceu. Talvez o grau de paixão que era colocado em algo como o Sniffin’ Glue ou quaisquer outros dos zines associados com o movimento punk exista de fato hoje em dia, só que online. Eu não sei. Posso parecer antiquado, mas eu ainda acredito que sempre haverá uma diferença entre algo que você olha na tela e algo que você pode segurar com as mãos. 

Coisas físicas são melhores. Elas são mais reais. 
Tem mais um sentido de um artefato que é parte de uma comunidade e parte de uma cultura. 

Uma insatisfação generalizada com o governo e o declínio inexorável da civilização, assim como uma preocupação com a erosão das comunidades locais e da cultura, são temas recorrentes no seu trabalho de O Monstro do Pântano a Watchmen e além. Dodgem Logic parece mais uma maneira direta de lidar com essas questões.
Para falar a verdade, estou bem por fora das HQs. Eu estou continuando A Liga Extraordinária e estou desenhando algumas tiras para a Dodgem Logic, mas não me interesso pela indústria de HQs. Não me considero mais parte dela. 

As coisas que você está abordando na Dodgem Logic poderiam ser abordadas em HQs?
Sim, poderiam ser abordadas no formato HQ. Porém, se eu fizesse isso, iria agradar meu público leitor de HQs, e não um mundo mais abrangente, que é onde essas questões precisam estar. Eu devo ressaltar que Dodgem Logic não é uma revista especificamente a respeito de Northampton. É apenas de onde eu e alguns contribuintes somos. Porém, nós olhamos a partir do ponto de vista de que Northampton é o centro exato do país, geográfica, econômica e politicamente. É um modelo bom o suficiente para representar uma cidade comum. As ruas principais estão sendo interditadas, as pessoas estão sofrendo abusos por parte da administração, e há lixo em todo lugar.

O que te levou a falar sobre essas questões tão diretamente agora? Não que faltassem problemas sociais nos anos 80. 
Há uns dois anos um grupo de ex-criminosos juvenis entrou em contato comigo. Eles ti-nham trabalhado com música na área de Burrows em Northampton. Foi lá que eu nasci, cresci e onde a maior parte do meu próximo romance se passa. Eles tinham decidido fazer um filme sobre essa área negligenciada. Já que eles sabiam que eu tinha vindo de lá, me perguntaram se eu gostaria de ser entrevistado pro filme. Eles estavam trabalhando em parceria com o Central Museum em Northampton. Eu fui até lá, encontrei com eles, e nos demos muito bem. Eu queria continuar em contato com eles além da duração daquele projeto inicial, então fui todas as semanas para os escritórios de uma organização de ajuda à comunidade local chamada CASPA que estava fazendo um trabalho brilhante na área. Encontrei com os meninos e a tutora deles, que era uma jovem maravilhosa chamada Lucy, e eu inevitavelmente contei a eles sobre a cena local, a cultura underground e os clubes de arte que existiam enquanto eu tava crescendo e que fizeram tanto para me tornar a pessoa que sou hoje. Eu também contei a eles sobre como nós produzíamos revistas e fanzines e organizávamos leituras de poesia e coisas desse tipo. Tenho certeza que foi muito chato pra eles escutarem todas aquelas histórias, mas parece que as ideias colaram. Eles decidiram fazer uma revista sozinhos, para a qual eu contribuí. Tanto eu quanto os meninos queríamos falar sobre alguns dos verdadeiros problemas que afligiam a área, e como era uma vergonha que nós provavelmente não poderíamos tratar disso na revista porque ela era financiada pela Prefeitura. Nós discutimos a possibilidade de fazermos uma revista independente e decidimos tentar. As edições pareceram ser tão importantes para as pessoas daquela área que não podíamos abstê-las da comunidade local. Eu escrevi um artigo que chamava Os Incineradores. Era sobre um velho incinerador que estava na área de Burrows. Era pra lá, antigamente, que o lixo da cidade inteira ia.

Certo, o que é um detalhe esclarecedor.
Isso passou uma mensagem muita clara sobre o que as pessoas da administração pública pensavam das pessoas que moravam naquela área, e ainda que o incinerador tenha sido demolido na década de 30, a mensagem permanece aplicável à área hoje em dia. É para onde a administração pública manda as coisas com as quais não quer lidar: grupos de imigrantes, ex-presidiários e pessoas que estavam em asilos. Todas as pessoas problemáticas são enfiadas nessa vizinhança, muitas vezes em acomodações que foram condenadas pelos bombeiros. Coisas horríveis acontecem aqui todos os dias. 

E a administração acabou bloqueando esse artigo?
Sim. Nos disseram que não podíamos publicar o artigo porque era crítico à administração, então Lucy e eu demos um jeito para que ela pudesse trabalhar só três dias da semana na CASPA e nos outros dois trabalhasse em uma revista independente comigo. A administração logo disse a ela que se ela fosse trabalhar dois dias da semana em uma revista independente ela não teria seu emprego na administração nos outros três dias, foi aí que decidi que isso já era demais e convidei a Lucy para trabalhar na Dodgem Logic por tempo integral. As questões que estamos tratando são importantes, e a revista oferece um lugar onde essas coisas podem ser discutidas. Nós não somos presos a nada e podemos dizer o que quisermos. Porém nós não queremos deixar as pessoas deprimidas, então temos tentado colocar o máximo de coisas lá que sejam verdadeiramente divertidas, assim como as coisas sociais e políticas. Essas são estratégias para ajudar as pessoas a passarem por tempos difíceis—dar a elas informação de que elas precisam, mas também dar algo que as anime. 
 

 

É uma boa causa.
Eu não fiz muita coisa além de passar pela área por muitos anos. Conhecer pessoas boas que moravam lá nessa situação podre foi o que me fez resolver que eu queria fazer alguma coisa com foco naquela área. Burrows está no topo dos 2% de escassez no Reino Unido. Existem áreas iguais por todo o país, mas elas são varridas pra baixo do tapete. Eu também sinto uma ligação emocional com essa área, que eu sempre tive, e vi uma oportunidade de produzir algo lindo e útil sobre aquele ambiente e ao mesmo tempo criar um modelo para outras áreas semelhantes. 

No passado você defendeu anarquia tanto no seu trabalho quanto na sua vida pessoal. Essa seria sua resposta aos problemas sociais discutidos na Dodgem Logic?
Bem, na verdade, para a segunda edição eu escreverei um artigo introduzindo a anarquia e explicando como ela poderia ser aplicada de maneira prática na nossa situação atual. Então sim. Uma das coisas para a qual eu estarei voltando minha atenção é o princípio da loteria ateniense. Isso basicamente dita que uma questão que precisa ser resolvida em nível nacional ou administrativo, você aponta um júri por loteria. Eles podem vir de qualquer lugar de dentro da cultura e são escolhidos de maneira completamente aleatória. Os prós e os contras do caso são então apresentados para o júri, eles ouvem, debatem e votam. Após a decisão, eles não fazem mais parte do júri. Eles voltam à sociedade, e para a próxima questão outro júri é escolhido. O sistema parece, para mim, se aproximar de algo como a democracia, que é algo que nós não temos nesse momento. A palavra “democracia” vem de “demos”, o povo, e “cratos”, mandar—“o povo manda”. Ela não diz nada a respeito de representantes do povo eleitos que governam, que é o sistema que temos no momento. Mudando para algo próximo disso, iríamos criar um sistema livre dos muitos abusos do nosso modelo atual de governo. É bem difícil comprar o apoio do povo se você não sabe quem são as pessoas que você deveria estar amaciando. Também seria difícil para o corpo dominante temporário agir em interesse próprio, já que faria mais sentido para eles agirem no interesse da sociedade para a qual eles estariam retornando. 

Isso é interessante. Tem elementos de anarquia e democracia. 
Sim, isso enquadraria o círculo entre as ideias de anarquia e governo. Minha definição de anarquia é a grega: sem líderes. É difícil pensar em uma sociedade ordenada que se conforme a esse ideal, mas com a loteria ateniense você não teria líderes, você teria indivíduos tomando decisões balanceadas. Seria necessária uma quantidade enorme de mudança constitucional, mas eu gosto de colocar a ideia no mundo para que se torne uma possibilidade e algo a ser discutido. Nossa forma de governo atual claramente não está funcionando, e não dá para continuar tentando remendar um modelo que é inerentemente fracassado. Talvez seja a hora de termos um novo modelo, em vez de colocar remendos no radiador do velho modelo de Ford Bigode que chegou ao fim de sua vida útil. 



 
 
Você tratará desses temas na sua ficção? Eu pergunto por que Dodgem Logic lida diretamente com o seu ambiente local, e seu próximo romance também se passa nessa área, como a sua primeira. 
Até certo ponto. Os métodos se complementam. Dodgem Logic e Jerusalem lidam essencialmente com a mesma vizinhança e território, mas de maneiras radicalmente diferentes. Ler uma edição de Dodgem Logic será uma experiência diferente de ler um capítulo ou dois de JerusalemDodgem Logic sou eu tentando fazer algo inteligente mas também acessível. Em Jerusalem, eu não ligo se alguém vai gostar ou não. Só estou tentando conseguir escrever da melhor maneira possível. Jerusalem é entre mim e o mundo. Se ninguém ler, é um problema para mim, enquanto Dodgem Logic é importante de um jeito diferente. É importante em termos das questões que levanta a respeito da área, e essas são questões que eu quero que as pessoas ouçam falar. Ambas são tentativas de revigorar e reinventar a vizinhança em contextos diferentes. Dodgem Logic é tentar literal e praticamente revigorar a área e dar algo de volta ao seu povo. Jerusalem é mais próximo ao que Iain Sinclair conseguiu com seu livro maravilhoso Hackney, That Rose-Red Empire. Ele capturou a rica neve do Hackney que estava desaparecendo. Ele conseguiu deixar todos os personagens amplos e as eras perdidas naquele livro antes que eles fossem achatados e esmagados para abrir caminhos para a Vila Olímpica. Com ficção, você tem os meios—talvez o único meio verdadeiro—para ou ressuscitar ou preservar os lugares que vão desaparecer, senão hoje, amanhã. 

O conceito de preservar o passado através da ficção é um que você abraça em A Liga Extraordinária. Cada célula é estufada com toneladas de referências históricas e culturais. 
Com a Liga, e eu posso te contar que acabei de terminar de escrever o livro 3 hoje, nós estamos tentando criar, através da ficção, uma Arca de Noé cultural na qual todos os grandes escritores e as grandes ficções que Kevin e eu sentimos serem dignos de preservar possam ser mantidos vivos por um pouco mais de tempo antes que elas afundem nas profundezas da ignorância. 

Liga existe em um espaço estranho entre ficção e realidade. 
Com certeza. Nós temos uma realidade bem definida e é algo que fica mais forte no decor-rer da história. Provavelmente deve ser a maior continuidade na literatura de todos os tempos porque tem todas as continuidades individuais dos personagens subsumidas.

Existem tantos personagens fictícios e suas histórias na Liga, é impressionante que tudo se mantenha coerente.
Nós estamos tentando fazer com que essas inspirações fictícias de épocas específicas caibam em nossa continuidade final, então você tem um mundo onde os nazis invadiram e Fu Manchu era real, mas ao mesmo tempo ela reflete o nosso próprio mundo e o desenvolvimento dele. Pode ser um espelho distorcido, mas ele ajuda a ordenar a nossa percepção do nosso próprio mundo. Nossa realidade não era aquela da Liga, mas poderia ser o que estávamos sonhando em nossas ficções. Ela nos permite enxergar o que poderia ter acontecido e o que poderíamos ter aspirado sermos. É a outra metade da história. 

Certo.
E tem uma história verdadeira na série também, o que em si é um tipo de ficção. E há um tipo de história apresentada em nossa arte, livros e literatura. O que, em um sentido peculiar e psicológico, é mais verdadeiro e mais confiável do que a história convencional, supostamente factual, que pode realmente não ser verdadeira de maneira alguma. Ao longo da Liga nós estabelecemos um sentido que a ficção é de fato o fundamento onde a humanidade está se apoiando e que o nosso mundo real é, no final das contas, baseado em ficção. 

Como você continua a enfiar tantas referências culturais e literárias na Liga?
São os meus interesses e os do Kevin e o resultado da pesquisa que fizemos quando definimos o conceito. Então começamos a pensar seriamente sobre o que aconteceria se tivesse uma história na qual tudo que viesse do mundo da ficção pudesse ser incluído. Isso significava que seria necessária uma geografia própria, com a qual lidamos do apêndice ao segundo volume. Também era necessária uma história própria, que tratamos em O Dossiê Negro. Por exemplo, nós não tínhamos Adolf Hitler em nossa realidade fictícia, tínhamos Adenoid Hynkel de O Grande Ditador de Charlie Chaplin. Na nossa realidade, o personagem M, que é o líder do MI5, acaba sendo Harry Lime de O Terceiro Homem, que foi escrito por Graham Greene, que baseou aquele personagem em um amigo que teve durante toda a sua vida, que era um espião de verdade e desertou para a União Soviética, um homem chamado Kim Philby. E então decidimos fazer Harry Lime só um pseudônimo para Robert Sherry, que era um dos personagens que frequentava a Greyfriars School nos livros de Billy Bunter.

Louco.
Então decidimos transformar o Grande Irmão do George Orwell no Harry Wharton, que era o líder da gangue na Greyfriars. Nós também transformamos Greyfriars em uma escola pública britânica que estava recrutando para o serviço de espionagem, o que em troca se mistura bem na história de verdade. O que segurou foi descobrir que ouve uma breve divergência entre Frank Richards, que havia escrito as histórias de Billy Bunter, e George Orwell, que havia escrito um ensaio sobre como os livros de Bunter representavam tudo que era ruim a respeito do Império Britânico. Frank Richards tentou desastrosamente escrever uma réplica a Orwell, onde ele respondia às acusações de que ele havia retratado estrangeiros como sendo cômicos simplesmente dizendo: “Eles são”. Essa ligação entre realidade, ficção e a ficção sendo discutida na realidade torna os nossos usos ainda mais apimentados.

Tanto a Liga quanto V de Vingança retratam distopias fascistas. Você teme que os futuros fictícios que você criou possam acontecer durante a sua vida? 
Não. Claro, eu posso estar totalmente equivocado, e acho que o fascismo ainda está por aí nos causando um monte de problemas, mas eu genuinamente penso que ele vem de um lugar tão ignorante que não pode adequadamente lidar com as realidades do século XXI. É um conceito muito simplista e não tem a complexidade necessária para lidar com as realidades diárias da nossa situação atual, que são bem caóticas. Só é realmente eficaz no nível de assassinos de rua, o que pode causar problemas para grupos de minorias marginalizadas. Essa é uma realidade terrível para muita gente, mas, como força política, fascistas não podem ser levados a sério. Eu concordo com [o comediante] Reginald D. Hunter, que diz, “Você tem que deixar os fascistas falarem”. Deixá-los falar em público não fará nenhum bem a eles, já que a voz deles é tão estridente, desagradável e brochante que eu não acho que vá ajudar de maneira alguma seus prospectos eleitorais. Se você tentar silenciá-los, você permite que eles se digam oprimidos pela elite liberal. 

O que podemos esperar de Jerusalem? Os temas de A Voz do Fogo serão retomados?
Jerusalem certamente terá elementos em comum com A Voz do Fogo e terá elementos de experimentação formal, mas terá a mesma estrutura. Jerusalem será dividida em três li-vros. Espero que saia em um só livro com as três partes. A primeira parte lembrará A Voz do Fogo no sentido de que pulará de personagem para personagem em épocas diferentes na terceira pessoa do passado. O segundo livro envolve uma narrativa linear contínua de capítulo a capítulo, e é certamente onde a maior parte dos elementos fantásticos acontece. Se parece um pouco com uma história louca de crianças, uma vez que a maioria dos protagonistas é criança ou o fantasma de crianças mortas. A segunda parte envolve um paraíso da classe trabalhadora com anjos da classe trabalhadora que jogam bilhar com almas humanas, uma ideia que me agrada bastante. A terceira parte, que atualmente está a nove capítulos de ser terminada, é a coisa mais demente e experimental que eu já fiz. Até agora está tudo no presente e cada capítulo é escrito em um estilo completamente diferente. O capítulo que eu acabei de terminar é intitulado “Round the Bend” e ele lida com o hospital de St. Andrew, que é um lugar maravilhoso onde eu e minha esposa nos casamos. Seus pacientes incluíram Spike Milligan, Dusty Springfield, Patrick Stewart, Sir Malcolm Arnold, o compositor, J.K. Stephen, o suspeito de ser Jack o Estripador, e Lucia Joyce.

Para os nossos leitores que não sabem, ela era filha de James Joyce.
Ela ficou 35 anos lá como uma paciente mental. O capítulo que eu acabei de terminar envolve Lucia Joyce passeando pelo hospital enquanto ela também está passeando em sua mente, onde está encontrando outros pacientes de outros tempos que ela não poderia fisicamente encontrar. É uma turnê de alucinação em volta do terreno do hospital e dentro da mente de Lucia, e é escrita no que eu tenho certeza ser uma tentativa tosca de usar a linguagem de seu pai, que te leva através desse estado angelical em que Lucia se encontra. William Blake é outra figura que obviamente está pairando sobre Jerusalem, ainda que ele não apareça diretamente, assim como John Bunyan, que aparece. Ambos ajudaram a inspirar os aspectos visionários do romance. Demorei uma eternidade para escrever o capítulo da Lucia Joyce. 

O seu livro sobre mágica ainda está nos planos?
Sem dúvida. Assim que eu terminar os últimos livros da Liga e Jerusalém, vou trabalhar nele.

O que na mágica te interessa tanto?
Mágica para mim oferece uma nova perspectiva para ver o mundo, sua vida e a realidade. Assim como uma nova abordagem para a sua relação com sua própria consciência. 

Acaba meio que sendo classificada como Nova Era, então fica difícil para a maioria das pessoas sequer levarem em consideração.
No início eu era muito cético a respeito de mágica graças ao número enorme de idiotas associados a ela. Porém, a ciência não consegue explicar ou racionalizar o conceito de consciência porque não consegue replicá-lo em um laboratório. Isso deixa a maior área de nossa experiência no mundo sem explicação. Com mágica, todo o tipo de possibilidades é oferecido para o que a consciência pode ser, que áreas da consciência podem ter qualidades estranhas, e quais podem ser aplicações práticas para tais qualidades. 

 
Antigamente intelectuais e filósofos podiam se interessar abertamente em magia sem serem ridicularizados. 
Magia é simplesmente uma maneira de explorar o mundo. Ela envolve seguir conceitos que certos indivíduos têm explorado desde o início da humanidade. Alguns deles eram charlatões, alguns eram maníacos iludidos ou gente atrás de atenção, mas alguns deles eram pilares onde nossa realidade inteira é baseada. Paracelso basicamente avançou os conceitos de Medicina moderna, assim como foi a primeira pessoa a explorar o conceito de inconsciente—séculos antes de Freud ou Jung. Ele também era um mago. Ele mesmo não teria usado esse termo. Ele provavelmente se via como um filósofo natural...

Talvez devêssemos voltar a usar esse termo. Mas por favor, continue. 
Muitos dos pilares da nossa cultura têm raízes no oculto. Os primeiros escritores e artistas vieram da cultura xamânica, e a Ciência vem da alquimia. Isaac Newton era um alquimista. Parece que Einstein morreu com uma cópia de A Doutrina Secreta da Madame Blavatsky na sua mesa, e sem dúvida existem similaridades entre esse trabalho e a teoria geral da relatividade de Einstein. Porém, mágica tende a ser vista como essa relação demente que nós não queremos trazer à tona nesse estágio de avanço da nossa cultura. 

O que te levou a escrever um livro sobre magia?
A ideia veio quando decidi, junto com meu parceiro de magia, Steve Moore, que era hora de colocar nossas cartas na mesa e explicar o que é mágica, como fazê-la, e por que você provavelmente deveria aprender a respeito dela em um livro que não estivesse se escondendo atrás de imagens pseudo-assustadoras ou de um jargão oculto incompreensível. 
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