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Drogas

Tudo que é preciso evitar antes de tomar ayahuasca

A verdade por trás de todas aquelas restrições antes de consagrar um cházinho.

por Suzannah Weiss
07 Agosto 2018, 2:00pm

Laura Austin / Stocksy

Antes de participar de meu primeiro retiro de ayahuasca no México, no ano passado, o organizador do evento enviou uma lista de alimentos e afins que todos deveriam evitar: nada de drogas por três semanas, nada de bebida ou porco por duas semanas nem latícinios, frituras, cafeína ou açúcar por dois dias. Os argumentos por trás de algumas das orientações pareciam meio dúbios, no mínimo (“nada de sal porque plantas como a ayahuasca gostam de água doce e não salgada”), já outros eram mais convincentes (“nada de alimentos com um aminoácido chamado tiramina porque ele pode aumentar sua frequência cardíaca, bem como a ayahuasca”). Algumas orientações aparentemente pretendiam servir como guia para se ter uma experiência melhor, já outras se voltavam para prevenção de quaisquer problemas de saúde. Devo comentar que, mesmo seguindo tudo à risca, duas de minhas três viagens foram bem fraquinhas.

Após ter meu inscrito para meu segundo retiro, desta vez na Holanda, vieram algumas instruções simples: evitar alimentos ricos em tiramina no dia anterior e parar de tomar quaisquer remédios com dois dias de antecedência. Comi nuggets de frango e batata frita na noite anterior à cerimônia, também tomei dois cafés com leite naquela manhã e tudo correu bem: a experiência foi intensa e eufórica. Os cogumelos que havia comido uma semana antes (afinal, eu estava na Holanda) não parecem ter atrapalhado em nada o meu lance com a ayahuasca, então me peguei questionando se tantas restrições eram mesmo necessárias – ou mesmo se qualquer restrição destas realmente vale de algo.

As alterações na alimentação prescritas por xamãs e organizadores de retiros como estes muitas vezes são chamadas de “dieta da ayahuasca”, mas tal dieta parece mudar de cultura para cultura, de acordo com Alex Gearin, antropólogo especialista em medicina e pesquisador honorário da Universidade de Queensland, na Austrália. “Há muitas crenças e recomendações na hora de se tomar ayahuasca em meio à Amazônia, por exemplo”, afirma. “A restrição alimentar mais comum nesses casos é com relação à carne de porco; a dieta purifica a mente e o corpo para recepção de trabalhos xamânicos como cura, caça, magia ou divinação.”

Há poucas pesquisas científicas que sustentem tais práticas, de acordo com Luís Fernando Tófoli, professor de psicologia médica e psiquiatria da UNICAMP. De fato, algumas das culturas que consomem ayahuasca contam com costumes que contradizem estas recomendações; a tradição brasileira do Santo Daime, por exemplo, envolve, em algumas ocasiões, o consumo de maconha durante as cerimônias. Já a União do Vegetal não apresenta nenhuma restrição alimentar e seus membros não apresentaram nenhum problema em especial, afirma Tófoli.

“Há alguns relatos de indivíduos que afirmaram ter tido uma experiência mais ‘clara’ com a ayahuasca ao seguir uma dieta compatível com a tradição vegetalista”, complementou Tófoli. “Infelizmente não dispomos de estudos que tenham examinado tais questões.”

Ainda assim, há dados em relação à tiramina, encontrada em queijos maturados, carnes curadas e alimentos em conserva, que sugerem que seu consumo em conjunto com inibidores de monoamina oxidase (IMAOs), como aqueles presentes na ayahuasca, pode ser perigoso. “Tanto a ayahuasca quanto a tiramina podem aumentar a pressão sanguínea”, afirma Scott Keatley, nutricionista nova-iorquino. “Caso a pressão sanguínea aumente muito de forma súbita, a crise hipertensiva pode levar a infartos, problemas cardíacos generalizados, perda de função renal, dores de cabeça e ansiedade.”

Alimentos que contenham triptofano, como é o caso de carnes como peru e laticínios, também podem causar problemas. Ao menos é o que afirma James Giordano, professor de neurologia e bioquímica do Centro Médico da Universidade de Georgetown, nos EUA; o triptofano aumenta a disponibilidade do neurotransmissor serotonina no cérebro e como a ayahuasca já estimula a liberação deste, o resultado pode ser um excesso de serotonina que pode levar a tremedeira, batimentos cardíacos acelerados, ansiedade, febre e até mesmo danos cerebrais em casos mais severos.

Evitar o consumo de álcool e demais drogas é recomendável também, de acordo com Tófoli, levando em conta alguns relatos de pessoas que tiveram experiências complicadas com ayahuasca após uso de álcool e cocaína. Qualquer estimulante, caso da cocaína, pode aumentar suas chances de sofrer uma arritmia cardíaca sob efeito da ayahuasca, disse Giordano. O MDMA é considerado uma droga especialmente problemática pois aumenta os níveis de serotonina, e consequentemente riscos advindos do excesso desta; Giordano recomenda que se evite o uso de drogas recreativas ao menos um dia antes e um dia depois de se tomar a ayahuasca. O mesmo pode ser dito para o álcool, que pode acabar aumentando os efeitos do DMT presente na ayahuasca, fazendo com que alucinações, náusea e aumento de batimentos cardíacos possam ser mais intensos ou duradouros, complementou Giordano.

Certos medicamentos ingeridos antes da cerimônia podem causar problemas por conta de seus efeitos na serotonina. Inibidores seletivos de recaptação de serotonina (ISRS) como Prozac e Zoloft, por exemplo, podem colocar você em maus lençóis, aumentando a possibilidade de sofrer os efeitos de uma síndrome serotoninérgica. Um estudo de caso descreve a experiência de um homem que sofreu com “tremores, sudorese, calafrios e confusão mental” depois de ter ingerido ayahuasca associada ao uso de Prozac. A situação é semelhante quando se usam medicamentos que funcionam como IMAOs, o que inclui remédios para tratamento de depressão e Mal de Parkinson; não se deve consumir nenhum destes antes da ingestão de Ayahuasca, que também contém IMAOs, afirma Tófoli. O consumo exacerbado destas substâncias de uma só vez pode aumentar os riscos de hipertensão e, mais uma vez, da ocorrência de uma síndrome serotoninérgica. Opioides também entram na lista de drogas a serem evitadas, considerando que aumentam os níveis de serotonina no cérebro.

Já no campo das restrições alimentares que as pessoas dizem melhorar a experiência, nos resta especular. Abdicar de substâncias como cafeína, álcool e açúcar pode reduzir seus níveis de serotonina, o que por sua vez levaria a um aumento maior deste neurotransmissor ao ingerir ayahuasca, proporcionando assim uma experiência de maior intensidade, disse Keatley. No caso do porco, Giordano comenta que talvez o consumo da carne seja proibido porque o porco cria ácido aconítico em seu corpo, que em combinação com a ayahuasca (que contém ácido endólico), pode levar à liberação de metabólitos que pesam nos rins – nada confirmado, porém.

Sendo assim, não há muitas evidências científicas por trás destas restrições que me foram impostas antes de tomar ayahuasca no México, mas pelo menos a galera da Holanda parecia mirar em algo mais certeiro. Por mais que não haja consenso quanto à proibição do consumo de carne e açúcar, é pelo menos recomendável evitar tiramina, drogas recreativas, bebida alcóolica e certos remédios antes de dar aquela consagrada. Talvez a sua viagem não seja mais potentona, mas ao menos será mais segura.

Esta matéria foi originalmente publicada na TONIC US.
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