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Mullets, Viola e 1 Milhão de Sucessos: Os 45 Anos de Carreira de Chitãozinho & Xororó

Correndo o Brasil com três turnês SIMULTÂNEAS, os Rolling Stones do sertanejo brasileiro mantém o reinado, mas agora com a leveza campestre das aves que dão nome à dupla.

por Marcelo Daniel
03 Dezembro 2015, 8:00pm


A dupla no festival Brahma Valley. Imagens gentilmente cedida pela VICE Brasil e Brahma.

Na noite de 11 de dezembro de 1968, um grupo de artistas convidados por Mick Jagger, esbelto vocalista dos Rolling Stones, se reuniu em um estúdio de TV cuja cenografia imitava um picadeiro, na região de Wembley, em Londres. Na ocasião, o jovem guitarrista Tony Iommi foi convidado a dividir o palco com uma banda em grande ascensão na cena londrina (e internacional): o Jethro Tull.

Nessa que seria sua única filmagem ao lado da mítica banda de rock progressivo, Iommi está visivelmente tímido, usando um chapelão que o caracteriza não como uma lenda dos riffs pesados de guitarra, mas como um legítimo “mateiro”. Em sua biografia Iron Man: minha jornada com o Black Sabbath ele confirma: “Estava envergonhado demais e fiquei com a cabeça baixa enquanto tocava, para que as pessoas não conseguissem me ver”. Antes de se apresentarem com a música "Song of Jeffrey" (baita som!), músicos do Jethro Tull, The Who, Taj Mahal, John Lennon, Yoko Ono (é claro) e, certamente, dos próprios Stones tiveram de fazer poses e mímicas circenses para a filmagem, que só seria finalmente editada três décadas depois, em 1996, sob o nome de The Rolling Stones Rock and Roll Circus. Após o lendário show, o guitarrista abandonou a banda e voltou à sua banda de garagem anterior, o Black Sabbath, que viria a revolucionar a história do rock pesado no planeta Terra.

Poucos anos depois, já na década de 1970, outra revolução musical se iniciava também em um circo. Muito longe do subúrbio londrino, dessa vez em uma lona armada em alguma cidade do interior do Estado de São Paulo.

No palco, dois também cabeludos personagens encenavam uma história em clima de faroeste. Sob o título O pistoleiro da Ave Maria, o galã José de Lima Sobrinho era atazanado pelo algoz, vivido por seu irmão Durval de Lima, que se inspirava no comediante mexicano Cantinflas para viver um bêbado e atrapalhado vilão. Ao término da comédia, o final feliz dava início a uma nova etapa do espetáculo, dessa vez musical, em que os dois atores assumiam suas facetas de cantores, sertanejos, bem como seus nomes artísticos: Chitãozinho & Xororó.

A música que vinha em seguida era “60 dias Apaixonado” (composição de Constantino Mendes e Darcy Rossi) e, com o passar das apresentações, a porção teatral do espetáculo passou a perder o brilho. O público gritava e pedia o fim da encenação. A plateia queria mesmo era ouvir a música da dupla.

Jamais será esquecida a imagem bela de um anjo amado
Dois meses passaram logo, é num copo que eu afogo, 60 dias apaixonado

(trecho de “60 dias Apaixonado”)

“Graças a Deus, hoje, podemos olhar para trás e agradecer. Temos muito orgulho de tudo o que conquistamos”, disse Xororó, agora com 58 anos, ao Noisey, em entrevista feita por e-mail e que antecede o show de 45 anos de carreira da dupla, que será realizado no Citibank Hall, em São Paulo, neste sábado (5). Chitãozinho, 61 anos, conta que, apesar da narrativa inovadora, a apresentação no picadeiro não era uma novidade: “Naquela época a maioria das duplas sertanejas começou a tocar dessa forma, se apresentando em circos, inclusive, uma das precursoras dessa tendência foi Milionário e José Rico”.

Voltando um pouco no tempo, o embrião da carreira musical vem dos pais, que cantavam em casa, e incentivavam nas apresentações dos jovens talentos. “Começamos a cantar em festas juninas e clubes de Rondon, no Paraná, onde passamos nossa infância”, recorda Xororó.

Suas músicas tiveram divulgação mais restrita e regional até o início da década de 1980, para ser mais exato, o ano de 1982, quando a música “Fio de Cabelo” (composição de Darcy Rossi e Marciano, ele mesmo, da extinta dupla com João Mineiro), integrante do álbum Somos Apaixonados, estourou em âmbito nacional – lançado pelo selo Copacabana, alcançou a venda de 1,5 milhão de cópias.

“Temos muito orgulho em dizer que, com a música “Fio de Cabelo”, conseguimos romper as barreiras do preconceito ao gênero sertanejo, fomos projetados como artistas nacionais e tudo isso representou também um marco na história da música sertaneja”, afirma Chitãozinho. Para o cantor, a partir daí, o estilo passou a ser tocado em rádios FM e começou a ter espaço nos programas de televisão, algo que os sertanejos não faziam naquela época.

O cenário sertanejo no início da carreira da dupla já possuía nomes conhecidos como Tonico & Tinoco, Tião Carreiro & Pardinho e o próprio Milionário & José Rico, músicos que apresentavam um visual mais conservador e ligado à figura do homem do campo, de camisa e chapéu – à exceção, é claro, de Zé Rico, que morreu no início do ano, e cujas vestimentas deixariam com inveja até mesmo um astro do glam rock.

No entanto, com Chitãozinho & Xororó, as vestimentas passavam a ser assunto nas apresentações musicais. Bastante jovens, com cabelos longos e indumentária que flertava com a country music americana, a dupla chegou à TV esbanjando estilo – e até foram satirizados por essa irreverência, como na dupla Chitãoró e Xorãozinho, vivida no humorístico A Praça É Nossa pelos atores Marcelo Nóbrega e Arnaud Rodrigues.

Lembrando aqui também que os próprios Beatles tiveram sua sátira capitaneada por Eric Idle, braço do grupo britânico Monty Python, com sua banda fictícia The Rutles.

“Acho que influenciamos bastante o público com os cabelos mullet, calças justas, botas e chapéu também. Temos muito orgulho disso e nunca fomos criticados por sermos modernos demais. Isso mostra que somos bastante versáteis [risos]”, afirma Chitãozinho.

O MAIOR HIT DE KARAOKÊ DE TODOS OS TEMPOS

Faço tipo, falo coisas que eu não sou
Mas depois eu nego
Mas a verdade
É que eu sou louco por você
E tenho medo de pensar em te perder

(trecho de “Evidências”)

De terça-feira a domingo, Ionilton Barbosa Júnior, de 23 anos, chega às 19h30 no trabalho e vai direto para o aparelho de videokê profissional para mais uma noite gerenciando a cantoria da galera. Entre gritos desafinados, pronúncias em um inglês inexistente e aquela turma que insiste em tentar subir no palco carregando o copo de bebida, está a fiscalização de Júnior, o guardião dos microfones na Choperia Liberdade, localizada há 15 anos no bairro de mesmo nome, em São Paulo.

“Trabalho com karaokê há quatro anos, tanto aqui na Choperia Liberdade quanto em outras casas que o grupo possui na região”, conta o rapaz, que informa que, nos finais de semana, mais de 600 pessoas passam pelo curioso estabelecimento.

Misto de Tatuapé com Tóquio, visitar a choperia é uma experiência que envolve enfeites orientais, magníficos aquários com coloridos espécimes, um bar ao centro, restaurante japonês, duas mesas de sinuca aos fundos e, é claro, o rei do espetáculo: um karaokê com uma tela gigante à frente e monitores que reproduzem seu conteúdo nas ornamentadas paredes do local.

Sobre a dupla Chitãozinho & Xororó, as palavras de Júnior impressionam: “Nas sextas-feiras e sábados, das 130 canções que são executadas em média numa noite, fora de brincadeira, a música ‘Evidências’ é cantada mais ou menos umas 30 vezes”.

O diagnóstico, segundo o funcionário, não é uma exclusividade do restaurante da Rua da Glória, mas é uma proporção que se repete em todas as casas onde trabalhou, para homens, mulheres, turmas ou cantores solitários. “É uma música de José Augusto e Paulo Sérgio Valle que fez sucesso na voz de Chitãozinho & Xororó”, corrige o rapaz, que, além de apreciar o timbre de aspirantes a cantores do Brasil inteiro ao lado de sua banqueta, também lê todos os créditos de composição, exibidos em cada uma das faixas executadas no videokê.

“’Evidências’, sem dúvida, é uma composição muito importante na nossa carreira e uma das músicas mais tocadas na noite por todo o Brasil. O que achamos incrível é que o público jovem sabe a letra do começo ao fim nos nossos shows”, orgulha-se Chitãozinho. A reportagem brinca se vão acabar criando uma lei para que os aparelhos já venham, de fábrica, com essa composição. “Se vai virar lei, ainda não sabemos, mas imagine, bem que podia, né? [Risos]."

Com 45 anos de estrada e já pensando nos 50, a dupla está longe de desacelerar na carreira. Atualmente, percorre o Brasil com três turnês: Pura Emoção, que é a que estará na capital paulista no fim de semana, No Tom do Sertão, com versões especiais de sucessos do gênio da bossa nova, Tom Jobim, e o show em conjunto com os cantores Bruno & Marrone.

Do circo para a TV, das quermesses para apresentações de gala na Broadway, em Nova York. A carreira de José de Lima e Durval prossegue em alta, mas com uma leveza, uma simplicidade campestre que parece vir das aves que dão nome à dupla: o inhambu-xintã e o inhambu-xororó.

Que tal ouvir o canto dessas aves em uma imitação exclusiva de Ruy Valderramas, o “Passarinho de Bauru”? Na verdade, o repertório do nosso imitador trouxe apenas o canto do inhambu-xororó, mas vale a pena apertar o play, fechar os olhos e sentir o clima do sertão invadindo seu dia!

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