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Diomedes Chinaski, do Chave Mestra: "O paulistanês não é o 'idioma' do rap nacional"

Com o lançamento do segundo disco, o EP 'Coração no Gelo', grupo entra no trap "galeroso" sem perder a essência e, principalmente, o sotaque pernambucano.

por Beatriz Moura
01 Julho 2016, 12:00pm

O rap está no Brasil há quase (ou há mais de) 40 anos e infelizmente o centro da cultura ainda se fecha muito na dicotomia Rio de Janeiro-São Paulo. Essa bipolarização é tão forte que nós (sim, eu e você) simplesmente nos esquecemos que tem gente mandando suas rimas em MUITOS outros cantos do país. E é foda, porque, se você fica achando que só o que rola aqui no centro-sul é "rap de verdade", pode estar perdendo uma oportunidade de ouro de ouvir muita coisa boa por aí por pura desinformação, preguiça de procurar ou até por puro preconceito de ouvir um sotaque diferente. Um desses grupos que é bom demais pra você não dar aquela devida atenção só por eles não estarem dentro deste eixo — e, consequentemente, não cantarem em "paulistanês" ou "carioquês" — é o Chave Mestra.

Os caras lançaram o seu segundo disco, o EP Coração no Gelo, no começo de junho, e ele é definitivamente uma mistura da "cultura de galeragem" com um trap gringo — sem perder a essência pernambucana. "Nesse álbum, queríamos fazer algo 'favela' nas letras, mas com uma malandragem melódica que permitisse atrair outros públicos", me disse Diomedes Chinaski, um dos fundadores do Chave, grupo que conta também com Faraó, Moral, Louco do Texas e Zaca de Chagas na formação. "Fizemos com o nosso sotaque e sem nos imaginar americano nas canções, além de entender que o 'galeroso' daqui é o 'nigga' de lá."

Se você não está ligado, "galeroso" é o nome que o pessoal lá em Pernambuco dá pros pixadores que se enfrentam em bailes funks. Desde 2009, quando o Chave nasceu, é o que mais rola nas quebradas de Recife. Só que, o que acontece é que existe uma rixa muito grande entre o rap e a cultura de "galeragem" da cidade. "O rap daqui tem preconceito com o pessoal da galeragem", contou Chinaski. "E o que o Coração no Gelo faz é justamente o contrário. Não queremos pagar de intelectual e superior. Queremos atingir todo mundo. O nosso nome, Chave Mestra — que extraímos da faixa 'From Hell de Céu', do Black Alien —, é justamente isso: o nosso som sempre foi pra abrir as portas pra qualquer público, e não pra ficar restrito num clubinho".

Muito por isso que o grupo apostou bastante no trap no novo EP. "Aqui em Pernambuco, o trap está comendo solto nas festas de rua. A nossa proposta foi sempre adequar o Chave ao mercado, fazendo o máximo pra manter a alma", disse Diomedes. E isso resultou num disco mais direto, com letras menos densas do que o primeiro, Novo Egito, e com refrões pensados justamente para grudarem na cabeça.

Com participações dos cearences Nego Gallo (Costa a Costa) e Côro MC (Relatos de Fortaleza), o EP foi gravado pela Outra Vibe Records, mixado pelo Peu Shady e JJ Slim (que também masterizou o disco). Aproveitando o lançamento do Coração no Gelo, falei com o Diomedes sobre a evolução do Chave Mestra, a influência do grupo cearense Costa a Costa no som deles — segundo o Diomedes, o Chave Mestra é assim hoje só por causa da mixtape Dinheiro, Sexo, Drogas e Violência (2007) — e sobre como ele acha que o Don L é o nordestino mais bem preparado pra alcançar sucesso nacional no rap.

Ah, ele mandou a real também sobre como Brasil fecha as portas para os rappers nordestinos. O papo está longo, então, dê um play no abaixo e manda bala na entrevista abaixo:

NOISEY: Diomedes, o Coração no Gelo é o trabalho que dá sequência ao que vocês já vinham fazendo no Novo Egito (2015). Me explica como foi o processo de composição do disco.
Diomedes Chinaski:
No Coração no Gelo, queríamos fazer algo "favela" nas letras, mas com uma malandragem melódica que permitisse atrair outros públicos. Sem clichê. Com nosso sotaque e sem se imaginar americano nas canções. Entendendo que o "galeroso" daqui é o "nigga" de lá. Contando histórias reais, com gírias e costumes reais.

O que seria "galeroso"?
São grupos de pixadores de cada bairro que se confrontavam em bailes funks (feitos exclusivamente pra os confrontos, nos quais existem até premiação. É que bem assim, antes nossos raps eram meio didáticos. Aquela parada old school rap de São Paulo. E nossos amigos de bairro curtiam essa cultura de "galeragem". Só que o que acontecia é que eles não digeriam nosso som.

Gravamos a música "2000 e Sempre", em 2011, quando ainda éramos só eu e Faraó. E essa faixa cita um caso real, de jovens de bairros rivais da cidade. Foi aí que o nosso som atingiu os galerosos e, assim, viramos o primeiro grupo a ter esse tipo de público aqui. O rap aqui tem preconceito com a galeragem. O marco dessa nossa virada foi quando Faraó gravou com Louco do Texas a música "Muleke Manja" (2011), também contando a história real de dois jovens daqui que foram presos com muita arma, droga e colete à prova de bala. Essa faixa foi um feito "heróico" pro imaginário do pessoal. A história deles se confunde com a da Chave Mestra.

Depois disso, Moral e Louco do Texas, que eram do Nativa Crew, acabaram se juntando comigo e com Faraó no Chave. E Zaca veio mais tarde. Mas o "Chave Mestra" é basicamente isso: abrir as portas pra qualquer público.

Como que é esse preconceito do rap aí com os galerosos?
Aqui, o rap até hoje faz aquela segmentação. Tipo, eles pregam uma falsa politização que exclue pessoas, se julga superior e ignora a cultura local, a gente comum dos nossos bairros.

O que a gente tenta fazer é mesclar os dois. Percebemos que a parada era usar as nossas gírias, e não "mano". Quem foi uma influência muito grande pra isso foi o Costa a Costa, na época da mixtape Dinheiro, Sexo, Drogas e Violência. A gente sempre ouviu muito rap de Angola e popularizamos aqui a "egotrip" dentro das rimas. Só que até hoje a galera daqui tem preconceito com isso. Acabamos sendo vistos como bossais. Só que esse é uma modalidade lírica bem comum nos Estados Unidos e tem raízes angolanas bem fortes. A gente sempre costuma fazer o que ninguém tem coragem primeiro e acabamos sendo vistos como visionários, mas pagamos preços por isso antes, também, principalmente por já termos glorificado ações violentas de gangues dos nossos bairros em músicas antigas.

Tem muito trap no EP. Por que vocês resolveram ir por esse caminho?
No primeiro disco, Novo Egito, misturamos muitos ritmos, o que o tornou esteticamente confuso e chato, às vezes. Nesse, Faraó queria fazer trap. Nas festas daqui, o trap está bombando. E o Chave Mestra sempre foi game. O plano sempre foi adequar a Chave ao mercado, fazendo o máximo pra manter a alma e as características já consagradas em nosso som.

Daí, a referência que sugeri foi fazer um lance meio Atlanta. Usamos como referência pros instrumentais Migos, Young Thug, Gucci Mane. Mas cientes de que nossa musicalidade e diferenças nos flows de todos os membros originariam numa sonoridade única

O instrumental da faixa que dá nome ao EP foi um beat cheio de sentimento e totalmente dentro da estética sonora do disco.
Quase todos os versos foram escritos em estúdio por mim e completada pelo restante do grupo. Tudo gravado instantaneamente. Só a parte de Faraó na música "Pacto", ele não escreveu. Criou em forma de grito de guerra, decorou e gravou. E a gente canta nas canções, também. Ele é musicalmente mais rico, tem mais harmonias e os beats se completam. É um trabalho menor que o Novo Egito, só que mais bem amarrado.

Você disse que a mixtape do Costa a Costa, Dinheiro, Sexo, Drogas e Violência, formou o Chave Mestra de hoje. Fala um pouco mais dessa influência deles no som de vocês.
Bom, é que sempre bebemos muito de uma mescla de Racionais com o Costa a Costa. Quando surgiu a mixtape Dinheiro, Sexo, Drogas e Violência, do Costa a Costa, a gente era leigo. Estranhamos o reggaeton, as repetições de rimas, mas com o tempo aquilo foi se revelando como a melhor coisa que surgiu no Brasil. Não há nada nessa geração atual a nível na minha opinião. Foi aí que entendemos que podíamos cantar (e ser) sobre nós mesmos, nossos amigos e companheiros de bairro.

O rap era muito aquele lance de imitar os clássicos. Parecia que o sotaque de São Paulo era o "idioma" do rap nacional. Essa mix do Costa a Costa mostrou que não. Que "somos o que somos". E ela ainda é muito ouvida hoje aqui. É muito atual. Quem está na rua se identifica muito. O Ceará daquela época lembra o Pernambuco de hoje.

Como rolou a participação do Gallo (Costa a Costa) no EP?
No ano passado, Gallo e os menino do Relatos De Fortaleza ficaram na minha casa pra resolver umas questões do visto, porque Côro MC (RDF) ia gravar na Califórnia. Todos eles iam passar uma semana lá nos EUA. E a embaixada norte-americana mais próxima de Fortaleza é a de Recife, por isso os hospedei.

O que aconteceu foi que eles tiverem o visto negado duas vezes por questões de raça e de condição social. Foi horrível. E por isso o Gallo canta na sua belíssima participação na faixa "Coração no Gelo": "Eu sou bem-vindo na favela, mas tive o visto negado".

Levamos Gallo e os meninos do RDF em vários lugares aqui em Pernambuco, e todas as rimas dele foi sobre suas vindas ao estado.
Gravar com Nego Gallo constituiu um feito mágico pra nós, porque, como fãs, sempre almejamos uma parceria com nosso ídolo. E nunca achei que fosse acontecer. Mas de repente rolou e foi muito aprendizado.

E como está a cena de rap no Nordeste hoje?
Só posso falar do que eu sei, que é que tem gente produzindo pra caralho. A galere percebeu que, se não correr dez vezes mais, vai ficar pra trás sempre. Tem vários grupos que tão produzindo e vivo: o NSC, um grupo do Maceió, tem um público enorme e faz um bom diálogo com as massas. O D.D.H, da Bahia, está foda pra caraio também... Os meninos da Alive Records, de Aracajú, são outros que tem que prestar atenção. Tão trabalhando firme. E o EP de Nego Gallo tá pesado demais, também.

Mas acredito que Don L seja o nordestino mais bem preparado pra conquistar um público nacional. Acho o Rapadura repetitivo nos sons
e não vejo ele preocupado com a nossa cena, em fazer outros artistas daqui subirem também. Vejo apenas ele falar do Nordeste, mas sem outro tipo de envolvimento. Pra mim, Don L é o melhor dessa nova geração, não apenas por ele ser nordestino, mas também porque ele tem muito mais talento e sensibilidade que os demais.

E como você enxerga a aceitação do rap nordestino no resto do Brasil?
Acho que o Brasil se fecha pra nós. Acham a gente "engraçado", riem do nosso sotaque. Isso sem falar de preconceito mesmo.
Vejo cara que ouve muito rap paulista ou carioca e acaba estranhando outro sotaque. Enxergam nossa terra como exótica. Tem muita gente que não consegue nos enxergar como artistas de fato, só como sonhadores tentando a sorte. Mas eles estão enganados. E outra, se a gente conseguir reconhecimento no Brasil inteiro, acho ótimo, lógico. Mas, a nossa cena é essa aqui e não vamos imitar ninguém para entrar nesse "game". Mas a gente está crescendo tanto que vai ter uma hora que não vai dar mais pra nos ignorar.

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