reportagem

Por que Brasil, Sérvia e Rússia usam o pato de borracha nas manifestações contra corrupção?

Falamos com manifestantes que elegeram o antigo item de decoração de banheira como símbolo político.

por Marcela Xavier
17 Abril 2017, 10:00am

Todas as fotos por Agência Brasil.

O pato do impeachment, o mascote do movimento "Não vou pagar o pato", idealizado pela FIESP, virou símbolo de um movimento político de massa que é contra tudo e contra todos — e também contra os impostos, sua bandeira principal.

Polêmicas sobraram em cima do movimento com o pato servindo como estandarte: de referências ao envolvimento da FIESP no golpe militar de 1964 à recusa da entidade em revelar os gastos na campanha pelo impeachment da então presidente Dilma Roussef. Isso sem mencionar o caso do artista holandês Florentijn Hofman que acusou a instituição de plágio ao fazer uso do pato amarelo. Segundo a equipe de Hofman, a FIESP teria usado o desenho de forma "ilegal" de forma a "infringir direitos autorais".

Ainda assim, a mesma imagem do patinho amarelo de borracha acabou surgindo em protestos que nada têm a ver com a volta da CPMF ou o anti-petismo. Ele também foi visto do outro lado do mundo: na Sérvia, em 2015, e na Rússia, no final de março deste ano. Seria uma conspiração global?

Na Sérvia, em 2015, uma obra estimada em €3,5 bilhões propunha a revitalização das margens do rio Sava, em Belgrado, por meio da demolição de prédios no distrito de Savamala, e de empreendimentos como shoppings, apartamentos de luxo e a tal da Belgrade Tower, que abrigaria o primeiro hotel da cadeia St. Regis no pais. Os projetos seriam feitos pelo governo da Sérvia em conjunto com a Eagle Hills, uma empresa de desenvolvimento e investimentos privados de Abu Dabi.

A população já estava de saco cheio dessas obras feitas com capital estrangeiro que em nada agregam para a população, afinal, não é como se os sérvios tivessem dinheiro para habitar esses apartamentos de luxo. As obras de capital estrangeiro também não ajudam a economia local. Além disso, muita gente estava desconfiada de que esse projeto sequer seria finalizado, e, como muitos outros, seria apenas uma desculpa para o mau uso do dinheiro público e contratos suspeitos com gigantes dos Emirados Árabes.

Para entender melhor o uso da imagem do pato de borracha nesses protestos — um pato bastante semelhante ao pato da FIESP —, a VICE entrevistou uma ativista de Belgrado, que trabalha como assistente de pesquisa no departamento de física na Universidade de Belgrado e é também doutoranda na área. Segundo Iva Bačić, de 24 anos, de cinco anos pra cá, as coisas têm ido de mal a pior no país.

Questionada sobre por que as coisas têm piorado por lá, a ativista disse que "as pessoas não votam pelas ideias, e sim pelo que vai mantê-las vivas". Coincidentemente, as eleições presidenciais da Sérvia aconteceram no último dia 2 de abril, e do dia 3 em diante o país inteiro foi tomado de protestos. "Eles começaram na segunda-feira seguinte às eleições. O atual Primeiro Ministro, Tomislav Nikolić, venceu com mais de 50% dos votos, mas as pessoas não acreditam que isso aconteceu de verdade. "A campanha foi bem suja", ela disse.

Leia também: "Fotos dos maiores protestos na Sérvia contra a última eleição presidencial"

De acordo com Iva, muita gente é paga para votar em certos políticos, e outras têm seus empregos ameaçados caso não votem no candidato de preferência do patrão. Há histórias, inclusive, que dão conta de que essas pessoas têm que tirar foto dos seus votos como garantia dessa "transação" — e olha que o voto na Sérvia não é obrigatório. Iva também disse que as pessoas mais pobres, aquelas que não sabem se vão poder comprar comida todos os meses, são as que vendem os votos por menos dinheiro. Elas trocam seu direito de escolha, por exemplo, por possibilidades futuras de emprego.

Protestos apartidários

Quando essa reportagem foi escrita, os protestos estavam já no seu sétimo dia consecutivo em diversas cidades da Sérvia. Os patos de borracha não deram as caras, já que eles eram um símbolo dos protestos massivos contra as obras às margens do rio Sava — o lugar onde moram vários patos. Aliás, essa é a justificativa para a presença dos bichinhos amarelos nas manifestações sérvias. Mas outras semelhanças assombrosas com os protestos no Brasil podem ser observadas.

As pessoas estão indo para as ruas de forma espontânea, o que quer dizer que não há uma figura política por trás desses movimentos — até agora. Iva, por sua vez, acredita que os protestos são, de fato, espontâneos. A ativista chegou a essa conclusão acompanhando o noticiário mainstream. "A mídia aliada ao governo está até tentando convencer as pessoas de que os protestos não são espontâneos, e sim financiados por George Soros e outros 'agentes estrangeiros'", diz ela.

Foto: Agência Brasil

Assim como no Brasil, por lá eles também levantam a bandeira dos protestos "sem violência", mas a polícia está presente para guiar o trajeto das passeatas e há relatos de policiais sem uniformes no meio das multidões. A adesão da população está sendo surpreendente, Iva contou que até os motoristas prejudicados pelos trajetos das passeatas estão levando o trânsito parado numa boa, "eles buzinam e aplaudem os manifestantes."

Não é coincidência. A população está de saco cheio do sistema político corrupto sérvio, do dinheiro público que não parece ser usado em favor da população. As pessoas de lá também estão fartas de tudo e de todos, inclusive com medidas de austeridade que estão empobrecendo a classe média — uma delas, que foi bastante criticada pela Iva, foi a fusão dos ministérios da ciência e da educação com o objetivo de cortar custos, o que ocorreu em 2011 sob o mesmo regime de governo. Nessa época, foi proibida a criação de novos cargos públicos.

O pato de Medvedev

O que está acontecendo na Rússia, além da corrupção sistêmica e do desvio de dinheiro para beneficiar a classe política (que, por lá, tem uma longa história de relações promíscuas com seus oligarcas), é uma oposição não parlamentar com motivações políticas se utilizando de um mecanismo semelhante ao da Lei da Ficha Limpa para impedir candidaturas de políticos condenados.

Os patos de borracha que apareceram nos protestos de 26 de março têm uma origem bastante óbvia. O Fundo Contra a Corrupção, encabeçado pela maior figura de oposição do momento, Alexei Navalny, expôs recentemente que o Primeiro Ministro Dmitry Medvedev tem utilizado, como casa de veraneio, uma mansão de luxo que está registrada sob o nome de uma instituição de caridade. Essa mansão, localizada em uma propriedade de 80 hectares, também possui um lago e uma casinha para abrigar os patos que lá habitam.

O problema é que, enquanto Navalny ergue a bandeira da condenação dos políticos corruptos, ele próprio foi condenado por desvio de dinheiro (em segunda instância, depois que o primeiro julgamento foi tido como injusto pela Corte Europeia de Direitos Humanos).

Foto: Agência Brasil

É uma caça de gatos e ratos. A estudante russa de Bioengenharia e Bioinformática Maria Sevalli, de 22 anos, acredita que a condenação de Navalny tenha sido injusta, funcionando apenas como uma manobra para impedir sua candidatura. Ela também disse que as coisas na Rússia não andam muito bem e precisam mudar. "Eu acredito que, em alguns aspectos da política exterior, o Putin não é ruim. Mas quem vive dentro do país não vê a situação melhorando. A Rússia até hoje vive de uma infraestrutura da época soviética, não dá pra viver assim eternamente. Se a administração dele continuar por muito tempo as coisas vão ficar bem ruins", disse a moscovita.

Sobre os protestos com os patos de borracha, Maria disse que ficou surpresa com a grande adesão da população, já que o protesto não tinha sido autorizado pela prefeitura de Moscou e protestar sem autorização é crime por lá. De fato, cerca de mil pessoas foram presas nesse dia, de acordo com a ABC News. Já o Washington Post relata a prisão de um manifestante erguendo um patinho de borracha – não um gigante, um desses de banheira mesmo.

Siga a VICE Brasil no Facebook, Twitter e Instagram.