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O coletivo Mulheres Pretas Independentes de Favela levou os orixás e a rua para a moda

“Comprar uma revista Vogue ou uma roupa da Forever 21 nunca foi uma opção pra gente, mas, sim, receber uma peça que a nossa avó ganhou de doação."

por Débora Lopes; fotos por Larissa Zaidan
28 Março 2017, 6:39pm

Foto: Larissa Zaidan/VICE

Foto: Larissa Zaidan/ VICE

O último domingo (26) anoitecia devagar na região central de São Paulo quando um casarão antigo foi transformado em palco para a estreia das criações de moda do coletivo Mulheres Pretas Independentes de Favela (MPIF). Era a primeira vez que quatro jovens moradoras da periferia de São Paulo exibiam seu trabalho para o público. A ansiedade e o nervosismo estava no ar. Era também a primeira vez que muitas das modelos ali – todas negras e periféricas – desfilavam. 

Foto: Larissa Zaidan/VICE

Composto pelas gêmeas Tasha e Tracie Okereke (do Expensive $H1T), Aniele Ribeiro e Valérie Alves, o MPIF (lê-se "êmepif") foi formado para colocar em prática o que cada uma das meninas fez, individualmente, a vida toda: tentar se vestir bem com pouca ou nenhuma grana. "Comprar uma revista Vogue ou uma roupa da Forever 21 nunca foi uma opção pra gente, mas, sim, receber uma peça que a nossa avó ganhou de doação", justifica Aniele. Daí partiu a iniciativa de aprender a costurar ou customizar as próprias roupas – e o gosto pela moda ficou ainda mais forte.

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O desfile, que aconteceu na Casa da Povo com apoio da Melissa, exibiu um pouco mais de 20 looks, que traziam veludos, paetês, pérolas, transparências, brilhos e frases como "Temer jamais", "Você sabe quem matou Luana" (em referência à Luana Barbosa dos Reis Santos, mulher periférica que, em 2016, morreu após ser espancada por três policiais militares) e "Revidaremos".

Foto: Larissa Zaidan/VICE

Todas as criações, cheias de vigor e ancestralidade, foram inspiradas nas vivências das ruas e em orixás femininos, como Iemanjá, Nanã, Oxum e Iansã. "Usamos o que queremos. Não importa o que as pessoas achem. Vamos andar assim. Com transparência, excesso de joias", frisou Tracie. 

Foto: Larissa Zaidan/VICE

O público podia acompanhar as profissionais de beleza produzindo as modelos e até mesmo xeretar as roupas nas araras, os sapatos e as bijuterias. "Pode mexer, gente", disse uma das gêmeas ao microfone. Um documentário sobre o desfile será apresentado na SP-Arte deste ano, em abril.

Com a barriga de grávida evidenciada pela saia de cintura alta, Valérie explicou que, apesar de cada uma das meninas ter seu projeto individual, a criação coletiva foi importante para o resultado final. "São peças criadas por nós, desenhadas por nós. Colocamos toda a nossa inspiração, toda a nossa vivência diária de rua dentro do desfile de hoje", ressaltou.

As criadoras do MPIF, Tracie Okereke (de microfone na mão), Tasha Okereke (ao lado), Valérie Alves (grávida) e Aniele Ribeiro (ajoelhada, de vestido vermelho). Foto: Larissa Zaidan/VICE

Para a gêmea Tasha, esse tipo de projeto é importante porque leva novos ares às garotas pobres da periferia que sempre se sentiram relegadas quando o assunto era moda. "Isso irá fundamentá-las de que não existe coisa impossível", propôs. "Tudo o que fazemos é pra menina que é como a gente. Estamos falando com propriedade. E queremos mostrar poder: a mulher preta como realeza, que é o que ela é."

Foto: Larissa Zaidan/VICE

Saque mais fotos do desfile do MPIF feitas pela Larissa Zaidan abaixo.