Foto: Maurício Code

Relembramos como foi a primeira Parada LGBT do Brasil

Conversamos com as pessoas que estiveram presentes na parada de 1997, a primeira grande manifestação pública brasileira em prol dos direitos das pessoas LGBT.

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jul 20 2016, 3:00pm

Foto: Maurício Code

O ano era 1995 e a comunidade LGBT brasileira começou a dar os primeiros passos para o que conhecemos hoje como a Parada LGBT. Naquele ano, aconteceu no Rio de Janeiro a 17° conferência do ILGA (Associação Internacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Trans e Intersex) que terminou com uma pequena marcha na praia de Copacabana. No ano seguinte, aconteceu um ato na Praça Roosevelt, em São Paulo, com cerca de 500 pessoas para reivindicar direitos às pessoas LGBT. A partir daquele ato, diversos grupos em prol das causas LGBT começaram a se reunir para organizar uma marcha anual na Avenida Paulista. O movimento ainda era conhecido como GLS (Gays, Lésbicas e Simpatizantes).

Em 1997 aconteceu a primeira Parada LGBT na cidade de São Paulo, que contou com cerca de duas mil pessoas, quase um grão de areia perto dos milhões que comparecem nas paradas mais recentes. Inicialmente inspirada pelas marchas que aconteciam na Europa e nos EUA, quase 20 anos depois, muita coisa mudou. A manifestação cresceu muito e ganhou novas causas, agregou diferentes públicos, ganhou espaço em diversas cidades brasileiras e tomou para si a maior avenida de São Paulo de forma definitiva. Neste meio tempo também, a luta pelos direitos também cresceu e a causa pauta muitos debates e discussões na sociedade.

Conversamos com algumas pessoas que estão no movimento desde os primórdios para lembrar como foi aquele dia da primeira Parada LGBT do Brasil.

Foto: Guilherme Santana/ VICE

Lula Ramires, 56 anos, educador social e tradutor técnico.

VICE: Como foi a primeira parada em 97?

Lula Ramires: Em 1995, teve a conferência da ILGA, no Rio, e eu estava lá. Era a primeira vez que eu via o movimento na rua com a bandeira do arco-íris. Em 1996, em junho, teve uma manifestação na Praça Roosevelt. Tinha mais ou menos umas 500 pessoas, tava um dia frio, foi uma sexta-feira. O pessoal se reuniu, colocou algumas faixas na praça, fez alguns discursos. Foi mais uma comemoração. Em agosto, eu conheci um grupo que se reunia chamado CORSA. Fui numa reunião do grupo e passei a fazer parte. Em 97, teve o Encontro Nacional de Gays, Lésbicas e Travestis, chamado EBGLT, que foi em São Paulo, no mês de fevereiro, e ele terminou em uma passeata. Tinha mais ou menos umas 200 pessoas que foram do hotel onde era o encontro, no largo do Arouche, até o Teatro Municipal. De novo, aquela energia boa, a gente na rua.

A partir daí a gente formou uma comissão para introduzir outros grupos e propor sair pra rua. Então foi assim, a gente se organizou com outros ativistas e marcamos a data. A estratégia era a seguinte: todo ano, a televisão mostrava no dia 28 de junho as paradas de outros países, de Nova York, de São Francisco, alguma capital europeia. A ideia da gente era pegar carona nessa visibilidade que a imprensa dava.Então, a gente marcou no dia 28 de junho, às duas da tarde, na Avenida Paulista, imaginando que boa parte das pessoas que trabalhassem no sábado de manhã poderiam ir à tarde. Eu fui a primeira pessoa a chegar na Paulista nesse dia. Me lembro que eu estava lá e três jovens chegaram perto de mim e perguntaram se ia ter a parada, e respondi "Vocês não chegaram? Eu não cheguei? Vamos esperar mais gente" - mas eu não sabia se ia chegar mais gente. Sabia que os organizadores estariam lá. Mas começou a chegar cada vez mais gente e dois ônibus de Campinas vieram de um grupo que existia lá nessa época. A gente tinha uma bandeira do arco-íris que a gente conseguiu recursos para fazer e abrimos a bandeira na Paulista. Eram cerca de duas mil pessoas. Não era a coisa massiva que é hoje, mas a gente botou o bloco na rua. Saiu nos jornais nos dias seguintes algumas notinhas, nenhuma grande repercussão, mas o nosso objetivo tinha sido cumprido, que era o de dar visibilidade, ir pra rua.

Como você se sentiu naquele dia?
Todo ano quando eu volto, isso faz quase vinte anos, me lembro sempre daquele momento, até porque a gente saiu da Avenida Paulista, desceu a Consolação e terminou na Praça Roosevelt, onde a gente tinha feito o primeiro ato, em 1996. Quando a gente estava descendo a Consolação e você olhava para trás e tinha uma ideia de quantas pessoas estavam lá. Foi muito emocionante olhar pra trás e ver aquele monte de pessoas. A gente teve muita dificuldade de divulgar o evento. Você ia nas boates e nos bares gays, os donos não deixavam a gente divulgar, porque eles não queriam se meter com política. A gente achava um absurdo, o cara ganha dinheiro às custas da comunidade e aquele era o momento de retribuir. A gente fez a primeira parada sem nenhuma ajuda financeira das pessoas que lucravam com o público LGBT. A gente conseguiu alguns recursos para a bandeira, teve uma vereadora que imprimiu nossos panfletos, eram pequenininhos, cortados à mão mesmo.

Se eu pudesse resumir, diria que foi um momento de ousadia, de quebrar a casca e ir para a rua, num momento em que pouca gente tinha coragem de fazer isso. Sair do armário, muitas pessoas faziam isso, mas as coisas mudaram muito em 19 anos. O efeito das paradas em São Paulo, no Rio, diversas capitais Brasil afora foi justamente de provocar a discussão. Inclusive, com essa visibilidade, a gente conquistou muitos direitos. Mas a gente também teve como consequência uma homofobia motivada pelas religiões que saiu do armário também.

Antes a homofobia era mais velada?
Exatamente. As igrejas não se preocupavam em falar sobre isso, porque a própria sociedade rejeitava. Não tinha motivo para falar sobre isso, não era preciso tocar no assunto, porque todo mundo sabia que era errado. Naquele momento o movimento começa a desconstruir uma imagem que existia há 20 anos de que um homossexual era um homem afeminado, que era uma pessoa que não tinha caráter, que não era de confiança. Até hoje, quando você pensa, quando as pessoas chamam outra pessoa de viado, estão querendo dizer que essa pessoa não presta, não vale nada. Todo o nosso esforço foi de mostrar que a gente está em todas as classes sociais, todas as profissões, que a gente é igual a qualquer outra pessoa. A única coisa que nos diferencia é a atração que é pelo mesmo sexo e não pelo sexo oposto, isso é um mero detalhe, como ter o olho castanho ou o olho verde. Não afeta o seu caráter, ninguém é melhor ou pior do que ninguém pelo fato de ser homossexual.

Uma das reportagens que saiu uns dias depois da Parada falava que tinha um casal hétero que tinha ido com o filho de uns cinco anos. O repórter perguntou por que esse casal estava lá com o filho e eles disseram que queriam que o filho aprendesse que isso não é nenhum problema e que ele respeitasse as pessoas desde pequeno. Isso resumia tudo. A proposta do movimento LGBT não é que as pessoas sejam homossexuais, mas que elas sejam respeitadas. Acho que isso a gente foi conseguindo. Saí da primeira parada extasiado, achando tudo legal, porque existem outras pessoas como eu e a gente estava na rua defendendo nossos direitos.

Foto: Guilherme Santana/ VICE

Beto de Jesus, 53 anos, ativista

VICE: Como foi a primeira parada em 97?
Beto de Jesus: Então, em 95, nós tivemos a 17° Conferência Internacional da ILGA. Teve a primeira marcha do Orgulho no Brasil, no Rio. Em 1996, quando voltamos para São Paulo, fizemos uma atividade na Praça Roosevelt que tinha o mesmo caráter. Nós começamos a montar a parada de 1997 naquele ano.

No início, a organização era muito comunitária, várias outras organizações participavam na deliberação das ações da parada. Tinha um envolvimento muito grande da comunidade LGBT. Infelizmente, hoje se perdeu isso e a Associação é como se fosse uma empresa que administra o evento, impõe regras, cobra caro. Perdeu-se muito desse sentido comunitário do orgulho que tinha quando tudo começou. Acho que as pessoas que estão na Associação não estão ligadas a grupos, não têm uma vivência comunitária, elas não têm trabalho de base junto aos grupos. Ficou algo muito fechado. A comunidade em si, os movimentos, grupos, têm participação restrita. A gente frequenta a parada como uma questão cívica, mas aquele prazer de ser comunitário não existe mais.

A parada de 1997 foi uma coisa muito comunitária, tinha uma Kombi pequenininha, a gente ocupou uma faixa só da Paulista. A gente desceu a Consolação, parou na Roosevelt. Tinha um microfonezinho só, tinha duas mil pessoas, foi uma coisa bonita, muito linda, porque era uma manifestação para se mostrar gay, lésbica, bissexual, trans à luz do dia. Eu tenho orgulho de ser LGBT. Era muito engraçado, porque no começo muita gente perguntava se podia usar máscara, porque ainda tinham muito receio e muito medo da visibilidade. O que foi bonito é que durante a marcha, muitas pessoas tiraram a máscara e se sentiram confiantes, porque tinha um grupo significativo de pessoas. Muitas pessoas que estavam na calçada observando e vieram para dentro da marcha. Foi uma coisa muito bonita de pertencimento, de sentimento de corpo, de uma comunidade que queria se mostrar, queria ter a sua voz marcada. Mais do que isso, que queria dar visibilidade ao seu rosto. Isso foi lindo. Foi crescente nas paradas seguintes. A parada de 2002 teve um grande boom e deu a guinada para que a parada se tornasse um dos maiores eventos de manifestação do mundo. A gente chegou a ter três milhões de pessoas.

O que a parada de 1997 representou naquele contexto?
Foi uma coisa muito libertadora. Uma coisa é você fazer um ato de reivindicação, isso a gente já fazia, mas ali era outra pauta. Era falar para a sociedade que temos orgulho de sermos quem nós somos. Esse pra mim é o legado da parada. Muitas vezes, algumas pessoas vivem a sua sexualidade de forma precária, com tanta restrição, vivendo em cidades, bairros, muito homofóbicos. Quando essas pessoas chegam num espaço como a Paulista, que é uma arena, e encontra milhões de outras pessoas iguais a elas ou que apoiam a sua causa, isso dá vitalidade, reforça a autoestima, o que as pessoas têm de melhor. Elas não precisam ter vergonha de ser quem são, elas não são pecadoras como a igreja diz, elas não são criminosas como muitas vezes o Estado diz, mas elas são pessoas plenas de direito, são amadas, têm uma sexualidade saudável. Isso não tem preço, garantir que essas pessoas consigam perceber e entrarem nessa vibe, perceberem que elas não estão sozinhas, que tem muita gente igual e muita gente que apoia. Esse é um dos maiores legados da parada.

O segundo deles é que a parada está para além do discurso verbal. São corpos, pessoas que têm cara, cheiro, histórias. Isso é uma coisa incrível. Outra coisa é que a parada, apesar dela trazer a questão do orgulho, de uma pauta, de uma agenda LGBT de direito, o tema da orientação sexual e da identidade de gênero é um tema transversal. Acho que a parada ajudou a captar a discussão de identidade de gênero e orientação sexual na sociedade, que começou a ver as pessoas de outra forma, com uma força política, com a necessidade de não ter seus direitos tolhidos. A ideia é de que as discussões trazidas pela parada são discussões de direitos humanos, que é pra todas as pessoas, não pode ser segmentado.

Tem algum momento daquela parada que ficou marcado?
Tem sim. A gente não conseguia entrar na Paulista por conta da polícia. A gente tinha uma bandeira e, para conseguir abrir ela e parar os carros, a Kaká di Polly, uma drag muito conhecida em São Paulo, se deitou no chão da Paulista. Ela é uma drag queen plus size muito linda, se deitou no chão e a gente correu, abriu a bandeira e as pessoas vieram atrás pra gente conseguir fazer a marcha. Foi bem emocionante, bem legal.

Foto: Maurício Code

Kaká di Polly, 56 anos (38 de drag queen)

VICE: O que você lembra da primeira parada de São Paulo?
Kaká di Polly: Em 1996, teve uma manifestação pequenininha no centro de São Paulo, na Praça Roosevelt. Ficou parado, não andou, foi só uma manifestação. A primeira parada que saiu, que andou, teve babado e confusão foi a de 1997. Essa parada foi marcada pelos militantes que tinham resolvido fazer uma parada gay em São Paulo, que era o Roberto de Jesus, o Lázaro, outros meninos e eu, resolvemos fazer. Combinamos com todo mundo e foi bem estruturado, teve reunião, aquela coisa toda. Conseguimos um carro de som, teve uma faixa enorme, colocamos faixas num caminhão. Foi combinada na frente da Gazeta, Paulista, 900. Fomos todos pra lá, nos encontramos duas horas da tarde. Chegamos e tinha já uma boa concentração de pessoas. Devia ter umas duas mil pessoas, se não mais. Aquela falação, todo mundo fazendo discurso.

Quando eu cheguei, o Beto falou pra mim que não ia dar pra sair. E eu falei "como assim?". Eles tinham fechado pra gente só uma via da avenida. Nós tínhamos que caminhar por aquela faixa e não interromper o trânsito. A polícia chegou e achou que ia ser bagunça, não sei o que, e falaram que ia ficar parado, como uma manifestação. O Beto chorando, em lágrimas e eu falei "pera um pouco, mona, eu vou fazer um negócio. A hora que eu fizer, você coloca esse caminhão na rua e sai andando com esse povo atrás". Eu fui lá na frente, onde começava a rua, eu estava com uma bandeira oficial do Brasil e a polícia olhando pra mim, aí eu fui ficando nervosa e pus a mão no peito e fingi que eu caí, me joguei no chão. O povo ficou assustado, achando que eu era cardíaca porque eu sou gorda, achando que eu tava morrendo. Juntou um monte de gente em volta de mim, aquele monte de polícia, chamaram uma ambulância, querendo levar pro hospital e eu falando que não, pedi meu remédio que tava com o meu marido. O trânsito parou. Literalmente parou e eu no meio da avenida, fazendo aquela cena pra levantar. Nisso, o Beto entendeu a deixa, eu tinha falado que ia me jogar e pra ele sair voado.

Você não teve medo?
A gente tem medo de tudo na vida, mas se a gente não faz as coisas, você vai fazer o que? Você morre com medo. Quando eu vi que o negócio saiu, eu levantei falei pra tirarem a mão de mim que eu tava melhor e saí despistando o guarda, procurando meu namorado. Aí o guarda disse que já tinham saído e iam parar de que jeito o povo? Dei uma gargalhada e saí correndo com a bandeira voando nas minhas costas na frente do primeiro carro da Parada, onde eu venho todo ano.

Qual foi a importância daquela parada naquele ano?
Foi muito grande. A gente mostrou que a gente tinha organização, em primeiro lugar. Em segundo, a gente mostrou que tinha bala na agulha, porque tinha gente atrás da gente. Foi andando e foi aumentando. O carro ficou numa via só, mas o povo ocupou a rua toda e tiveram que afastar os carros da Paulista. Eles viram que não tinha jeito de parar aquilo, que ia acontecer e acabou. Na hora lá, o policial que acabar com tudo e não queria deixar os viados andarem. Por isso que as pessoas têm um carinho comigo na Parada, eu sou madrinha.

Qual era o clima na primeira Parada?
De emoção, todo mundo chorando, todo mundo se abraçando. Conseguimos, a gente tava lá, olha isso. Um via o outro e abraçava e beijava, chorava. Foi uma coisa que não tem como esquecer, foi um dia que eu nunca mais vou esquecer na vida. As pessoas estavam vitoriosas de conseguir ter o seu orgulho exposto na Avenida Paulista.

Foto: Guilherme Santana/ VICE

Renato Baldin, 39 anos, arquiteto e museólogo

VICE: Como foi a primeira parada LGBT de São Paulo?
Renato Baldin: Eu era muito novo. Continuo sendo, mas na época tinha 18 anos, quase 19, era um dos mais moleques. Comecei a entrar no movimento por causa de um grupo de discussão da USP, o CAEHUSP, Centro Acadêmico de Estudos Homoeróticos da USP. Isso em 1996. Aconteceu um ciclo de debates sobre direitos humanos e na época a gente nem usava a sigla LGBT, mas já falava de homossexuais e direitos humanos. Naquele ano, aconteceu um ato na Roosevelt, mas não fui, ainda estava começando a entender o universo gay. Eu não tinha nenhuma referência na família, nenhum amigo assumidamente gay, então fiquei com receio de ir a um ato público. Fiquei sabendo por meio da coluna GLS do André Fischer, na Folha.

Ali no CAEHUSP começou a se formar o primeiro núcleo para pensar essa parada. Foi pensada por vários grupos de militância gay de São Paulo e de Campinas, principalmente, duas cidades mais engajadas nisso. Começamos a nos reunir e na época eu comecei a namorar também, foi meu primeiro namorado. Tudo era uma grande descoberta pessoal, um auto reconhecimento, estava me entendendo no mundo, foi uma porta de entrada para o mundo gay muito importante.

A primeira Parada foi um ato libertário pra mim. Foi um ato muito importante pra minha identidade estar envolvido nesse processo político, porque acho que quando você pensa um movimento político, um movimento que luta por direitos, é óbvio que tem a questão da sua identificação como pessoa, como parte desse movimento, mas é também um ato altruísta, no sentido em que você faz isso não por uma conquista exclusivamente pessoal, mas é uma conquista coletiva, de um coletivo que pensa, que age ou que se identifica da mesma forma. Isso foi muito importante para a minha formação da minha identidade gay.

Lembro muito quais eram as estratégias. O grande desafio naquele momento era como convencer as pessoas a saírem na rua assumindo uma bandeira. A homossexualidade só acontecia em guetos, só existia dentro de quatro paredes. Como ocupar um espaço público, a rua, com essa visibilidade? Uma das coisas mais interessantes que fica na minha memória foi pensar: a gente pede para as pessoas darem a cara à tapa ou a gente assume a possibilidade de elas irem mascaradas? Foi muito legal colocarmos isso. A gente ia nas boates, nos bares divulgando. Vá à parada, vá mascarado, fantasiado, o importante é ir. Independente de como as pessoas iam, nesse momento a gente tinha que ir. Para nossa surpresa, a primeira Parada teve duas mil pessoas na rua. A gente não esperava que fosse tanta gente. Foi algo realmente muito gratificante desse trabalho. Foi um trabalho de garimpar esse público. Lembro de ficar pelo menos um mês antes da parada todos os finais de semana, começava na quarta-feira, na verdade, e terminava no domingo. Visitávamos todas as boates, às vezes mais de cinco boates por noites, conversando com drag queens, transformistas, DJs, donos das boates.

Era uma proposta bem recebida. Acho que existia um olhar de esperança nas pessoas para essa parada. Muitas pessoas na época falavam que não tinham coragem de ir para a rua e dar a cara à tapa, mas davam valor a esse trabalho em volta da Parada, tinha certa esperança mesmo. Algumas pessoas abraçaram e viram que era importante, tomaram a coragem de assumir e ir. Lógico que teve o ato em 96, mas era a primeira que ocupava a Paulista como espaço simbólico de reivindicação, o que significa uma visibilidade, uma ocupação muito mais forte, mais certa. A gente imaginava que as pessoas teriam muito receio de estar nas ruas.

Qual foi a importância dessa parada ter acontecido nos anos 90?
É engraçado que, como eu era muito novo, não só de idade, mas no movimento, eu não consigo perceber a real importância em relação ao histórico que vinha antes disso. Acho que hoje, depois de anos, depois de entender um pouco mais do movimento, consigo fazer uma reflexão, mas naquele momento não tinha essa clareza. Tinha a certeza de que eu estava lutando por alguma coisa que me faria mais feliz e me faria mais livre. Então eu tinha muito essa vontade de mudar o mundo, acho que como todo jovem, isso é uma coisa muito importante em todos os movimentos sociais.Era uma coisa que eu estava descobrindo e me conhecendo. Acho que as coisas pra mim foram muito juntas.

Evidentemente que os meus amigos e as pessoas que construíram a primeira Parada comigo, esse grupo todo, o Beto, o Lula, são tantas pessoas que estavam envolvidas nesse primeiro movimento, já tinham uma experiência como homossexual, como pessoa e como ser social nesse universo, que era um universo completamente excludente. A sua liberdade sexual se resumia aos espaços tidos como gays, aos espaços e aos bares declaradamente gays. Hoje consigo perceber a importância disso, ter essa avaliação do que era antes e do que é hoje. Mas na época não, era mais um desejo de ver as coisas mudarem. A minha referência era o que eu via em casa, não tinha referências gays na minha família, nem nos amigos de escola, então era difícil mesmo, bem complicado.

Como foi o dia?
Foi muito legal! Tem aquela ansiedade, você não sabe se as pessoas vão ou não vão. O dia estava lindo, o sol estava maravilhoso. A gente se reuniu ali na Gazeta, não começou no MASP, as primeiras eram ali na Gazeta. A gente falou "não vem ninguém, não vai acontecer". Mas de repente, as pessoas começam a se juntar, algumas drags chegaram ainda sem se vestir, pra sentir o clima para começar a se maquiar e se montar na rua mesmo. De repente, chegaram uns três ou quatro ônibus de Campinas, aquela caravana, um monte de gente de uma vez, todo mundo feliz. Tem uma hora que você se sente muito seguro. Isso foi muito importante, porque os bares e as boates sempre deram a segurança para a gente expressar nossa sexualidade na época. Mas ali a gente se sentiu acolhido e confortável com todas aquelas pessoas que eram suas iguais. Eu estava na rua, num ambiente acolhido, com pessoas que me confortam, que me fortalecem. Pra mim, foi muito essa sensação. É uma sensação também de conquista, de que o nosso trabalho valeu. Chegar na Paulista e ver que todas as noites investidas para fazer a Parada acontecer foram ganhas, o saldo para a gente foi muito positivo, ocupar a rua é muito simbólico. Foi o primeiro momento em que vimos que a comunidade gay existe e queria direitos.

Esses dias, um dos meus amigos me mandou uma foto de uma daquelas primeiras Paradas e era muito louco. Eu tinha cabelo cumprido, como todo jovem revoltado. Acho que minha grande lembrança mesmo é esse momento das pessoas chegando e dessa sensação de segurança. Até o momento de a gente chegar lá, tudo era muito incerto. O maior medo era que ninguém fosse. Seria uma grande frustração. Esse foi um medo de muitos anos. Com o tempo, à medida que foi crescendo, vai tendo uma segurança, mas é o medo do quão comprometidas as pessoas estão com a bandeira.

Foto: Guilherme Santana/ VICE

Laura Bacellar, 55 anos, editora de livros.

VICE: Como foi o dia da Parada de 1997?
Laura Bacellar: Em 1997, eu fui muito feliz para a Paulista. Tinha morado fora um tempinho e estava muito feliz de estar acontecendo no Brasil uma abertura para a diversidade. Antes, parecia impossível. Os anos 90 foram tempos de muita virada na cabeça das pessoas sobre o que era a diversidade, o que eram minorias sexuais, que antes se escondiam em guetos e tinham muita vergonha e aí começaram esse movimento de sair às ruas, inclusive de uma maneira menos briguenta, a militância tinha sido muito agressiva e passou a ser mais tranquila, nós estávamos embaixo de uma bandeira do arco-íris, que acolhe a todos, não precisa ser um lado ou outro. Isso que apareceu foi muito excitante, deu muita euforia. Eu fui completamente feliz, querendo fazer parte daquele movimento que se iniciava.

Não tinha muita gente, no máximo umas duas mil pessoas, acho que até menos. Estava um dia bem frio, mas um céu bem claro, tinha sol. Cheguei lá e vi aquele monte de gente em frente ao MASP já, tinha gente estendendo bandeira, várias pessoas falando, se posicionando. Lembro disso, de ficar contente que afinal havia um grupo que estava indo às ruas. As pessoas passavam pela Paulista e só olhavam, que esquisitice é essa? Não tinha começado essa história de ter tanta manifestação na Paulista. As pessoas olhavam torto, estranho, estava causando certo tumulto ali. Mas o grupo se reuniu e foi falando, muita gente que estava emocionada de fazer esse movimento e sair à rua. A gente entrou na rua sem pedir permissão, não tinha autorização da CET, foi invadindo a rua mesmo que o pessoal saiu pela avenida e esticou a bandeira o mais esticada possível, para os carros não passarem por cima das pessoas. Foi uma coisa meio na briga assim, não tinha muita proteção nem nada. As pessoas foram andando até o fim da Paulista levando faixas, era uma coisa bem pequena, só que com muita emoção.

Tinha muita mulher?
Pouquíssimas. As mulheres são sempre minoritárias nesses movimentos grandes. Talvez pelo medo de apanhar, de haver confronto, de serem vistas. Elas têm medos com razão, nós não estamos exatamente numa sociedade respeitosa para com mulheres. Dava pra contar nos dedos quantas mulheres tinham lá naquele dia, mas as que tinham eram muito corajosas e falavam muito bem, com presença efusiante, agarrando a bandeira do mesmo jeito.

Qual foi a importância daquele ato de 1997?
Para quem é jovem, é difícil imaginar como era antes, mas as pessoas não acreditavam que existissem tantos gays, tantas lésbicas, tantos transgêneros no Brasil, nem sabiam o que era isso. As pessoas achavam que era tudo falta de vergonha. Então esse movimento que começou a congregar pessoas e a convidar a aparecer foi uma novidade muito grande para o Brasil e começou uma mudança muito grande na sociedade. Quando as pessoas começaram a ver tanta gente, e gente com a aparência normal, porque o lance de gays – lésbicas nem existiam, não apareciam na mídia, na literatura – é que eles eram muito caricatos. Tenho certeza de que foi muito importante começar um movimento como a Parada para as pessoas que passavam pela rua e viam que eram pessoas comuns, pessoas como as outras. Essa foi a grande mensagem passada por imagem. Aquele bando de gente de aparência absolutamente comum, só que agarrando uma bandeira e se afirmando gay, lésbica, trans. Isso foi extremamente importante e ajudou a dar um impulso para mais visibilidade. Nos anos seguintes, ajudei a organizar semanas de culturas LGBT, que foram mudando de nome, pra que as pessoas saibam o que é essa cultura por meio de filmes, livros.

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