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Parem de Falar que Fela Kuti É “World Music”

Fela era um cara extraordinariamente corajoso, um lutador contra o colonialismo e a corrupção, preso mais de cem vezes e espancado. A categoria “world music” tende a diluir artistas desse nível.
16 Outubro 2014, 6:54pm

Quando conheci Fela Kuti, o autointitulado “Black President”, ele estava um hotel em Londres trajando apenas uma cueca vermelha e fumando um baseado enorme, cercado por três das suas esposas (ele notoriamente se casou com 26 mulheres num dia só) e seu mágico pessoal; um ganês que se chamava Professor Hindu. Esse foi a primeira matéria que já publiquei na vida.

Fela me contou que ele transava com suas mulheres em rodízio e disse a mim, um estudante espinhento: “Um homem deve ter orgulho de dizer que teve uma ótima foda na noite passada”. Ele chama gays de “maricas” e diz que o uso de camisinha é “não-africano” – a última música que ele lançou era um discurso inflamado contra os preservativos.

Naquela época, em meados dos anos 1980, Fela era cultuado no Reino Unido. Na Nigéria e na África, no entanto, ele já era de alto calibre há bem mais de uma década; quando morreu, Lagos parou e um milhão de pessoas compareceram ao seu enterro. Os defensores de Fela, entretanto, afirmam que sua morte trouxe a AIDS à tona e muitas vidas foram salvas por causa disso. Algumas das opiniões de Fela eram, sem dúvida, “deliberadamente provocadoras para os liberais ocidentais”, segundo me disse seu amigo e empresário Rikki Stein.

Mas, mais importante, o que deu a Fela Kuti um número enorme de seguidores foram as suas lutas por justiça social por meio de músicas como “International Thief Thief (ITT)”, que atacava corporações multinacionais, ou “Zombie”, que parodiava os abobados militares que seguiam ordens sem pensar e eram considerados revolucionários.

Em 1976, “Zombie” levantou tumultos e será vista, sem dúvidas, como mais radical – musicalmente, pelo menos – que “Anarchy in the UK” dos Sex Pistols, lançada no mesmo ano. A primeira vez que a ouvi, estava fazendo uma aula de aeróbica com a Viv Albertine dos Slits e fiquei embasbacado com ela, não só porque Fela Kuti apresenta sete minutos de um groove impecável – essa pode ser uma faixa incendiária e subversiva, mas Fela não é do tipo que perde o bonde. Damon Albarn já disse que essa era a música mais sexy do mundo.

No decorrer da sua vida, Fela foi detido mais de cem vezes, preso e espancado. Quanto ao Professor Hindu, Fela disse que o mágico o possibilitou falar com a sua mãe morta todas as noites. Ela era uma feminista pioneira e supostamente a primeira mulher nigeriana a dirigir um carro, e foi morta depois que um grupo de militares a atirou de uma janela num ataque ao complexo do Fela, local que ele havia declarado como uma república independente.

O Professor Hindu subia ao palco com Fela Kuti e fazia truques tipo cortar sua língua ou tirar relógios do vácuo. Sua manobra mais notória foi pedir por um voluntário numa sexta-feira à noite no Town and Country Club em Kentish Town no norte de Londres pra ser enterrado vivo durante o fim de semana. Uma cova havia sido cavada atrás do clube. O público se amontoou pra ver o voluntário, um nigeriano enterrado de terno coberto de terra. Na noite de domingo ele foi desenterrado outra vez, e em dada altura ele deu uma cantada na jornalista Vivien Goldman (atualmente “professora de punk” em Nova York) com a imortalizada frase: “Ser enterrado vivo deixa uma pessoa com tesão”.

Fela Kuti morreu de complicações relacionadas à AIDS em 1987 e a impressão que fica é a de que a cada ano sua presença fora da África aumenta. Quase todo mês suas músicas são re-lançadas; mês passado, por exemplo, saiu um boxset selecionado por Brian Eno, também pioneiro da música, que fiz que ouviu mais Fela Kuti do que qualquer outro artista e “pensava que era a música do futuro em 1972 e ainda penso”.

A música de Fela – ou o gênero fundado por ele, o afrobeat – toca em festinhas hypadas por aí pelo som de gente como Vampire Weekend ou Damon Albarn, todos reconhecendo sua genialidade por aí, pegando emprestado elementos do seu som. Albarn inclusive já trabalhou com Tony Allen, o baterista de Fela Kuti na Africa 70, e co-criador do afrobeat, que continua a lançar discos como se não houvesse amanhã.

A inserção de Fela no mainstream ocidental foi impulsionada pelo musical Fela!, produzido em parceria com Jay Z e apresentado em Londres e na Broadway em 2010. Foi lançado também um filme, Finding Fela, dirigido por Alex Gibney, que está sendo exibido em cinemas dos EUA e Europa.

Enquanto músico e ativista social, ele vem sendo constantemente comparado a Bob Marley. Mas foi como um revolucionário da música que ele se transformou em figura fundamental para seus pares. No filme, Paul McCartney fala sobre quando ele viu a banda de Fela gravando Band on the Run no estúdio da EMI em Lagos em 1972: “Era a melhor banda que eu já tinha visto ao vivo. Quando Kuti e sua banda eventualmente começaram a tocar, depois de um longo e alucinado crescendo, não consegui parar de chorar de alegria”.

Uma das principais fontes de Fela foi o funk de James Brown, que por sua vez foi influenciado pelo próprio Fela depois que sua banda visitou o clube dele, The Shrine, em Lagos. Segundo conta Bootsy Collins, o baixista de Brown, “eles eram os caras mais vibrantes que já tínhamos escutado na vida. Sabe, éramos a banda do James Brown, mas ficamos de queixo caído!”. Jazzistas incríveis como Miles Davis o reconheceram como um “artista transformador”. Com o apoio de alguns dos maiores artistas do mundo, o que poderia dar errado?

Um dos motivos pelos quais Fela Kuti não foi mais famoso enquanto vivo foi sua personalidade ocasionalmente complexa e auto-destrutiva, que fazia com que ele sabotasse a sua própria festa. Quando Paul McCartney ofereceu a Fela e banda a chance de participarem como convidados em Band on the Run, Fela anunciou em seu clube em Lagos que “o homem branco veio pra roubar a nossa música”. Band on the Run, por acaso, acabou por ser o disco mais vendido de 1973, um álbum que teria automaticamente colocado Fela no mapa.

Quando a Motown quis lançar um selo africano chamado Taboo no princípio dos anos 1980, ofereceu um contrato à Fela Kuti. Rikki Stein, seu empresário e amigo, alega que a resposta de Fela foi pra entrarem em contato com os espíritos através do Professor Hindu. Os espíritos não permitiram que ele assinasse contrato algum por dois anos, então ele recusou a proposta da Motown, deixando assim de ganhar milhares de dólares em dinheiro vivo. “Mesmo na época a Motown entrou na conversa”, conta Stein. “Mas depois de dois anos, em abril de 1985, no mês em que Kuti estava pronto pra assinar, o cara da Motown foi demitido e o contrato, cancelado.”

Kuti recebeu várias outras ofertas de gravadoras americanas naquela época, mas o problema é que ele andava produzindo umas peças de 60 minutos. “Você não pode fazer uma música de 60 minutos pro rádio?”, Stein lembra-se de perguntar. “Fela só dizia: ‘Nem saberia como fazer isso’”. Outra história é a de um selo ocidental que veio visitar Fela quando ele estava no banheiro e deixou a porta aberta pro cara dizer qual era a oferta. Havia esse elemento de Fela Kuti rejeitar as empresas ocidentais, que ele via como imperialistas, enquanto que seus materiais pouco aprazíveis pras rádios tornaram sua música difícil de ser vendida no Ocidente.

Uma das formas de ver a sua música é como ele via a si próprio. Kuti estudou música clássica na Trinity College em Londres no começo dos anos 1960, onde ele também teve uma banda de jazz chamada Koola Lobitos. Quando perguntei com aquele meu jeitinho de repórter cru quais eram seus músicos favoritos ele disse: “Handel. Música ocidental é Bach, Handel e Schubert. É música boa, inteligente. Como músico consigo perceber isso. Música clássica dá um empurrão aos músicos. Mas música africana dá um empurrão em todo mundo”.

Nos anos 1980, ele começou a chamar sua música de “música clássica africana”, argumentando que não se esperaria de músicos como Mozart ou Beethoven que escrevessem peças de três minutos então por que ele deveria? Inclusive, D’Banj, que se descreve como “um cruzamento de Fela Kuti e Michael Jackson”, e que emplacou um hit mundial em 2012 com Oliver Twist, talvez consiga atingir o sucesso pop como artista nigeriano, algo que nunca aconteceu com Fela.

Ainda assim, um milhão de pessoas assistiram ao musical Fela! e o novo filme só aumenta esse reconhecimento. Talvez exista aí uma tendência em mostrar seu lado menos convencional que talvez desanime seu público liberal “world music” – Fela me disse que tinha orgulho em ser machista. Ele, sem dúvida, colocou muita gente em risco ao deliberadamente esconder seus sintomas da AIDS.

Mas ele era um cara extraordinariamente corajoso, um lutador contra o colonialismo e a corrupção, preso mais de cem vezes e espancado, mas nunca teve seu espírito corrompido. A categoria “world music”, que ele sempre denominou como inútil, tende a diluir artistas de peso como Fela. Ele era mais próximo a Bob Marley, porém mais forte, e produziu obras extremas e nenhuma delas pode ser classificada como “world music”. Ele foi um gênio na categoria de um homem só. Bill T Jones, coreógrafo de Fela!, o descreveu melhor do que qualquer um: “Ele era um monstro sagrado”.

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