A ciência diz que você devia jogar mais videogames violentos
Image: Gremlin/Getty Images
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A ciência diz que você devia jogar mais videogames violentos

E não deixe os chatos dizerem o contrário.
30 Dezembro 2016, 11:00am

Os reaças querem que você acredite que videogames violentos causam violência na vida real. Mas a posição deles é preguiçosa e nascida de pura conveniência. Há poucas evidências que apoiam isso, e as que existem se baseias em pesquisas porcas.

Mas há provas sugerindo que videogames, principalmente jogos de tiro em primeira pessoa, podem ajudar a construir partes do seu cérebro e te ajudar a se conectar com outras pessoas.

Mas antes entrar nisso, vamos abordar as alegações não confirmadas de que tiroteios digitais colocam um gosto por sangue real na boca dos jogadores.

Num estudo de 2014, Christopher Ferguson, professor de psicologia da Stetson University na Flórida, e sua equipe conduziram duas investigações sobre violência na mídia. A primeira pesquisou a ligação entre violência no cinema e as taxas de homicídio nos EUA entre 1920 e 2005, e a segunda examinou as taxas de violência juvenil contra exposição a videogames violentos nos últimos 20 anos. A primeira descobriu que apesar de haver uma ligeira correlação entre violência nos filmes e violência real nos anos 50, não havia relação pelo resto do século. Crimes violentos caíram mesmo enquanto a violência televisionada subia. A segunda investigação descobriu que enquanto pessoas de 12 a 17 anos eram expostas a mais videogames violentos, o número de crimes violentos reais cometidos por essa faixa caiu. A descoberta coloca em dúvida as associações de que estamos propensos a imitar o que vemos, ou mesmo interpretamos, na tela.

A pesquisa de Ferguson também questionou a validade dos estudos que encontraram ligação entre videogames e violência. Tentativas de replicar esses estudos geralmente acabam com resultados conflitantes. É possível até que jogos violentos reduzam a violência, dando aos gamers um escape para sua agressão, ou mantendo pessoas potencialmente violentas em casa. Escrevendo para a US News and World Report no começo do ano, Ferguson se opôs as alegações do ministro do Interior alemão Thomas de Maizière, que disse que videogames "ajudaram a inspirar" o trágico atentado com arma de fogo de 22 de julho em Munique. Nas palavras de Ferguson:

"Esse episódio segue um padrão familiar. Um político ou oficial da polícia descobre que o responsável por um crime horrível também jogava videogames violentos (como a maioria dos homens jovens fazem hoje), e liga as duas coisas numa declaração pública. A mídia decide tratar especulações sem base como fato, o que gera um pânico moral contra videogames violentos."

Claro, a mídia nunca apresentou uma mensagem clara sobre videogames violentos. Algumas matérias dizem que eles não causam violência, outras que causam. Alguns artigos afirmam que ninguém sabe com certeza. E como duas manchetes do Daily Mail mostram, as conclusões variam muito com cada pequeno estudo divulgado:

Enquanto o mundo continua a debater sobre a moralidade da violência digital, pesquisadores estão compilando evidências sólidas de que jogos complexos fazem bem para o cérebro.

Em julho deste ano, por exemplo, uma pesquisa conduzida pela New York University Shanghai descobriu que jogar videogames baseados em ação pode ajudar a melhorar habilidades visuais e motoras dos jogadores. O estudo descobriu duas coisas principais: comparado com jogadores novos, jogadores mais experientes têm uma resposta mais rápida operando software de simulação de direção de veículos, e um grupo jogando o videogame de tiro em primeira pessoa Unreal Tournament por seis meses melhorou suas habilidades para dirigir mais do que um grupo que jogou Mario Kart. O jogo de tiro foi mais eficiente que um jogo realmente de corrida em melhorar habilidades motoras e ajudar motoristas experientes a dirigir com mais segurança. Isso provavelmente se deve à complexidade dos jogos de tiro hoje, que exigem que o jogador se mova e tome decisões rápido em mundos 3D.

Outro benefício de jogos assim apareceu num estudo de 2015, realizado pelo pesquisador John Velez da Texas Tech University. A pesquisa descobriu que jogar videogames de equipe, especialmente os jogos de guerra usados no estudo, pode tornar as pessoas mais sociáveis na vida real. "Jogos cooperativos parecem ter os maiores efeitos em termos de diminuir a agressão contra outras pessoas", disse Velez num comunicado à imprensa. Na prática, a pesquisa descobriu que jogar com colegas de time em Halo: Reach e TimeSplitters – dois jogos de tiro em primeira pessoa – fazia o jogador agir com mais empatia para com os outros. Durante o estudo, os jogadores tinham a opção de surpreender os oponentes com um barulho alto e desagradável no mundo real. Os jogadores tendiam a aceitar a oferta quando estavam jogando sozinhos. Os que jogavam em equipe não eram só mais gentis com os colegas, mas com seus oponentes, que estavam tentando matar no mundo virtual de faz de conta.

O fato de que gamers são seres humanos decentes pode explicar outro estudo de Ferguson, que observou mais de 300 crianças em idade escolar e não descobriu relações significativas entre jogos violentos e bullying ou outros comportamentos antissociais.

E Ferguson não está sozinho nessa linha de pensamento. Em 2013, por exemplo, 230 acadêmicos assinaram uma carta de reclamação oficial para a Associação Americana de Psicologia, pedindo que a instituição revisasse e retirasse suas declarações tendenciosas nessa área, denunciando videogames violentos com base em evidências fracas.

Podemos nos sentir atraídos por videogames violentos não para nos tornarmos violentos na vida real, mas para ter uma sensação de conquista, sugere a psicóloga britânica Berni Good, que se especializou em ciberpsicologia, o estudo de como os humanos interagem com a tecnologia. "Uma coisa que descobrimos, e as pesquisas confirmam, e que essas experiências parassociais, onde as pessoas têm uma ligação com personagens num jogo, são particularmente úteis para aqueles que não têm necessariamente uma boa rede social", diz Good. "Estamos vendo jogos onde o jogador pode se relacionar com os personagens e as narrativas, e isso tem impacto em seu bem-estar emocional, particularmente se essas pessoas costumam se isolar."

Como exemplo, ela aponta The Last of Us, um jogo de terror enquadrado num apocalipse zumbi. Em certo ponto do jogo, é sugerido que a personagem principal, Ellie, sofreu abuso. "Você pode imaginar um jogador que passou por uma experiência similar, ele sente que pode falar com outras pessoas sobre isso." Mas o jogo certo pode até ter um valor terapêutico. Os jogadores podem ver seus personagens como sobreviventes prósperos. Podem ver o valor da perseverança. Os jogos podem fazer as pessoas se abrirem para algo que os psicólogos chamam de efeito desinibidor. "Com o efeito desinibidor, é quase como se todo mundo tivesse tomado algumas taças de vinho – é um lubrificante social e as pessoas conseguem ser mais honestas e sinceras", diz Good.

Good rejeita a ideia de que matar zumbis num mundo de faz de conta faz as pessoas quererem pegar em armas na vida real. "As pessoas sabem a diferença entre o ambiente virtual e o ambiente real", ela diz.

Então jogos violentos podem ser bom para nós? Provavelmente. Eles podem melhorar o funcionamento do cérebro e habilidades motoras e espaciais, e em alguns casos, podem ajudar pessoas com dificuldades sociais a se abrirem. E mais, videogames podem estar se tornando cada vez mais capazes de abrir uma discussão honesta sobre questões pesadas, como doenças mentais, depressão e autismo.

Mas fique tranquilo: ninguém está dizendo que você tem que jogar videogames violentos. Mas as pesquisas dizem que se você quiser jogar, tudo bem.

Tradução: Marina Schnoor.

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