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Jornada caiçara: em busca de ETs na praia

Fomos à caça de ETs no litoral paulista e escutamos um monte de histórias estranhas.

por Felipe Maia
28 Agosto 2014, 3:28pm

Crédito: Felipe Larozza

Peruíbe: a fronteira final. Esta foi a viagem do Motherboard atrás de uma nave estelar. Prosseguindo na missão de explorar novos mundos, procurar novas formas de vida e novas civilizações, audaciosamente fomos ao litoral de São Paulo em busca de ETs. E não encontramos nenhum. Eu acho.

O que nos levou até lá foi o roteiro ufológico organizado por Eduardo Ribas, um senhor meio bonachão que trabalha na secretaria de turismo da prefeitura local. Peruíbe pode não ser o pico mais atrativo para seres humanos, mas, segundo relatos, causos e ufólogos, a cidade é um dos destinos preferidos para turistas de outros planetas.

Nos últimos quarenta anos, Peruíbe colecionou mais de 300 casos de aparições de OVNIs. No vácuo dos ETs, vieram ufólogos de todo o Brasil. O Ribas viu que isso dava viagem e criou um passeio por vários pontos da cidade onde há relatos de aparições extraterrenas.

"A ideia surgiu com o Congresso Ufológico de 2011", me disse ele, ainda por telefone. O Ribas me passou as coordenadas da aventura: após um roteiro em vários lugares relevantes pra história ufológica da cidade, haveria a exibição de um filme sobre o tema e uma vigília na praia em busca dos nossos vizinhos do além.

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Fui à caráter caso batesse a nave. Crédito: Felipe Larozza

Saí de São Paulo no sábado. Embarquei num ônibus que, contrariando expectativas, não era da viação Cometa. Aterrissei na rodoviária da cidade no fim da manhã de sábado e tomei um táxi rumo à Pousada das Gaivotas, na praia do Guaraú, o QG do roteiro ufológico.

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Troquei uma ideia com o taxista no caminho. Ele se limitou a dizer que falavam por aí que tinham visto umas luzes estranhas no céu. O cara, assim como eu, parecia cético, mas isso não impediu que ele cobrasse desse paulistano de calça jeans uma bagatela aparentemente maior que o valor da corrida. Em terra de caiçara talvez só ET tenha vez, pensei.

Não me levem a mal os caiçaras. Todos nessa história são bem simpáticos. A Célia, por exemplo, foi gentil e ainda tirou uma com a minha cara. Ela administra a Pousada das Gaivotas e disparou logo que me viu: "Pode pôr uma bermuda e um chinelo que não adianta, quem vem de São Paulo não se passa por caiçara!". Ri junto, pedi uma indicação de um bom lugar para comer e rumei para um restaurante chamado Toka do Lula.

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O Ribas nos guiou durante o rolê todo, mesmo se houvesse apenas um matagal como no pouso de São José. Crédito: Felipe Maia

Antes de sair, conversei com ela sobre minha missão em solo peruibense. Ela emendou a história de um parente que tinha visto uma grande área com vegetação completamente amassada em uma região de mangue. O lugar seria de difícil acesso por água ou terra, então só sobraria chegar pelo céu. Não fosse a fome eu até ficaria para conversar mais com ela, mas não foi preciso retomar o papo porque eu ouviria uma história parecida alguns minutos depois.

A Dona Ivete, gerente da Toka do Lula, me contou que um parente seu tinha presenciado uma situação parecida: uma alta vegetação amassada em uma grande extensão de terra. E eu nem tinha contado a ela sobre o que ouvira da Célia. Minha surpresa só não foi maior que descobrir que o ex-presidente tem um sósia que é dono de restaurante e candidato ao cargo de vereador de Peruíbe.

Com o estômago forrado, voltei ao ponto de encontro para finalmente embarcar na caça aos ETs. As vezes de nave do grupo foram feitas por uma perua escolar branca que recebeu, durante o trajeto, entre sete e nove pessoas. O Mauro, motorista da trupe, tacou o pau no carrinho pelas estradas e caminhos de terra de Peruíbe e aproveitou para contar uma história que ele mesmo viveu.

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A dona Angelina serviu uma tubaína pra gente. Crédito: Felipe Maia

"Eu estava indo de Itanhaém para Mongaguá e passei perto de uma fábrica da Petrobrás. De repente, vi uma luz e pensei que era da fábrica, mas ela correu no céu e fez um L. A passageira que estava do meu lado também viu", disse ele. Mais um causo se acumulava no meu bloco de anotações e eu já me sentia o próprio Jacinto Figueira Crock, o Homem do Chinelo Rosa, quando paramos em São José para conversar com a dona Angelina Aparecida.

O bairro da periferia de Peruíbe protagonizou um dos casos mais estranhos que se tem notícia no país. Dona Angelina viu tudo de perto. "Foi depois da meia noite no dia 18 de agosto. Uma luz vermelha desceu e parou ali no brejo. A gente escutou os cachorros latindo e teve tipo um blecaute. Teve um barulho tipo de furadeira. No dia seguinte as plantas estavam amassadas. Se uma pessoa entra ali, ela fica presa porque é brejo."

A senhora me contou essa história entre um gole e outro de tubaína da sua birosca. Depois do ocorrido, muita gente visitou o lugar e as vendas dela aumentaram, mas, depois de um tempo, cresceu o mato na área de 14m de diâmetro e as coisas voltaram ao normal. Na nossa visita, a placa da prefeitura que indica o local do suposto pouso do OVNI estava tão carcomida quanto a geladeira da dona Angelina.

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Abarebebê significa "Padre que voa". Podia ser "Padre do balão". Crédito: Felipe Larozza

Voltamos ao carro e a tarde seguiria nesse ritmo. Uma parada, um causo, uma parada, outro causo. Passamos pelas ruínas do Abarebebê, restos da primeira igreja construída no Brasil e, segundo Ribas, um dos lugares com alto índice de avistamento de OVNIs. Nada de estranho por lá, a não ser o pixo de um tal Júnior e um certo Beto e um potro ou mula com o cabelo no estilo MC Bin Laden.

Depois, colamos na praia do Costão e paramos na barraca do Tedy Jony. Ela fica isolada ao sopé do morro encostado na praia. O Tedy é um senhor com bandana de pirata, camisa de pirata, colar de pirata e tatuagem de pirata. Ele, sua esposa e seu filho vendem uns rangos para os turistas, não fazem fiado pra ninguém e presenciaram uma penca de histórias por ali.

"Às vezes a gente vê luzes. Teve uma vez que veio uma luz grande e ela se desfez em três, duas sumiram e depois a última desapareceu. Isso não é normal, não é avião. Foi muito rápido, foi um sobe e desce. Às vezes tem luzes em cima do morro também. Eu não sei se existem aparelho capazes de fazer isso", me disse ele.

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Tirando alguns humanos, esse bicho foi o ser mais estranho que encontramos. Crédito: Felipe Larozza

Questionado sobre o que essas luzes – ou ETs – poderiam fazer, Tedy não sabia muito o que dizer. "A gente pega boi e põe no curral, né? Quem sabe não é isso que eles querem fazer. A gente nunca está preparado. Essa semana a gente viu uma baleia, essas coisas a gente vê quando menos espera."

Enquanto trocava essa ideia, Tedy empunhava seu walkie talkie e vigiava o movimento que se resumia a uma molecada caiçara batendo uma bola. O lugar não tem postes e a noite é um breu total. O comerciante prefere que as únicas luzes sejam estranhas mesmo. "Não deixo iluminar aqui porque a praia vai perder toda a vida que tem", me disse ele.

A gente pega boi e põe no curral, né? Quem sabe não é isso que eles querem fazer.

Quando a gente estava de saída, a dona Sonia, uma das participantes do passeio, me chamou de canto. Ela cochichou que até a escritura do nosso contador de histórias deve ser pirata. "A noite isso aqui vira um antro. Ele não quer iluminação porque ele é irregular. Esse barraco é irregular, mas a civilização chegou." Por algum motivo ela preferia a civilização ao tal antro, enquanto Tedy preferia os ETs a tal civilização.

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O pirata caiçara Tedy Jony contando um de seus causos. Crédito: Felipe Maia

Há quem prefira uma visão mais exótica dessa história alienígena. Um dos pontos do roteiro é o Paredão da Serpente, uma rocha enorme defronte a uma curva na estrada em que, disse o Ribas, acredita-se haver um portal para OVNIs de outra dimensão. Eu tive dificuldade para enxergar a cobra talhada na pedra, que dirá para enxergar o portal.

Pouco antes do encontro do Rio Guarau com o mar, o fim do roteiro e mais um lugar onde supostamente houve dezenas de avistamentos, o Ribas lançou a real. "Minha formação em engenharia química me preparou para ser cético, mas existem possibilidades que a gente nem imagina. Eu passos os relatos pra frente. As evidências de Peruíbe mostram que existem muito mais coisas entre o céu e a terra do que nossa vã filosofia pode explicar."

O bloco de notas já ia cheio de histórias e nada de ETs. A Kelly Ataíde, outra moça que nos acompanhou no roteiro, disse que não acreditava em nada daquilo. "Ninguém viu nada realmente. Só viram luzes. Não acho que tem lógica." Fechei com ela e continuaria duvidando desse papo todo se dependesse do passeio e do documentário que rolou a seguir.

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A Kelly não acredita, o Mauro acredita. Crédito: Felipe Maia

Sinal Verde, o documentário, repassa alguns lugares e histórias contadas pelo roteiro do Ribas, com direito a trilha sonora do naipe Arquivo X. O média metragem está disponível online, mas o que veio após sua exibição foi exclusividade nossa. Da brisada conexão entre São Tomé das Letras e Machu Picchu até possíveis formas dos corpos de ET, tinha espaço para tudo quanto é teoria.

Durante a conversa, um cara do meu lado fazia barulhos estranhos, como se regurgitasse algo de tempo em tempo. Ele também desconversava as teses sobre alienígenas. A julgar por isso, pelos ruídos e pela sua fisionomia de vilão do MIB, até acreditei que finalmente estivesse acompanhado de um ser extraplanetario que não fosse o ET Bilu. Acho que estava enganado e o cara era só porco, mesmo, porque nem o Jamil Vila Nova, o ufólogo que se juntou ao grupo, sacou isso.

O Jamil vive no Guarujá e tinha ido a Peruíbe para participar da vigília na praia em busca de OVNIs. No começo da noite, tínhamos trocado uma ideia num boteco perto da praia. Ele pediu um salgado e uma pimenta forte. "Aquelas de furar a mesa", disse. Sem rodeios ou baboseiras, ele me explicou sobre o que se tratava sua ciência. "Ufologia é feita por observação, análise e eliminação. É ir a campo, procurar."

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Apenas locais, mas isso serve para humanos ou para ETs? Crédito: Felipe Maia

"Não é sempre que você vê algo estranho. Você tem de ter um conhecimento muito amplo em várias coisas: astronomia, geografia, fenômenos anômalos atmosféricos. A linha de raciocínio é a eliminação. Você tem de ver o que é rota de avião, por exemplo. E sempre que der, usar um instrumento", me disse. Na sua bagagem vinham uma câmera DSLR, um telescópio com 1m de foco e dois lasers com alcance de 50 a 80 km usados para comunicação, segundo ele.

Ele também carregava histórias de aparições e avistamentos de supostos OVNIs que tinha presenciado. Bolas incandescentes que pulsam em lugares de difícil acesso, anéis de fumaças com luzes no centro e até mesmo um ser prata com aspecto humano que cambaleava na praia. "Estranho", pontuava ao fim de cada causo.

Você tem de ter um conhecimento muito amplo em várias coisas: astronomia, geografia, fenômenos anômalos atmosféricos

A caminho da praia, ele deu uma causa plausível pela qual os ETs bateriam cartão na praia de Peruíbe. "Essa região é rica em minérios e eles podem estar em busca disso." Era o que faltava para abalar meu ceticismo. A talagada de histórias começava a ganhar contornos de realidade graças a minha busca por conhecimento. Os ruídos daquele cara já não eram os únicos sons esquisitos ao redor. O breu já tomava conta da praia do Guaraú. Qualquer luz poderia ser alguma luz incomum. Aquela praia poderia esconder um contato imediato de qualquer grau.

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Chegou uma nave, mas era um carro. Crédito: Felipe Maia

De uma hora pra outra, trombar com um ser de outro planeta ou sua nave parecia algo, ao mesmo tempo, crível e incrível.

Mas não passou disso.

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Espaço, a outra fronteira final. Crédito: Felipe Larozza

Não encontramos nenhum ET durante nossa vigília de poucas horas. Como estávamos lá numa missão séria, nem a nave bateu. A única nave que chegou junto era um carro que passou rasante pela areia batida. Batemos umas fotos, fizemos um guia pra não ser abduzido, gastamos pescoço olhando pra cima e deu até pra identificar algumas constelações. Quando achei que tudo estava perdido, um rastro luminoso cortou o céu. Pelo sim, pelo não, pedi que um ET viesse até nós. Se era uma estrela cadente, essa história de pedido não funciona. Se era uma nave, eu não acredito, mas que elas existem, existem.

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