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Por dentro das manifestações contra os Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro

Pouco antes da cerimônia de abertura, manifestantes foram às ruas contra a Rio 2016, os “Jogos da Exclusão”.

Manifestantes ateiam fogo numa bandeira olímpica durante um protesto no Rio de Janeiro. Todas as fotos por Phil Clarke Hill.

Esta matéria foi originalmente publicada na VICE US.

Na última sexta-feira (5), enquanto a noite caía no Rio de Janeiro, um grupo de manifestantes na Praça Afonso Pena ficava inquieto. Alguns começaram a queimar bandeiras do Brasil, depois uma camiseta de voluntário da Rio 2016. Um grupo dissidente se juntou à massa. Um membro acendeu uma falsa tocha olímpica e entrou no meio do tráfego.

Uma fileira de policiais militares tinha bloqueado o acesso da multidão ao Maracanã, onde a Cerimônia de Abertura dos Jogos Olímpicos 2016 seria realizada naquela noite, e logo respondeu à ação. Com equipamentos da tropa de choque, máscaras e cassetetes, alguns policiais foram atrás do dono da tocha, enquanto outros atiraram gás lacrimogênio e uma bomba de efeito moral na praça, fazendo famílias que participavam do protesto correrem para se proteger do caos iminente.

Um manifestante com uma tocha falsa em frente à fileira da polícia.

O tumulto daquela tarde deu fim ao que tinha sido, até aquele momento, um protesto relativamente contido nas ruas do Rio, com centenas de pessoas se reunindo para protestar contra o que eles batizaram de "Jogos da Exclusão". Para muito moradores do Rio, os Jogos representam tudo de errado acontecendo agora no Brasil.

"Nada do que foi prometido realmente acontece", disse à VICE Renata Monteiro, uma estudante de 18 anos da Universidade Federal do Rio de Janeiro. "Temos resorts de luxo na praia e um campo de golfe. Ninguém joga golfe no Rio de Janeiro."

Um manifestante com uma bandeira preta atrás da fileira da polícia militar.

Algumas horas depois de um protesto em Copacabana, Renata se juntou a mais manifestantes reunidos na Praça Saens Peña, o ponto de encontro antes da marcha de três quilômetros até o Maracanã, percurso que fizeram carregando faixas com "FORA TEMER" e "A Tocha Mata". Vários manifestantes também usavam camisetas apoiando à Vila Autódromo, a favela que foi desocupada para realização dos Jogos. "Há tantos problemas aqui que você poderia chamar todos os jornalistas dos EUA e ainda não haveria visibilidade suficiente", disse Renata. "Pelo menos as Olimpíadas serviram para isso, agora as pessoas estão vendo."

"Estamos aqui hoje para denunciar a violência cometida em nome dos Jogos", disse Glaucia Marinho, 31 anos, membro da Justiça Global, uma ONG pelos direitos humanos do Rio. "E estamos protestando pelas 60 mil pessoas tiradas de suas casas à força."

Um manifestante faz uma paródia da cerimônia de abertura.

Do outro lado da praça, um grupo de artistas vestidos como gregos olímpicos faziam uma cerimônia de abertura irônica — togas, coroas douradas, uma tocha improvisada, samba e tudo mais. Havia até uma faixa protestando contra as Olimpíadas de 2020 em Tóquio. A mulher atrás dela era Misako Ichimura, uma manifestante japonesa que viajou para o Rio para aprender com o movimento anti-Olimpíadas e criar impulso em seu país natal. "Quase sempre acontece a mesma coisa na cidade olímpica", disse ela à VICE. "Você tem o despejo das populações pobres, seguido de desenvolvimento imobiliário para os ricos."

Enquanto a presença de manifestantes e policiais na praça multiplicava, a multidão logo tomou a rua. Entre os cartazes anti-Temer e anti-Olimpíadas, dois manifestantes seguravam cartazes elogiando morbidamente os atentados contra policiais em Dallas e Baton Rouge. Gritos de guerra remetendo à Ditadura Militar começaram. "Nunca acabou! Tem que acabar! Eu quero o fim da Polícia Militar!" Os policiais flanquearam a multidão, com uma fileira da polícia montada à frente. Mas eles ficaram apenas de guarda.

"Durante a Copa do Mundo, eles nos cercaram numa praça e não deixaram a gente sair", disse Thalia de Oliveira, outra estudante. "Lembro que um policial quebrou a câmera de um jornalista. Foi mais violento porque estava mais lotado. Não sabemos o que vai acontecer esta noite."

Essa incerteza se dissipou uma hora depois, quando uma facção menor e mais jovem começou a correr pela multidão, queimando bandeiras e explodindo latas de aerossol. Usando máscaras pretas, eles atacaram um restaurante próximo, virando mesas e cadeias antes de a polícia intervir, e dois manifestantes foram detidos e arrastados para longe dali. Apesar das detenções, a marcha continuou.

O sol estava se pondo quando a multidão chegou ao final da rota, a Praça Afonso Pena, onde crianças brincavam num parquinho local e idosos jogavam baralho. O gás lacrimogêneo vermelho e branco foi tudo que sobrou da manifestação. No final, voluntários da Cruz Vermelha ajudavam uma mulher que tinha sofrido um ataque de asma por causa do gás.

Menos de duas horas depois do fim da manifestação, os fogos da cerimônia de abertura da Rio 2016 podiam ser ouvidos na praça. Os Jogos tinham oficialmente começado.

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Tradução: Marina Schnoor

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