O deathgrind de estreia do Brujeria inspirou uma geração de headbangers latinos

Duas décadas e meia depois, integrantes e ex-integrantes da banda analisam ‘Matando Güeros’, o implacável disco de narco-grind satânico de 1993.

por Gary Suarez; Traduzido por Thiago “Índio” Silva
25 Setembro 2018, 10:00am


Não é todo dia que nos deparamos com uma cabeça decepada, mas lá estava ela, toda deformada, na inesquecível capa do disco de estreia do Brujeria, Matando Güeros, lançado em 1993. Os responsáveis por este profano ato de decapitação seriam, por insinuação, membros de uma gangue de traficantes satanistas do México que por acaso tocavam metal dos mais extremos.

Muitos antes de Breaking Bad e Better Call Saul levarem a brutalidade dos carteis para arena da cultura pop e muito antes de Donald Trump e seus republicanos começarem a despirocar por conta da ameaça da MS-13, havia o Brujeria. Ouvir Matando Güeros em 1993 e observar sua virulenta capa era quase como esbarrar em algo verdadeiramente ilegal, descobrindo a existência de um legítimo culto da morte operando ao sul – e quem sabe ao norte – da fronteira que separava México e Estados Unidos. Com integrantes adotando pseudônimos como “Asesino” e “Juan Brujo”, usando máscaras para protegerem suas identidades criminosas, a existência do Brujeria por si só já passava uma ideia errada – sem contar o fato que suas músicas em espanhol eram incompreensíveis para boa parte dos norte-americanos.

Claro que era tudo golpe, mas como explicado por um de seus fundadores, o ex-compositor e guitarrista Dino Cazares, era mais do que isso. “Não é uma ilustração numa capa do Cannibal Corpse”, afirma. “Havia um realismo ali – os temas eram reais, as histórias e as fotos também.”

“De repente surgiu essa banda de death metal do México e todo mundo ficou meio mas que porra é essa???

A origem do Brujeria mistura convenções e um toque de macabro. Entre a metade e o final dos anos 80, pouco antes do surgimento de seu projeto mais bem-sucedido, Fear Factory, Dino Cazares era só mais um músico de Los Angeles que naturalmente se juntava a outros músicos de heavy metal que pensavam parecido. Foi por meio do guitarrista do Faith No More, Jim Martin, que ele acabou conhecendo o baixista Billy Gould, que por sua vez o apresentou ao vocalista John Lepe. Trocando uma ideia lá por volta do Natal nos estúdios da KXLU com Pat Hoed, apresentador do longevo programa de hardcore punk da Universidade de Loyola Marymount chamado Final Countdown, Cazares e os caras encontraram um jornal mexicano com a manchete BRUJERIA em sua folha de capa. Escrita inteiramente em espanhol, a matéria contava a história do barão das drogas Adolfo Constanzo e seu cartel com ares de culto que acreditava que a devoção satânica – incluindo sacrifícios humanos ao anjo caído – protegeria suas atividades ilegais dos federales.

“Quando [Constanzo] era criança ainda, sua mãe praticava santeria, magia branca”, explica Cazares. “Ao crescer, ele começou a andar com a galera errada e foi uma parada meio foda-se isso aí, vamos praticar brujeria!

Fascinados e influenciados diretamente por esta história terrível que chegou a um fim violento, Cazares (Asesino), Gould (Güero Sin Fe), Hoed (Fantasma) e Lepe (Juan Brujo) fundaram o Brujeria ali mesmo. Todos os elementos vis, crueis e tétricos que caracterizavam uma banda de metal extremo estavam ali: drogas, sequestros, assassinatos ritualísticos e, acima de tudo, satanismo. Mesmo assim, a motivação da banda, como descrita por Cazares, acabou se voltando para algo maior que o choque pelo choque e nada mais.

Foto cedida por Dino Cazares

“A melhor maneira de descrever tudo seria resumir em políticas de fronteira”, declara. “Sei que é tudo bruto, mau e pesadão, mas acabou virando uma mensagem positiva depois.”

Como evidenciado em Matando Güeros, o Brujeria se valia não só da inacreditável narrativa envolvendo os acontecimentos do Rancho Infernal de Constanzo como também de temas contemporâneos da xenofobia e racismo contra mexicanos, especialmente no estado em que morava.

“Aqui na Califórnia, todo governador e prefeito que elegemos sempre disseram que precisamos controlar as fronteiras, como Trump está fazendo agora”, comenta Cazares. Ele cita em especial o republicano Pete Wilson, que foi senador e governador do estado em diferentes mandatos entre 1983 e 1999, por conta de suas políticas desumanas contra imigrantes por meio de operações armadas e separações de familiares forçadas, atos que refletem o que vemos agora sendo praticados amplamente a nível nacional. “O que os agentes da imigração fazem agora já faziam há tempos aqui.” Cabe mencionar que Jello Biafra interpretaria Wilson na introdução do disco seguinte da banda, Raza Odiada, de 1995.

Tal ambiente de abuso institucional e temor estimulado por política na prática estavam inteiramente ligados ao narcotráfico e ao tráfico humano, fazendo com que faixas como “Cruza La Frontera” e “Leyes Narcos” soassem ainda mais realistas para aqueles que conseguiam entendê-las. Cazares lamenta a forma quase canibalística com que as condições de vida cada vez piores no México levaram seus habitantes a tentarem migrar para a Califórnia, que, por sua vez, reagia com violência ao receber quem conseguia chegar nas fronteiras ao mesmo tempo em que enchia os bolsos dos cartéis da região. “É sobre a luta em torno daquela merda de fronteira”, diz uma fala do disco, um retrato desolador que capta de maneira brilhante, ainda que improvável, a essência do conflito.

A integrante da formação atual da banda, La Bruja Encabronada ou Jessica Pimentel, mais conhecida como uma das estrelas de Orange Is The New Black, pode não ter sido parte da banda na época de Matando Güeros, mas ela lembra muito bem do disco. "“Aquilo me assustou pra caralho, de verdade”, comenta, ao relembrar de quando conseguiu uma cópia pirata do disco quando ainda estava no ensino médio. “Foi a primeira vez que ouvi música que me fez sentir mal fisicamente, foi algo que atravessou certos limites naquela época e de certo modo o faz ainda até hoje.”

“A gente ria do black metal”, diz Cazares. “Isso era bem mais escroto e verdadeiro do que qualquer coisa que aqueles caras da Noruega faziam.”

Ao passo em que Matando Güeros excluía falantes do inglês, ameaçando-os e matando-os liricamente logo na introdução do disco “Pura de Venta”, em termos visuais o disco se apropriava de algo teoricamente ao alcance do cidadão branco médio dos EUA, ainda que inacessível na prática – tabloides em espanhol. Um destes em específico se chamava ¡Alarma!, semelhante ao National Enquirer, com o detalhe de que este primeiro agraciava seus leitores com cenas de violência de encher os olhos. “Você pegava o jornal e tinha uma matéria lá sobre um policial que levou um tiro e lá estava uma foto do cara com a cabeça estourada. Ninguém estava nem aí!”, comenta Cazares.

¡Alarma! Dava ao Brujeria as imagens doentias necessárias para fazer de Matando Güeros um disco inesquecível. O azarado que adorna a capa do disco veio de uma das páginas do jornal, aparentemente o resultado de um esquema que deu errado. “Amarraram o cara, colocaram ele nos trilhos do trem, onde foi atropelado, decapitado e teve suas pernas arrancadas”, explica Cazares. A brutalidade daquela foto o fez entrar em contato com o veículo responsável, que logo se prontificou a enviar as fotos ao custo de 250 dólares.

Três semanas após enviar a grana pelo correio, um envelope retornou com a série completa de fotos da cena do crime, utilizadas pelo Brujeria no encarte original do CD. “Os fotógrafos davam essas fotos pra polícia olhar, mas também vendiam na miúda pra esses jornais”, afirma. “Foi assim que conseguimos elas.”

Foto cedida por Nuclear Blast

Considerando que o ano era 1993, com a presença da infame porta-voz do Parents Music Resource Center (PMRC) Tipper Gore na Casa Branca, a indústria musical reagiu como esperado diante da aterradora arte de Matando Güeros. Por mais que a banda contasse com apoio da Roadrunner, sua gravadora na época, a mesma tinha que tomar algumas precauções para garantir que o disco pudesse de fato ser distribuído. “Tiveram que colocar um perfurado preto pra cobrir a capa”, afirmou Cazares.

Tal atitude pode até ter ajudado a aliviar a consciência dos comerciantes ou até mesmo os enganado, mas não impediu a reação de uma parte da indústria da qual raramente se ouve falar. “Quem estava empacotando os CDs muito provavelmente era hispânico”, comenta Dino. “Escreviam orações nas caixas, as abençoavam por considerar que era coisa do mal mesmo.”

O Brujeria pode ter aterrorizado seus distribuidores, mas headbangers astutos que ouviram Matando Güeros logo sacaram traços de Fear Factory, que também eram contratados do Roadrunner na época e haviam lançado Soul Of A New Machine pelo selo em 92. O papel de compositor desempenhado por Cazares nas duas bandas acabou por deixar tal associação inevitável, mas mesmo assim, considerando a discrição dos integrantes e por parte do selo, quem estava por trás da banda era alvo de especulação na época.

Por mais que isso parecesse mais plausível do que só aceitar a imagem dos caras, um quê de ingenuidade e ignorância suburbana reinavam naqueles tempos longínquos sem Google ou Wikipedia. Repito: era 1993, ano em que um adolescente com uma visão torta do mundo podia tranquilamente conseguir uma cópia de Faces da Morte e se divertir com cenas gráficas demais pra qualquer canal da madrugada.

Deixando de lado a viabilidade da imagem ostentada pela banda, era bem mais legal enquanto ouvinte acreditar naquela fantasia assassina, coisa que inclusive se aplica no rap de hoje. Até certo ponto, nós queríamos bater cabeça pra sons tocados por quem se dizia narco-satanico.

Outro componente prático da mística do Brujeria era possibilitar uma formação fluída. “O motivo pelo qual começamos a usar máscaras é que ao longo dos anos um monte de gente começou a tocar conosco e eles estavam em gravadoras maiores”, afirma Cazes. “A Warner nunca eixaria os caras do Faith No More tocarem no Brujeria!” Toda essa pendenga contratual acabou por prender a banda nesse truque barato mesmo enquanto rumores de suas identidades circulavam por aí, o que também impedia a banda de tocar ao vivo por um bom tempo, anos após o lançamento de Raza Odiada.

La Bruja Encabronada participa das turnês recentes, integrando uma das encarnações mais recentes da banda, que ainda usa máscaras, propositalmente obscurecendo quem está ali no palco. Ela considera isso uma honra.

“Sendo latina, podendo cantar sobre minha cultura ou sobre o oculto na língua de meus pais é uma experiência visceral”, afirma. “Vejo isso nos rostos de muitos dos fãs ali gritando, chorando cantando e pirando com a gente”.

Por mais que esse tom teatral tenha antecipado bandas que viriam depois, como o Slipknot, Cazares esclarece que tais condições serviam de paralelo para aspectos notáveis da vida mexicana. Na guerra às drogas, policiais mexicanos muitas vezes usam máscaras para protegerem suas identidades. Da mesma forma que revolucionários zapatistas na porção sul do país faziam o mesmo. “Tinha esse cara de Chiapas chamado Subcomandante Marcos”, conta. “Os Zapatistas usavam máscaras para quem não descobrissem suas identidades e matassem suas famílias.”

“Desde o primeiro momento do primeiro disco, o Brujeria cruzou limites”, afirma La Bruja Encabronada. “Não acho que tudo aquilo deva ser encarado literalmente, mas talvez as metáforas sejam encaradas de maneira extrema de forma que há um impacto que incomoda, abrindo seus olhos para um mundo que escondem de você.”

Como tantas outras obras satíricas, o humor mórbido do Brujeria nunca deixou de lado a realidade sinistra de sua temática. Cada cutucada bem-humorada também cutucava a ferida, expondo todo o horror em torno de políticas de fronteira, até mesmo educando as pessoas quanto a isso.

“Nossa forma de lidar com o tema era fazendo graça”, afirma Dino. “Se você não rir, vai morrer chorando por conta disso.”

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Este artigo foi otiginalmente publicado no NOISEY US.

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