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Noisey

O Mike Milosh, do Rhye, Não Saca Por Que a Mídia Liga Tanto Para a Imagem dos Artistas

A dupla definida como “um encontro entre a Sade e o The xx” toca em São Paulo nesta quarta (11), no Popload Gig.

por Eduardo Ribeiro
10 Novembro 2015, 2:50pm

Não é justo definir o som do Rhye dentro de termos fáceis como R&B ou “pop futurístico”. Digamos que o estilo da dupla formada pelo multi-instrumentista dinamarquês Robin Hannibal e o produtor e cantor canadense Mike Milosh é algo entre uma e outra tentativa de captura, só que é muito mais. Trata-se de uma musicalidade tão ambígua quanto as misteriosas imagens que chegaram com as primeiras faixas que ganharam a internet. Sem identificar o rosto dos artistas nas fotos, houve quem atribuísse os vocais, delicados e ao mesmo tempo imponentes, a “talentosas cantoras”. Acho que o Rhye pode ser pensado mais como uma vibe do que uma vertente musical. Uma vibe boa, lasciva, sofisticada e emocional. Uma vibe contemplativa a partir de melodias leves e bonitas, com lugar para o groove e a dança, se você quiser.

A história do projeto é mais ou menos recente. Em 2010, Robin entrou em contato com Mike – que já havia lançado três álbuns pelo selo Plug Research, o mesmo de uma das bandas de Robin, o Quadron – encomendando um remix. O encontro foi tão produtivo que eles imediatamente pensaram em fazer algo juntos, e assim nasceram os singles “Open” e “The Fall”, lançados em 2012. A repercussão levou ao contrato com a Polydor no Reino Unido, e aí veio o primeiro álbum, Woman, em março de 2013. É esse o repertório que o público brasileiro vai poder curtir ao vivo nesta quarta (11), em São Paulo, no Popload Gig. A festa rola no Beco 203, e, os ingressos, custam R$ 132.

Quando liguei para o Mike Milosh, ele me atendeu na fila do check-in. Ainda que atribulado com as burocracias do embarque, ele foi simpático e dedicou os nove minutos de tempo que lhe sobravam para responder às perguntas abaixo:

Noisey: Bom, já se completou mais de dois anos desde que vocês lançaram Woman, o álbum de estreia. Vocês já têm músicas novas no repertório dos shows? Vão tocar alguma no Brasil?
Mike Milosh: Tenho um monte de músicas novas, sim. Mas não estamos tocando essas músicas nos shows. Vamos tocar uma delas, apenas.

Que no caso seria “Waste”, aquela que vocês já soltaram nas redes?
Sim, de coisa fora do repertório do álbum teremos “Waste”, que até já foi divulgada por aí, porque ainda não nos sentimos seguros para apresentar as outras.

Mas esses sons novos já são o bastante para completar um próximo álbum?
São umas sete músicas, no total. Mas ainda estamos estudando essas ideias, esses rascunhos sonoros. Não sei se tudo vai entrar no próximo álbum. Estamos naquela fase de colocar tudo o que temos na mesa e ver o que vira música de verdade e o que será descartado ou reaproveitado de alguma forma. Depois dessa turnê, vou pegar uns três meses, de dezembro a final de fevereiro, para trabalhar nisso em estúdio.

Quando os primeiros sons do Rhye surgiram, não se sabia muito bem se vocês eram uma banda, um projeto solo, e tinha até quem pensasse que o vocal era de mulher. Por que tanto mistério? A proposta era ser um projeto anônimo? Ou isso era estratégia de marketing?
Não, de maneira alguma. Nada disso teve a ver com estratégia de marketing. Eu nem pensei em ser anônimo ou não. Se você for ver, antes do Rhye, tudo o que eu produzia já levava o meu nome mesmo. As pessoas dizem que surgimos como uma banda misteriosa, mas nunca planejamos nada disso. O que aconteceu foi que eu soltei as músicas sem me preocupar em criar um pacote com minha foto de divulgação para a imprensa. Estava totalmente focado na criação musical, queria mostrar as músicas e ver no que ia dar, só isso. Não queria que as pessoas se interessassem mais por mim, pela minha cara, do que pela música. E a mídia se importa tanto com essa coisa de fotos, você cria um projeto e tem que ter fotos pra mandar e tal. Foi só isso que deixei em segundo plano. Não queria ficar me preocupando com material de divulgação naquele momento. Queria que as pessoas curtissem a música sem se preocupar com a minha pessoa. Mas esse negócio de projeto anônimo nunca existiu. Não era sequer um experimento. Eu só não queria promover a minha imagem, não queria que a estética visual tivesse um impacto antes da música.

Você morou na Alemanha um tempo, né? A cena musical de lá surtiu alguma influência nas suas composições?
Morei em Berlim, mas não acredito que a cultura musical da Alemanha tenha influenciado no tipo de som que faço hoje. Não foi para pesquisar música que me mudei para lá. Só estava querendo viver num lugar interessante. Os lugares onde vivo ou que frequento não costumam me influenciar musicalmente. Tudo o que produzo, eu produziria de qualquer maneira, independente disso. Berlim é uma cidade legal para conhecer. Foi demais, amei a experiência, mas não acredito que tenha afetado minha música.

Nem os artistas com os quais você teve contato te mostraram coisas interessantes que pudessem ser absorvidas?
É que eu não sou de absorver coisas assim. De qualquer forma, conheci alguns artistas de lá, fiz amizades com um pessoal bastante imerso no mundo techno. Gosto de techno, mas não quero fazer techno. É um estilo interessante, mas que não estou interessado em produzir.

Como você compõe? Você e o Robin fazem umas jams, uns experimentos, e vão definindo as melhores ideias a serem aproveitadas?
Sou um cara que não fica fazendo jams, sou bastante decidido. Quando coloco uma ideia para fora, já sei exatamente o resultado que quero obter. E o Robin também é assim. Então nós dois apenas deixamos rolar e vamos combinando as ideias. Mas não diria que é aquela coisa de tocar e ver como soa e sair experimentando. Trata-se de uma montagem mais racional mesmo. Quando toco os acordes no piano, já tenho na cabeça a melodia e o tom da voz. O que leva mais tempo e dificulta mais para mim, na verdade, são as letras. Me preocupo em captar as coisas que estão acontecendo na minha vida naquele momento criativo e em como vou expressar aquilo dentro da música. Essa é a parte que demanda mais energia de mim. Todo o resto do processo é um tanto conciso e descomplicado. Robin e eu temos isso em comum. A coisa simplesmente acontece.

Então o processo é bem rápido? Não rola uma cabeçudice, um preciosismo, uma discussão? Isso que eu chamo de química!
Bem, geralmente levamos uma tarde para finalizar uma música. Coisa de quatro a cinco horas. Aí a gente dá um tempo pra deixar a ideia maturar, tipo uma semana, e só depois retomamos aquela música para começar a adicionar novos elementos, enriquecer o arranjo. Começamos a pensar em como podemos melhorar a parte de cordas, como vai soar um trombone, ou um clarinete ali no meio. Nós não tínhamos muita verba para investir quanto estávamos fazendo o disco, então fomos fazendo tudo aos poucos. Fomos acrescentando os elementos com o passar do tempo, conforme dava para bancar. Primeiro deixamos as bases do jeito, o coração das músicas, gravei os vocais e tal. E depois, começamos a chamar outras pessoas para colaborar, ficamos uma semana inteira enriquecendo as passagens que dava para melhorar.

Popload Gig com Rhye @ Beco 203
Quarta, dia 11/11. Rua Augusta, 609 – Consolação
A partir das 20h; show às 22h
+ info: poploadgig.com
R$ 132,00 (inteira)

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