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Music by VICE

O dancehall está lutando para proteger os direitos autorais de seus passos de dança

Os passinhos lançados no Carnaval de Notting Hill em Londres estão no centro de um debate cada vez mais urgente sobre copyright cultural.

por Hannah Moore; fotos por Constanze Han; Traduzido por Marina Schnoor
28 Agosto 2019, 10:00am

Notting Hill Carnival. Esquerda: Janine Wiedel Photolibrary / Alamy Stock Photo; Direita: Travelpix / Alamy Stock Photo.

Tem uma dança especial para o Carnaval de Notting Hill todo ano. Do Butterfly e World Dance do começo dos 90, os passos do começo dos 00 como Signal Di Plane, até exemplos mais recentes como o Rope e Rock Di World.

Em uníssono, o pessoal dança com estranhos suados que provavelmente não vão ver de novo, segurando seus copos plásticos de rum com suco de cranberry acima das cabeças da multidão. São esses pequenos momentos de euforia que simbolizam o Carnaval local; quando o sol sai de trás das nuvens e beija seu rosto, quando uma multidão de 2 milhões de pessoas se une em movimento, quando Londres se parece um pouco com uma festa de rua de Kingston.

Claro, é o álcool que abastece esse fogo, mas são os passos de dança que colocam a festa em movimento. As dicas são tiradas das ruas da Jamaica, e agora a dança que todo mundo está fazendo é o Snappin', um passo enganosamente simples construído em cima de estalar os dedos, criado pelo astro do dancehall Ding Dong e sua crew Ravers Clavers.

Ding tem dominado a cena mundial do dancehall nos últimos anos, criando passinhos virais como Shampoo e Flair. Essas danças se tornaram parte da identidade nacional jamaicana – o medalhista de ouro que virou produtor de dancehall Usain Bolt já os dançou nas pistas de corrida, e o Fling rendeu ao seu criador, Chevoy “Kool Ravers” Grant, um prêmio do primeiro-ministro jamaicano.

Enquanto alguns dançarinos estão recebendo o crédito e o pagamento que merecem por seu trabalho, muitas pessoas na Jamaica reclamam de se sentir roubadas pela indústria pop internacional – vendo as danças que criaram usadas em clipes internacionais de artistas como Cardi B e J Balvin – e por professores de dança nos EUA e Europa.

“Isso vem desde os dias da escravidão – quando fomos colonizados pelos britânicos – e desde então estrangeiros tiram de nós e da nossa cultura”, diz Kimiko “Versatile” Miller, uma dançarina de Kingston que trabalhou com Vyrbz Kartel, Stefflon Don e Shenseea, entre outros.

kimiko versatile
Kimiko Versatile. Foto: Constanze Han

A questão da apropriação se tornou mais evidente alguns anos atrás com o lançamento do clipe “Sorry” de Justin Bieber, quando a coreografa Parris Goebel não admitiu que usou passos de dancehall conhecidos como Gully Creepa, Muscle Wine e Cow Foot em sua rotina (a neozelandesa mais tarde disse num post no Facebook que tem “um enorme respeito e paixão pelo [dancehall]”). Desde então, dançarinos jamaicanos estão tentando proteger melhor suas criações – tanto através de copyright legal quanto expondo imitadores nas redes sociais.

Claro, a ideia de “ser dono” de um passo de dança é complicada – dança é um formato social, prazerosa precisamente porque passa de corpo para corpo, geração para geração e através de continentes. O dancehall em si se desenvolveu de raízes da África Ocidental (note como muitos passos são dançados com um baixo centro de gravidade e joelhos dobrados) e estilos folclóricos jamaicanos como Jonkonnu, criados por pessoas trazidas para a ilha como escravos no século 17. A estudiosa de dancehall Sonjah Stanley Niaah até rastreou o Limbo – no qual você dobra o corpo para trás para passar embaixo de um pedaço de madeira – a registros de navios negreiros de 1664.

A comunidade de dancehall de Kingston não está tentando impedir artistas estrangeiros de usar os passos de dança que criam – e não estão pedindo pra ninguém parar de dançar no Carnaval de Notting Hill – mas eles querem que as pessoas aprendam sobre a história de opressão da qual o dancehall evoluiu. “Dançar é grátis, mas lembre que isso normalmente veio do sangue e lágrimas de pessoas, de uma cultura”, diz o dançarino veterano Orville “Professor” Hall.

Num país onde mais de 19% dos jovens estão desempregados, a dança muitas vezes oferece uma renda viável para seus criadores, muitos deles vindo de áreas pobres de Kingston. Receber o crédito por seu trabalho é uma questão moral e financeira.

“Esse é o trabalho de vida deles, a energia de vida deles”, diz Donna Hope, professora da Universidade das Índias Ocidentais que escreve sobre a cultura dancehall há mais de vinte anos. “Os recursos que voltam para eles são muito importantes em termos de simplesmente sobreviver, ter um teto sobre a cabeça e comida na mesa.”

Hope e alguns dançarinos abordaram o Escritório de Propriedade Intelectual da Jamaica (JIPO) depois do drama de “Sorry”, para descobrir como poderiam proteger seu trabalho no futuro. “Dança é uma forma de copyright. Copyright é automático”, diz a diretora executiva do JIPO, Lilyclaire Bellamy. “Quando a dança está num formato tangível [incluindo vídeo no Instagram ou YouTube], e é um trabalho original, você tem essa proteção.”

Nenhum artista de dancehall já testou o caminho legal; alguns acreditam que até seria inútil. “Não sabemos o que fazer”, diz Nicky “Godzilla” Trice, lembrando que um passo de dança de seu antigo grupo, Rifical Team, foi usado no clipe “Run The World (Girls)” da Beyoncé. “Não é tipo como se a gente pudesse mandar um e-mail pra Beyoncé.”

Mas a nova geração do dancehall está começando a perceber seu imenso valor de mercado. Diferente de seus antecessores, eles não precisam mais gastar dinheiro para ir a uma festa toda a noite para que seus passos peguem (apesar disso ainda ser importante); eles também podem distribuir seu trabalho mais amplamente, e sem custo, no Instagram. Como Hope diz: “Isso reduziu todas as barreiras financeiras, geográficas e temporais”. O dancehall começou a bombardear a plataforma com coreografias, selfies e filmagens de própria comunidade dançando em festas de rua.

Usando legendas, hashtags e marcas de data e hora em suas postagens, os dançarinos estão fazendo uma reivindicação de propriedade que Bellamy diz que pode ser usada no escritório de direitos autorais. Mas no Instagram, os dançarinos nem precisam abrir um processo para expor ladrões, como Kimiko Versatile e seus fãs provaram em dezembro do ano passado, quando uma dançarina russa postou um vídeo ensinando a dança Watch Di Pumz de Versatile sem dar crédito à criadora.

Versatile respondeu postando uma série de vídeos para seus mais de 30 mil seguidores no Instagram, onde ela atacava a dançarina estrangeira por “roubar” seus passos. “Falando sobre a minha cultura […] Conhecemos a verdadeira essência do dancehall, e a compartilhamos, e você quer vir aqui e ser um tipo de abutre [cultural]?”, ela grita para a câmera. A dançarina russa concordou em tirar o vídeo do ar depois que milhares de pessoas deram like e comentaram nos vídeos de resposta de Versatile, a aplaudindo por lutar contra o que elas viam como apropriação cultural.

Mas alguns grupos, como o Overload Skankaz, sentem que receber oficialmente o crédito não é importante. Quando Ne-Yo usou o passo Chowblowow no clipe do single de 2018 “Push Back”, o Overload postou os vídeos no Instagram. Eles disseram que ficaram felizes, mesmo que a promoção inicial não mencionasse o dancehall.

“Fico mais que feliz, entende”, diz Teroy Dobson do grupo, que disse que conseguiu usar a atenção para viajar e ensinar dança no exterior – oportunidades muitas vezes restritas para artistas jamaicanos por problemas de dinheiro ou visto. Ano passado, ele fez suas primeiras turnês para Canadá e Europa. “Se criamos uma dança na Jamaica, em Bog Walk, e ela vai parar do outro lado do oceano, é incrível”, ele diz.

“Na dança, todo suor tem um significado”, diz a dançarina Godzilla. “Todo suor tem uma sensação, uma espiritualidade, todo suor tem algo em que acreditar.” Como outras danças da diáspora africana, o dancehall no cerne é uma forma de “chamado e resposta”; um dançarino se move e o outro responde ou repetindo o movimento ou apresentando um movimento próprio para complementar. E isso é parte de uma conversa transatlântica também: enquanto dançarinos jamaicanos cada vez mais compartilham seus movimentos nas redes sociais, eles estão exigindo reconhecimento.

@hansermoore / @constanzehan

Matéria originalmente publicada na VICE Reino Unido.

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