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Zé Cláudio e a Majestade

Fui conhecer a Majestade, a maior castanheira do lote de José Cláudio Ribeiro da Silva e dona Maria do Espírito Santo da Silva. Maior castanheira que eu já vi na vida, maior castanheira que ele, também, diz já ter visto.

por Felipe Milanez
28 Outubro 2010, 4:15pm

Fui conhecer a Majestade, a maior castanheira do lote de José Cláudio Ribeiro da Silva e dona Maria do Espírito Santo da Silva. Maior castanheira que eu já vi na vida, maior castanheira que ele, também, diz já ter visto. O casal vive da coleta de castanha e extração de essências da floresta, no assentamento extrativista Praia Alta Piranheira, no violento sudeste do Pará. Negam-se a negociar árvores da floresta como madeira com madeireiros da região, que serram ilegalmente até as castanheiras – que são protegidas por lei.

Recentemente o Ibama fechou duas serrarias em Nova Ipixuna, cidade mais próxima do assentamento, justamente pelo fato de terem sido encontradas castanheiras nos pátios onde as toras eram guardadas. Conscientes da ilegalidade, e de que a prática predatória é insustentável e vai levá-los à miséria, ao fim da floresta e, consequentemente, a perder a terra para a pecuária, como querem os fazendeiros do entorno, eles resistem à pressão e não vendem madeira ilegal – além de denunciarem os crimes. Atuam sozinhos, quase sem apoio de sindicato, apenas da Comissão Pastoral da Terra. Foram abandonados pela maioria das famílias do assentamento, que desistiram da resistência junto com eles na vida extrativista e sucumbiram ao aliciamento para vender as árvores, e a queimar o resto da floresta para produzir carvão para a indústria siderúrgica em Marabá. Pela atuação política que travam em defesa da floresta, são ameaçados de morte.

A Majestade é linda e imponente, com quase 11 metros de diâmetro. Tem o lindo corpo das castanheiras, longilíneo, cuja copa abre-se como um buquê, no alto, dominando o dossel. “Quando eu morrer, quero ser cremado e minhas cinzas jogadas no pé da Majestade”, confidencia. Por vezes, conta Zé Cláudio, ele para em frente ao tronco enorme e conversa com a Majestade. Enquanto retornávamos pela mata, perguntei algumas coisas pra ele.

VICE: Quando uma árvore dessas é cortada, a seiva te lembra sangue?
Zé Cláudio:
Meu amigo, ela exala um cheiro quando está sendo cortada, que você sente. Quando vai cair, ai você escuta o gemido dela: ela range, no tronco. Aí você vê as folhas mexendo-se como quem vai dando adeus. Tshhhhh... Aí você escuta um estrondo: treummm.... E mais um gigante da selva tombou. Outro dia estávamos aqui e escutamos a moto-serra zunindo. E veio o estrondo. Falei para a dona Maria: "vamos lá?" "Vamos". Caiu bem perto do nosso lote, mas não chegou a cair na nossa terra. Eles iam derrubando tudo.

Você sente como um outro ser que morre?
Eu sinto como se um cara matou alguém. Porque é um ser vivo. Tem uma música que diz que se a floresta tivesse pé para andar, ela não ficaria aqui. Se sentisse o perigo, saía. Mas daí o cara chega, limpa ao redor, acelera a moto-serra. Rom, rom, rom... E ela ta lá quietinha. No lugar dela. Só sentindo a dor. O que a natureza leva anos e anos para fazer, o cara acaba dentro de uma hora. Menos de uma hora, tudo isso, em nome do capital. Tudo em nome do “se dar bem”. Tudo em nome do “ah, eu sou o empresário fulano de tal”; “eu exportei 100m3 de madeira pros Estados Unidos, pro Japão, não sei pra onde”; “eu tive um lucro de tanto esse ano”. Às custas da floresta, de algo que ele não plantou, de algo que ele não gastou um centavo para fazer. É muito fácil ganhar dinheiro desse jeito. E nem as responsabilidades que ele tem, em pagar os impostos, nada ele cumpre. É sempre driblando fiscalização, fazendo as coisas ilegais, trabalhando ilegalmente. Só a ponto de enriquecer. Pode? Se ao menos fizessem as coisas dentro da legalidade... Porque a castanheira é proibida de ser cortada em todo o território. E por que cortam? E acham quem compra. Aí depois falam: não sei quem está trabalhando sobre meio ambiente. Mas esse alguém compra a madeira ilegal que sai daqui. De castanha, que é ilegal. Do mogno, que é ilegal. Da andiroba, que é ilegal. Da copaíba, que é ilegal. E por que compram? Por que não procuram a origem?