A Evolução de M.I.A.

A M.I.A. não é só mais uma estrela pop. Ela passou mais de uma década saltitando entre zonas de guerra e cenas de música burguesa. Por isso sua história não pode ser ignorada.

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25 Agosto 2015, 12:00pm


Ilustração por Dan Evans

Lembra quando "Paper Planes" era usada como trilha sonora em trailers de comédias de maconheiros e montagens com cenas de esportes, e todo mundo tratava a M.I.A. como se ela não passasse de uma novidade que surgiu na cena, e não como uma figura cultural totêmica que passara mais de uma década saltitando por zonas de guerra, cenas de música burguesa, pelas linhas de frentes dos tabloides e o exílio político? A história dela não deve ser ignorada. Então aqui nós retraçaremos a evolução de M.I.A., dos primeiros anos morando em cidade pequena até se tornar um improvável ícone mundial: uma pop star responsável por grandes sucessos das rádios; um ícone do anti-estilo, alguém com consciência; uma relativista do terrorismo; uma poderosa força criativa transglobal. M.I.A. mostrou o dedo para o povão dos Estados Unidos, deu seu apoio ao Wikileaks, usou calças capazes de induzir crises epiléticas, e colaborou com algumas das figuras mais inovadoras do underground internacional. Antes disso tudo, porém, era Mathangi "Maya" Arulpragasam.

Crescendo Pelo Mundo Inteiro Com Uma Conexão Discada

É bem documentado o fato de que o pai de Maya era um governista tâmil no Sri Lanka, e fundador do Eros, um corpo estudantil que fez campanha durante os anos 70 e 80 por um estado tâmil independente. Maya nasceu na Inglaterra, mas seu pai levou a família de volta para o Sri Lanka quando ela tinha apenas seis meses de idade, de modo que ele pudesse ajudar na luta pela independência tâmil. Pegando para si retalhos de tecido que caíam da mesa de sua mãe costureira – "porque o que caía no chão era meu" – e cercada pelos projéteis errantes da guerra civil, as partes mais importantes da futura paleta de sons de M.I.A. começaram a se formar.

Sua carreira foi marcada por várias ocasiões de oposição ao governo do Sri Lanka. Ela várias vezes tentou denunciar suas transgressões, afirmando que eles são responsáveis pelo genocídio dos tâmis locais. No show que fez no Glastonbury, em 2014, apareceram camisetas protestando contra a deportação de tâmis. Ainda assim, apesar de compartilhar desta causa com seu pai, ela não falou com ele muitas vezes depois da infância, já que o papel dele dentro dos Tigres Tâmis forçou a família a fugir do Sri Lanka e voltar para Londres, em 1986, onde moraram em albergues e em council flats (o equivalente britânico das habitações financiadas pelo governo). Voltando para a Inglaterra numa família com só um dos pais, os Arulpragasam se descobriram na posição de recheio de um sanduíche habitacional, cercados por irlandeses de um lado e jamaicanos de outro.

Ela contou à Time Out:

"Eu tinha dez anos e não sabia nada sobre punk ou hip-hop. As únicas palavras que conhecia em inglês eram 'dance' e 'Michael Jackson'. Fomos colocados num apartamento em Mitchum, e o conselho nos deu móveis usados, roupas usadas e um rádio usado, que toda noite eu levava para a cama comigo. Havia uma família negra de um lado e uma família irlandesa de outro. Entre eles e o rádio, acabei ouvindo o London Posse, que eram os melhores do hip-hop britânico e tinham um fluxo muito original, e batidas originais, que me faziam sentir bem, e The Clash, que também foi muito importante para mim e para Londres. Aí a família irlandesa roubou o meu rádio enquanto eu estava na escola."


The Clash – "Straight To Hell", que posteriormente foi sampleada em "Paper Planes"

Maya queria estudar na Central St. Martins, uma conceituada faculdade de arte de Londres, mas não possuía as credenciais necessárias. Ela lhes disse que, se eles não a deixassem entrar, ela ia "virar prostituta em King's Cross e fazer um filme sobre o assunto, e voltar três anos depois e dizer: 'Foi isso o que aconteceu comigo quando fui rejeitada pela Saint Martins'". Inacreditavelmente, pareceu funcionar. Ela pagou os próprios estudos trabalhando num call center.

Saint Martins e seu fluxo culturalmente influente de artistas, livre-pensadores e gente festeira mudaram a sua vida. Maya começou a frequentar a cena, à época exuberante, de festas em galpões. Ela contou à Time Out sobre uma noite especialmente louca:

"No momento em que entramos, encontramos uma carteira, que parecia coisa de filme – sem identidade, só uma porrada de dinheiro e uma porrada de drogas, todas as pílulas coloridas que você pudesse imaginar. Sabe, eu adoro cores! Foi como encontrar um saco de continhas. A gente tomou algumas, achamos que não tinha funcionado, e fomos indo em frente, de cor em cor. E aí tudo aconteceu de uma vez só. No dia seguinte eu não lembrava de nada. Só lembro de acordar em uma casa em Caledonian Road, e de que meus sapatos tinham perdido os saltos. Tipo uma decadência total."

A veia artístico de M.I.A. foi logo reconhecida, em especial seus graffitis em estêncil cor rosa choque, retratando tumultos civis em Sri Lanka, que chamaram a atenção de Justine Frischmann, na época à procura de alguém que pudesse realizar a transformação do Elastica de gatinhas do britpop em punks da geração pós-millennial. Em 2001, M.I.A. havia se tornado "em termos práticos, a diretora visual" do Elastica, demonstrando seus primeiros atributos estilísticos no clipe da banda para "Mad Dog God Dam" (abaixo). Seus esforços foram apropriadamente descritos por Stuart Berman, para a Pitchfork, "como uma mediação entre a agitação das estrelas do rock e a vida nas ruas", e são uma primeira amostra da abordagem copiar-e-colar/faça-você-mesmo que logo se tornaria característica dela. Certa noite, enquanto o Elastica estava em turnê no Canadá, elas todas acabaram em um show da Peaches. Peaches já estava fechando seus shows com aquela que em breve seria "Fuck The Pain Away", jogando o microfone no meio público durante o clímax da música. Nessa noite, Maya pegou o microfone e começou a gritar obscenidades. Essa foi sua primeira performance pública.


Elastica - "Mad Dog God Dam"

Quando o Elastica se separou, a vocalista do grupo, Justine Frischmann, encorajou M.I.A. a fazer suas próprias batidas em um Roland MC 505, comprado em um feriado no Caribe. "As pessoas sempre diziam: 'Você tem cara de que poderia fazer música, você dança como alguém que poderia fazer música, mas é bem óbvio que tem um ouvido de lata'", Maya disse à Spin, em 2008. Então, seguindo o conselho de Justine e ignorando todos os outros, ela começou a fazer experimentos em seu quarto. O resultado? Uma demo em six-track que incluía "Galang", faixa que muitos consideram ser a espantosa entrada de M.I.A. na indústria da música, e que a ajudou a fechar contrato com a lendária XL Recordings.

Namorando Diplo, Soltando Mixtapes e Dando à Luz Seu Disco de Estreia

O som de M.I.A. era um amálgama da gíria londrina com inferências políticas derivadas das batidas de rua de milhares de diferentes países em desenvolvimento. Ele não se encaixava numa cena musical que estava em processo de curtir sua ressaca do milênio, então M.I.A. saiu em busca de um contemporâneo, que encontrou em Diplo. Seu oposto em termos físicos, mas seu igual em termos criativos, Thomas Wesley Pentz era o voyeur global de que Maya precisava.

"Fora o fato de que eu era um cara branco da Flórida, e ela uma garota de Sri Lanka morando na Inglaterra, o resto todo era igual: [os dois éramos] formados em cinema, [ouvimos] as mesmas músicas quando garotos, agora estávamos indo na mesma direção musical, foi um negócio incrível!", ele contou à Pitchfork em 2005.

Os dois haviam se conhecido na boate Fabric, em Londres, onde, por coincidência, Diplo estava tocando "Galang" para uma horda de adolescentes suados. Ele também tinha pegado outra faixa – "Fire Fire" – de alguém na revista i-D, que estava tocando no momento em que Maya entrou na boate. A dupla logo começou uma relação romântica que trouxe consigo mais do que os momentos compartilhados na solidão da noite. Eles gravaram uma mixtape, intitulada Piracy Funds Terrorism, que foi distribuída em shows e na internet, servida como uma entrada para os primeiros gigantes de criação de hype da internet. Piracy Funds Terrorism utilizou uma comunidade online que Diplo há muito vinha cortejando com seu envolvimento na Hollerboard, um proto-grupo privado de Facebook para esnobes musicais. Contando com o vocal de Maya se sobrepondo a samples retirados de Madonna, Kraftwerk e Eurythmics, foi uma preliminar bem executada de Arular, sua estreia agora já há muito esperada, e que se mostrou uma primeira obra curiosa mas insaciável.

Enquanto os blogueiros de música continuavam a descer o cacete seu sampling descuidado com camadas de laivos sócio-políticos, M.I.A. soltou Arular, lançado pela XL, em março de 2005. Batizado com o codinome tâmil de seu pai, na esperança de que ele um dia se buscasse no Google e descobrisse a obra criativa de sua filha (isso aconteceu, e Maya depois relatou ao The Guardian: "Me irrita que eu acabe dedicando tanta atenção a ele, sendo que ele teve tão pouco a ver com a minha vida"), o disco juntava inspirações de uma vida inteira. Seu etos faça-você-mesmo criticava a ética da música punk, embora seu sampleamento esperto de batidas com sabor bhangra e dancehall o colocasse com pés firmes no século XXI. E ainda assim batia mais forte do que as batidas soltadas por todos os "produtores de quarto" vivendo no mundo do acesso instantâneo à internet e do Soundcloud.

O Sucesso Transatlântico e As Dores de Virar Global

Diplo não conseguiu aguentar o rojão do sucesso transatlântico de Arular, e o relacionamento deles azedou. Lembrando a época em uma entrevista recente para a Rolling Stone, M.I.A. disse: "Missy Elliott me chamou pela primeira vez em 2005, para trabalhar comigo no disco dela, e tenho certeza de que tivemos alguma briga gigantesca por conta disso... Eu queria ter curtido a coisa, porque tinha uma pessoa no meu ombro o tempo inteiro dizendo "é uma merda, é uma merda, é uma merda. Você não deve estar na lista dos mais vendidos'." Parecia o caso de um namorado que te apoia querendo proteger você, ficando com ciúmes, e depois se sentindo inseguro quando os aplausos começam a chegar. É claro, o Diplo veio a ter uma carreira subversiva, em que continuou resolutamente underground, nenhuma vez encostando em produções com um estilo que cortejasse o dos mais vendidos.

Depois de passar um verão tocando em festivais – nos quais ela ganhou um raro bis durante seu set no Coachella – e saindo em turnê com gente como Gwen Stefani e LCD Soundsystem, as engrenagens de Kala, o segundo disco de M.I.A., foram logo postas em movimento. Agora tendo fechado contrato com a Interscope nos EUA, Kala, batizado com o nome de sua mãe, se tornaria um acontecimento forçadamente internacional. Ela foi esporadicamente impedida de entrar nos EUA devido a complicações com o visto, e o disco foi assim gravado na Índia, na Libéria e em Trinidad.

"Quando comecei a gravar uma música na Índia, digamos 'Boyz'. Gravei a parte da bateria na Índia, e depois fiquei com os arquivos da música em Trinidad. Nós montamos a música e fizemos a parte vocal em Trinidad, e aí trabalhamos um pouco mais nela no Brooklyn, e então voltamos para a Índia e trabalhamos nela mais um pouco ainda", contou ao The Village Voice em 2007. "Boyz", uma mistura tríplice de influências, virou uma música dançante instantânea, acompanhada ainda por cima de um clipe ridiculamente vibrante. Estilizado pela madrinha da nova moda rave, Cassette Playa, foi filmado na Jamaica após conseguir uma grande de popularidade como uma música de pista de dança em Kingston ("fazia todo mundo pirar").


"Boyz"

Incorporando moda britânica, dançarinos jamaicanos e uma vibe completamente fora-desse-mundo, "Boyz" era um monte de cores tendo um ataque cardíaco, o que gerou milhares de spin offs. Até mesmo Diplo posteriormente acusaria Rihanna de copiá-la em "Rude Boi", mixando um mashup com o característico charminho para enfatizar seu ponto. M.I.A. estava abrindo novos caminhos.

Quando terminaram os trabalhos de Kala, M.I.A. voltou para os Estados Unidos. Em uma entrevista para o The Village Voice, ela pintou uma imagem gloriosa das reuniões que a Interscope havia organizado em nome dela. "Will.i.am e Pharrell e Timbaland estavam todos numa sala, e eu acabando de chegar da Índia, onde trabalhava num estudiozinho com baratas e crianças usando meus CDs virgens como frisbees e tal. E aí eu sentei num estúdio de um milhão de libras com T.I. e Britney na porta ao lado."

Pharrell e will.i.am, ainda bem, não entraram no disco. Timbaland, contudo, deu uma mãozinha em "Come Around", uma faixa bônus que sentiu nos ombros o peso da expectativa. Feita num só dia, e obviamente nos termos de Timb, a colaboração acabou virando uma nota de rodapé. "No momento em que nossos caminhos se cruzaram, Timbaland já era Timbaland, e já tinha feito todas aquelas coisas bizarras maneiras. Ele já sampleou bebês e vacas e coisas, e eu estava fazendo faixas sampleando galinhas. E ele disse 'cansei de ser cool, quero trabalhar com a Celine Dion.'"


"Come Around"

"Boyz" e "Come Around" são o som da evolução: uma artista crescendo e utilizando as oportunidades para fazer mais um disco sucesso de crítica e público, sem perder o DNA que transformou Maya Arulpragasam em M.I.A. Num documentário feito no início da carreira de M.I.A., o diretor de criação da VBS, Spike Jonze, viajou com ela por Londres, encontrando amigos e colaboradores após o lançamento de Kala. Ela disseca faixas como "Paper Planes" enquanto dança pelo apartamento de seu protégé, Afrikan Boy. Ela diz a Jonze que "o lance é conseguir vistos", enquanto ela e Afrikan Boy fazem poses sem quase nenhum espaço para se mexerem. Não havia conhecimento do que estava por vir.

A Superstar Internacional

Depois do lançamento de Kala, "Paper Planes" foi apanhada pelos maiores distribuidores possíveis: Hollywood e Kanye West. Usada no trailer do épico universitário Pineapple Express, e depois no blockbuster produzido por Kanye “Swagga Like Us”, estrelado por Jay-Z, Lil Wayne e T.I, "Paper Planes" se tornou inescapável.

A música rendeu uma indicação ao Grammy, e uma M.I.A. extremamente grávida juntou-se a Kanye e amigos para tocá-la ao vivo na cerimônia de premiação. Usando um vestido Henry Holland que não deixava nada para a imaginação, 2008 tornou-se o ano em que Maya havia oficialmente conquistado o mundo, sendo a única pessoa na história a ser nomeada para um Mercury Prize, um Brit, um Grammy e um Oscar. Mas ela recusou o convite de se apresentar no Oscar por conta do nascimento do filho que teve com seu então noivo, Ben Bronfman.

Com uma porrada de indicações para prêmios e milhões de discos vendidos por todo o mundo, o estilo de vida de Maya mudara significativamente. Parte do passado eram os dias de pular de país em país para gravar em estúdios onde crianças brincavam do lado de fora, no chão de terra, e seu terceiro disco foi gravado na casa em Los Angeles que ela dividia com Bronfman, um músico cuja família tinha as chaves do Warner Music Group.

Era inevitável que seu processo criativo mudasse, embora ela não tenha se deixado levar por uma maré que facilmente poderia tê-la carregado para um reino de grandes sucessos desprovidos de coração. Em vez disso, ela dedicou tempo ao seu selo, o N.E.E.T., contratando um artista visual, Jaime Martines, com o qual ela criou uma das primeiras encarnações do gif – contando com arte #onfleek, em vez da combinação hoje comum de programas de TV da era Netflix com um textinho apropriado para compor uma citação.


O gif pioneiro de M.I.A.

Depois de dar à luz, ela passou a maior parte do tempo em LA. A viagem por diferentes países foi substituída pela leitura sobre eles na internet. Uma ferramenta que antes ajudara tanto se tornou empecilho – suas afinidades políticas podiam ser postas, e com facilidade, diante dos olhos de todos. A ascensão do Twitter tornou-se um cálice envenenado quando ameaças de morte contra Maya e seu filho surgiram, vindas de simpatizantes do Sri Lanka que a chamavam de terrorista. Ela reagiu, postando vídeos de execuções ilegais realizadas pelos Tigres de Tâmil em seu próprio perfil. Ela combateu com sua própria artilharia a artilharia online, e a situação explodiu num resplendor de glória em abril de 2010, com o lançamento de "Born Free".

Genocídios Ruivos, Tuítes com Números de Telefone e Dedo do Meio

M.I.A. se tornou oficialmente uma figura polêmica depois de decidir colaborar com o diretor francês Romain Gavras em "Born Free". Foi sua tentativa mais visual de tornar inescapável o indizível. O vídeo, que tinha nove minutos de duração e fora filmado no deserto, retratava o assassinato extrajudicial de homens tâmis que ela havia uploadeado três meses antes de seu feed no Twitter, mostrando a captura e a execução de crianças ruivas por parte de uma milícia armada. Lançado sem que sua gravadora soubesse, o vídeo foi imediatamente banido do YouTube e dos canais de televisão, e ela se tornou um ícone de controvérsia.

Representando muitos – o genocídio silenciado no Sri Lanka, a imigração no Arizona, os mal tratos de prisioneiros no exterior – "Born Free" é simbólico de uma M.I.A. que se formara na escola de cores brilhantes e gratuitas, mudando a sua tática de simplesmente mencionar os assuntos para a de mostrar imagens tão chocantes que nos faziam virar o rosto. Ela respondeu às críticas feitas a "Born Free" redirecionando a atenção para realidades mais amplas, dizendo como estava "fascinada" pela reação. "Acho interessante a maneira que reagimos à ficção e a maneira que reagimos ao realismo na internet... isso aqui é a grande mídia, quisera eu estar falando sobre teorias bem mais alternativas, mas não estou, isso aqui sou só eu digerindo o que vejo na grande mídia", disse ela ao MTV News. O novo clipe de Justin Bieber é uma "agressão maior aos meus olhos e sentidos do que o vídeo que eu fiz", ela declararia mais tarde ao NME.


"XXXO."

Embora Romain Gavras tenha dado continuidade ao assunto do genocídio de ruivos em seu longa-metragem Our Day Will Come, o mundo digital parecia não mais trabalhar em favor de M.I.A. Sua desconfiança dele acabou sendo o assunto de /\/\ /\ Y /\, seu terceiro disco. Estilizado como um conceito que o Google não reconhece (tente fazer a busca), o disco parece preso onde seus predecessores são livres. Ele é intenso e claustrofóbico, as faixas gritando com sua tipografia em CAPS LOCK. Com um som industrial e acorrentado, até mesmo a tentativa de fazer um pastiche pop, "XXXO", é toda lambuzada de cinismo.

O disco foi bem recebido, seu tema desconfiado tão fascinante quanto se passou a esperar que seria, sendo algo vindo de uma artista tão franca quanto ela, embora não tenha sido tão bem avaliado quando seus antecessores. Possíveis fãs foram provavelmente ainda mais afastados por uma entrevista hoje infame ao New York Times, em que Maya foi confrontada com a volubilidade de suas ideias políticas e com seus gostos, que não parecem condizer com a versão oficial de uma "guerreira da liberdade". O artigo – e a decisão de Maya de comer batatas fritas trufadas enquanto afirmava seu status de outsider – causaram uma tempestade de merda na mídia. A reação de Maya ao artigo foi tuitar o telefone do jornalista. A revista publicou uma retratação das citações, reconhecendo que algumas haviam sido tiradas de contexto, mas o dano estava feito: M.I.A. era, agora, em primeiro lugar, uma celebridade polêmica, e em segundo lugar uma artista, e modificar a percepção do público a respeito dela se tornaria uma empreitada mastodôntica. Com o escândalo da trufa a seguindo por onde quer que ela flanasse, M.I.A. pregou alegremente o próprio caixão, usando somente o dedo do meio.

Trocando a palavra "merda" por mostrar o dedo do meio enquanto se apresentava no Super Bowl de 2010, ela tomou na cara um processo multimilionário. Ela havia emputecido a Madonna, o Super Bowl, e a população de valores família dos Estados Unidos, cuja porção anual de shows de grande orçamento havia sido substituída por um dedo do meio aplicado com habilidade. A música foi colocada no freezer, sendo seu único lançamento nos três anos seguintes uma mixtape, Vicki Leekx, lançada na noite de ano novo de 2010. Foi um último suspiro do ano de 2010, um irreverente dedo do meio para finalizar um ano que a reduziu a nada mais do que uma criadora de casos.

O Renascimento de Mathangi e o Futuro

O disco mais recente de M.I.A., Matangi, voltou à cidade do mundo para colher sua inspiração. Gravado depois que ela conseguiu sair de seu bloqueio criativo na Índia, M.I.A. tinha retornado a velhos e leais conhecidos, como Switch, para ajudar no disco, revisitando a Índia para pesquisar e se reinventar. Batizado com o nome da Deusa Hindu da música e do conhecimento, e seu próprio nome do meio, Matangi carrega em si uma delicadeza que se perdeu nas siriricas claustrofóbicas de /\/\ /\ Y /\. Uma leve calmaria após um furacão, seu rosto estampado na capa: M.I.A. estava de volta.

O single principal do álbum, "Bad Girls", é um retorno poderoso. Ouvido pela primeira vez em Vicki Leekx, Maya esperou dois anos para lançá-lo do jeito certo, e, quando chegou, em 2012, veio junto com um clipe que a posicionou firmemente na mente do público como uma das artistas visuais mais originais do século XXI. Tipo, sério. O vídeo mostra M.I.A. fazendo um rap dentro de um carro passando pelo deserto marroquino apoiado somente nas duas rodas da direita. O que mais se pode querer?

Lançado no Noisey junto com uma entrevista sobre seu novo disco, Maya descreveu Matangi como uma culminação de seus três primeiros discos. Numa dolorosa entrevista à Hot 97, ela fala sobre como ele "unifica uma porrada de conceitos" – montando um quebra-cabeças de autodescoberta que a transformou em uma mulher capaz de lidar com as perguntas flatulentas que são jogadas em sua cara por gente como Peter Rosenberg. Intensamente consciente, mas ainda disposta a jogar, M.I.A. emergira dos anos 2000 uma mulher madura.

Foram silenciosos esses dois anos desde o lançamento de Matangi. Em março último vimos seu primeiro material solo desde 2013. "Can See Can Do" foi, sem dúvida, uma precursora de novas músicas. Com o vídeo "Broader Than a Border", incluindo a nova faixa "Swords", ela anunciou o próximo disco, Matahdatah, ainda sem data de lançamento. Será, finalmente, a quinta onda de M.I.A. Esperemos. Enquanto isso vou ficar ouvindo "Galang" no talo, até que minhas orelhas sangrem arco-íris.

Tamara Roper está no Twitter.

Tradução: Marcio Stockler