Tirando o Pó dos Tesouros Setentistas da Disco Africana com a Strut Records

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Tirando o Pó dos Tesouros Setentistas da Disco Africana com a Strut Records

O selo de afrobeat lançou mais um volume da sua aclamada série ‘Next Stop Soweto’ e nós aproveitamos a ocasião para repassar a história da disco na África.
16 Março 2015, 4:00pm

A música dance aul-africana está pegando fogo.

Mês passado, aconteceu a festa Ultra South África, que acabou sendo o maior festival de música eletrônica da história do país. Heróis locais como Black Coffee, Spoek Mathambo, e o dream team Afro-Zulu de Spoek, Fantasma, estão arregaçando tanto em casa quanto fora do país. Até o Boiler Room foi para Joanesburgo em janeiro último com um lineup matador que contava com nomes como Black Coffe, Black Motion, Shimza, Culoe de Song e Okmalumkoolkat. Ah, e era o maior grupo de house music do mundo.

O sul africano Black Coffee é o rei do Afro-House

Obviamente isso não aconteceu do nada. O house pode ser o coração palpitante da África do Sul de hoje, mas veja história do gênero no país e você irá encontrar uma rica tapeçaria tecida na disco com sabor africano, soul, rock, boogie e jazz. Essa semana, essa história está sendo passada a limpo pelo selo de afrobeat Strut Records, com o quarto volume de sua aclamada série Next Stop Soweto.

A compilação junta 15 faixas que você provavelmente nunca ouviu de Zulu disco, afro-disco, e mbaqanga (um estilo de jazz africanizado) de 1975 a 1985. Essa foi uma época crucial, diz o fundador do Strut Records, Quinton Scott, porque foi ela que levou à explosão que seria o "world" music de meados dos anos oitenta. (Nós vamos entender por que ele odeia o termo mais tarde.) "Musicalmente, é um período muito frutífero," diz Scott. "Havia algumas incríveis fusões de estilos das townships [bairros de periferias sul-africanas] com soul, disco e rock. O som reconhecível das townships no mbaqanga havia andado para um território novo... abrindo espaço para um vocal principal com um estilo muito mais soul."

Também é importante lembrar o contexto sócio-político: essa música foi feita durante o apogeu do governo opressor do apartheid sul-africano. A crescente resistência estourou em junho de 1976, quando 20 mil estudantes foram às ruas no protesto chamado Levante de Soweto. O resultado: 176 pessoas foram mortas quando autoridades armadas abriram fogo na multidão. "Era um tempo muito sombrio, sem esperança real em vista," diz Scott.

"A música do período respondia à condição das pessoas com uma explosão de desenvolvimentos inovadores e mudanças de estilo." Por um lado, havia o crescimento de hinos políticos carregados de letras cifradas. Scott aponta a mensagem levemente escondida para o governo na faixa "1,2,3" de Saitana no Next Stop Soweto Vol. 4: "1,2,3 - your turn is over / 4,5,6 - our turn has started" (algo como "1, 2, 3 - seu turno acabou / 4, 5, 6 - agora é nossa vez.")

Por outro lado, também houve a ascenção do gênero apolítico, leve e preferido de todos: disco. "Disco foi influente de várias maneiras tanto para o público negro quanto brancos," diz Scott. "Produtores prolíficos como Mike Pilot lançaram faixas de Hi-NRG para discotecas predominantemente brancas, enquanto os artistas negros usavam referências distintas."

Hamilton Nzimande no comando.

Uma influência importante foram as estrelas do soul afroamericanos dos Estados Unidos, cujo sucesso carregou uma importante mensagem sócio-política para os músicos sul-africanos. O produtor Hamilton Nzimande, uma figura instrumental para a introdução do soul na música sul-africana, ajudou a estimular a produção local de bandas de R&B. Em 1969, Nzimande descobriu The Movers, com quem ele "desenvolveu um som instrumental carregado pelo orgão, misturando o mirabi das townships com R&B," explica Scott. Sua faixa "Soweto Disco" está sendo lançada exclusivamente abaixo.

Enquanto a disco sul-africana setentista pode não ser a influência mais direta da efervescente cena de house africano atual - os sons do kwaito dos anos 90 são um ponto de referência mais próximo, diz Scott - ele serve como um exemplo prematuro da extraordinária capacidade sul-africana em infundir música estrangeira com seus sabores locais.

"Seja jazz, soul, trios de orgão Hammond, rock, disco ou boogie, artistas sul-africanos criaram consistentemente fusões únicas que estão, pelo menos, lado a lado com qualquer coisa que foi criada no ocidente. Pode-se dizer o mesmo para a atual cena de house e produtores eletrônicos," diz Scott.

Mas ainda existem desafios pela frente. O rótulo problemático "world music" continua a classificar artistas da África do Sul que conseguem projeção no mercado internacional. Quando nós falamos com o Black Coffee mais cedo esse ano, ele partilhava da mesma preocupação, dizendo que ele esperava ver os artistas sul-africanos serem reconhecidos por seus próprio méritos - e não reduzidos ao rótulo de "Artistas Africanos." "Eu gostaria de estar onde todo mundo mais está," disse.

Liderando a investida de trazer os sons sul-africanos de volta aos ouvidos ocidentais estão selos como o Strut, além de labels de relançamentos como Soundway e Analog Africa, que Scott louva por "mudar todo o mercado." Ele também elogia o Sublime Frequencies por suas "descobertas cruas, lo-fi", a "mineiração de algumas ótimas e inesperadas faixas de zamrock" de Stone Throw, as sensibilidades de "alta classe" de Honest Jon, e a "abordagem fresca e progressiva" de Glitterbeat.

"Existe verdadeira confiança na cena sul-africana no momento. Também existem alguns excelentes produtores que surgem na África - caras como Tekno na Nigéria, e o multi-instrumentista Kwame Yeboah com seu prolífico estúdio em Accra, Gana, são muito bons," Scott conclui. "Eu espero que o sucesso sul-africano se torne muito mais pan africano."

Next Stop Soweto Vol. 4 Zulu Disco, Afro-Disc & Mbaqanga 1975 - 1985 já foi lançada pelo Strut Records. Compre aqui.

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Tradução: Pedro Moreira.